Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais A Biografia de Manuel Tito de Morais está fixada a partir da magnífica entrevista de Maria José Gama publicada na Acção Socialista em 6 de Maio de 1991. Terá sido, talvez, a última oportunidade de colher através dessa conversa factos e feitos da sua vida particular e política. Devia ter 81 anos e bem presentes os acontecimentos em que participara depois do 25 de Abril, quando já eram decorridos dezassete anos da Revolução. Ainda teria mais alguns para viver e para acompanhar a evolução da vida política portuguesa.

Nascido em 1910, estava na casa dos sessenta quando regressava a casa em Liberdade, depois de vários exílios e prisões. Foi comovente, para quem era um pouco mais novo, participar nesse seu primeiro encontro com a sua terra libertada e dar-lhe um primeiro abraço em nome da Revolução.

Era a madrugada de 28 de Abril de 1974. Fazia frio, uma neblina gelada, e os poucos soldados que patrulhavam a estação fronteiriça cobriam-se com cobertores – o que lhes dava um ar pouco militarizado, de quem estava ali provisoriamente, sem saber muito bem o que estava a fazer. Mais formal, o Chefe da Estação, que durante anos da sua vida recebera o SUD-Expresso de Paris, ao ver tanta gente importante àquelas horas, informava-se sobre quem seriam os viajantes desse comboio especial.

O aeroporto de Lisboa fora fechado e o grupo da Oposição da Guarda, de Viseu e de Castelo Branco ouvira as noticias via BBC e sabia que Mário Soares regressava de comboio. Eu própria falara com o João Soares que confirmara, mas não sabíamos quem mais vinha nesse comboio. Então, com meia dúzia de telefonemas, foi fácil juntar um grupo de amigos que ali estava a receber em festa os exilados. Para eles a surpresa foi total. Encerrados num comboio durante um dia e uma noite, mostravam uma enorme ansiedade por notícias. Perguntavam pelos jornais... E foram ao bar da estação tomar um café com leite. Foi ali que conheci o Tito. Depois o comboio partiu. Da chegada a Lisboa, a Santa Apolónia, todos os jornais deram testemunho. Era o primeiro banho de multidão.

Mas antes disso, os comboios cruzavam-se em Mangualde, onde seria fácil obter os jornais que vinham de Lisboa. Fizemos a viagem de carro à velocidade do comboio e a tempo de entregarmos aos nossos amigos os tais jornais que traziam as últimas notícias dos três primeiros dias da revolução. A onda alta de acontecimentos e entusiasmos manteve-se durante uma semana. A partir do 1 de Maio tudo começou a ser difícil, pesado, politizado, enviesado, duro, preocupante.

De todos era o Tito de Morais o que me parecia mais preocupado. Quem sabe o que lhe ia pela cabeça? Talvez a "organização" do Partido Socialista, pois logo no primeiro momento combináramos uma ida a Lisboa para "começar a trabalhar". Assim se fez, e foi com o Tito que sempre me encontrei para resolver questões de organização, das fichas de inscrição até ao primeiro convite para ir à Guarda inaugurar a sede de trabalho do Partido Socialista, onde os espanhóis vinham buscar papeis, eles, ainda clandestinos, a viverem a nossa alegria. E Tito ali esteve para o primeiro comício no Liceu Nacional da Guarda, onde se reuniram seis mil pessoas, num ambiente muito quente e desde logo contestatário, entre várias direitas e várias esquerdas, dando indicações de que os próximos votos, os primeiros em Liberdade, se iriam dividir igualmente pelo PS, PPD e CDS. Era a Beira interior e o velho medo dos comunistas a funcionar. Era a voz dos "retornados" que ainda diziam "Angola é nossa". Eram os "velhos" homens da oposição hesitantes entre Socialismo e Democracia... Era o Portugal do fim do Estado Novo, que nas Beiras foi mais resistente do que na grande cidade. Longas histórias que ainda não estão escritas. E o Manuel Tito de Morais teve uma intuição muito esclarecida perante estes problemas que o Partido Socialista enfrentou com enorme determinação.

Mais tarde, eu própria quis conhecer mais profundamente o pensamento político do Tito – e esse encontrei-o através da enorme maratona que foi manter a edição do Portugal Socialista, escrito em Itália, sobrevivendo sabe-se lá como. Não cabe neste texto mais do que esta referência, mas fica o convite para quem quiser fazer esse trabalho: a génese do Partido Socialista, as suas raízes ideológicas, a convicção do futuro, estão nesse jornal que o Manuel Tito de Morais orientava, coordenava e escrevia do exílio. A edição de uma colectânea dos seus textos políticos seria bem vinda, neste centenário, para se entender a formação política e ideológica dos homens que sempre contestaram a ditadura e tiveram forças e inteligência e lutaram em todos os campos para realizarem a primeira obra da Liberdade, a Constituição de 1976, como foi o caso de Manuel Tito de Morais. Porque sem ideias não há convicções e sem ambas não haverá Revolução.

Maria Helena Carvalho dos Santos



publicado por CCTM às 09:00
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Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

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