Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais A Biografia de Manuel Tito de Morais está fixada a partir da magnífica entrevista de Maria José Gama publicada na Acção Socialista em 6 de Maio de 1991. Terá sido, talvez, a última oportunidade de colher através dessa conversa factos e feitos da sua vida particular e política. Devia ter 81 anos e bem presentes os acontecimentos em que participara depois do 25 de Abril, quando já eram decorridos dezassete anos da Revolução. Ainda teria mais alguns para viver e para acompanhar a evolução da vida política portuguesa.

Nascido em 1910, estava na casa dos sessenta quando regressava a casa em Liberdade, depois de vários exílios e prisões. Foi comovente, para quem era um pouco mais novo, participar nesse seu primeiro encontro com a sua terra libertada e dar-lhe um primeiro abraço em nome da Revolução.

Era a madrugada de 28 de Abril de 1974. Fazia frio, uma neblina gelada, e os poucos soldados que patrulhavam a estação fronteiriça cobriam-se com cobertores – o que lhes dava um ar pouco militarizado, de quem estava ali provisoriamente, sem saber muito bem o que estava a fazer. Mais formal, o Chefe da Estação, que durante anos da sua vida recebera o SUD-Expresso de Paris, ao ver tanta gente importante àquelas horas, informava-se sobre quem seriam os viajantes desse comboio especial.

O aeroporto de Lisboa fora fechado e o grupo da Oposição da Guarda, de Viseu e de Castelo Branco ouvira as noticias via BBC e sabia que Mário Soares regressava de comboio. Eu própria falara com o João Soares que confirmara, mas não sabíamos quem mais vinha nesse comboio. Então, com meia dúzia de telefonemas, foi fácil juntar um grupo de amigos que ali estava a receber em festa os exilados. Para eles a surpresa foi total. Encerrados num comboio durante um dia e uma noite, mostravam uma enorme ansiedade por notícias. Perguntavam pelos jornais... E foram ao bar da estação tomar um café com leite. Foi ali que conheci o Tito. Depois o comboio partiu. Da chegada a Lisboa, a Santa Apolónia, todos os jornais deram testemunho. Era o primeiro banho de multidão.

Mas antes disso, os comboios cruzavam-se em Mangualde, onde seria fácil obter os jornais que vinham de Lisboa. Fizemos a viagem de carro à velocidade do comboio e a tempo de entregarmos aos nossos amigos os tais jornais que traziam as últimas notícias dos três primeiros dias da revolução. A onda alta de acontecimentos e entusiasmos manteve-se durante uma semana. A partir do 1 de Maio tudo começou a ser difícil, pesado, politizado, enviesado, duro, preocupante.

De todos era o Tito de Morais o que me parecia mais preocupado. Quem sabe o que lhe ia pela cabeça? Talvez a "organização" do Partido Socialista, pois logo no primeiro momento combináramos uma ida a Lisboa para "começar a trabalhar". Assim se fez, e foi com o Tito que sempre me encontrei para resolver questões de organização, das fichas de inscrição até ao primeiro convite para ir à Guarda inaugurar a sede de trabalho do Partido Socialista, onde os espanhóis vinham buscar papeis, eles, ainda clandestinos, a viverem a nossa alegria. E Tito ali esteve para o primeiro comício no Liceu Nacional da Guarda, onde se reuniram seis mil pessoas, num ambiente muito quente e desde logo contestatário, entre várias direitas e várias esquerdas, dando indicações de que os próximos votos, os primeiros em Liberdade, se iriam dividir igualmente pelo PS, PPD e CDS. Era a Beira interior e o velho medo dos comunistas a funcionar. Era a voz dos "retornados" que ainda diziam "Angola é nossa". Eram os "velhos" homens da oposição hesitantes entre Socialismo e Democracia... Era o Portugal do fim do Estado Novo, que nas Beiras foi mais resistente do que na grande cidade. Longas histórias que ainda não estão escritas. E o Manuel Tito de Morais teve uma intuição muito esclarecida perante estes problemas que o Partido Socialista enfrentou com enorme determinação.

Mais tarde, eu própria quis conhecer mais profundamente o pensamento político do Tito – e esse encontrei-o através da enorme maratona que foi manter a edição do Portugal Socialista, escrito em Itália, sobrevivendo sabe-se lá como. Não cabe neste texto mais do que esta referência, mas fica o convite para quem quiser fazer esse trabalho: a génese do Partido Socialista, as suas raízes ideológicas, a convicção do futuro, estão nesse jornal que o Manuel Tito de Morais orientava, coordenava e escrevia do exílio. A edição de uma colectânea dos seus textos políticos seria bem vinda, neste centenário, para se entender a formação política e ideológica dos homens que sempre contestaram a ditadura e tiveram forças e inteligência e lutaram em todos os campos para realizarem a primeira obra da Liberdade, a Constituição de 1976, como foi o caso de Manuel Tito de Morais. Porque sem ideias não há convicções e sem ambas não haverá Revolução.

Maria Helena Carvalho dos Santos



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Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Conheci o Engenheiro Tito de Morais há várias décadas, morava ele ainda no Campo Grande onde sua saudosa primeira mulher e eu nos encontrava-mos passeando os nossos filhos. Foi, portanto, uma amizade que vem de longe e que se foi reforçando com os tempos e o convívio político.

Recordo-o em Roma, exilado, onde apaixonadamente cuidava do Portugal Socialista que ia dando aos portugueses, também exilados e a todos os outros que comungavam das mesmas convicções políticas, notícias do que se passava no país – então dominado pela ditadura – dos esforços e sonhos concebidos pelos que lutavam por um regime de liberdade onde quer que se encontrassem, dentro e fora dele.

Foi, portanto, um militante sempre activo no anseio e combate pelos direitos humanos e pela implantação da Democracia em Portugal. Esteve em Bad Münstereifel com um pequeno grupo de exilados e de portugueses que vieram disfarçadamente de Portugal fazendo, por isso, parte do núcleo histórico que fundou o Partido Socialista.

Com ele partilhamos o entusiasmo e a emoção da notícia da Revolução de Abril que trouxe ao nosso país a Democracia, o respeito pelos Direitos Humanos e a Liberdade.

Tito de Morais, pela sua coragem, pela constância e determinação da sua luta contra a ditadura conquistou um lugar na história do nosso país.

Maria de Jesus Barroso



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Todo o programa das Comemorações do Centenário de Nascimento de Manuel Alfredo Tito de Morais envolve um relevante significado dada a justa Homenagem que se presta à sua luta constante, empenhada e determinada, que sem tréguas travou pela implantação da Liberdade em Portugal.

Contudo não posso, nem devo, deixar de salientar a importância que representa esta Edição Especial do Portugal Socialista. Considero-a um dos pontos altos, porque se traduz numa colectânea de textos escritos, por quem o conheceu efectivamente, dando-se assim testemunho da sua vida quer familiar quer política, pois ambas permaneceram indissociáveis.

Muitos dos testemunhos aqui publicados foram escritos por protagonistas da Revolução de Abril, mas todos eles, transmitirão às jovens gerações a memória da acção que foi necessária implementar para que a Revolução dos Capitães não tivesse sido em vão e se garantisse a necessária estabilidade democrática. Por outro lado, não menos importante, trata-se de editar o Órgão Central do Partido Socialista fundado e lançado exactamente por Tito de Morais na clandestinidade. Nessa ocasião editar e distribui-lo em Portugal foi uma temeridade e foi um marco histórico.

Ao regressar, a calorosa recepção do País a Tito de Morais, Mário Soares e Ramos da Costa, bem presente na nossa memória, poder-se-á considerar como a 1ª Homenagem prestada por toda uma Nação agradecida e consciente.

Esta comunhão de sentimentos, profundamente contagiante, ficou espelhada na foto que lhe foi tirada à chegada e onde está bem patente a sua grande felicidade. Tito de Morais até parecia ter esquecido o seu passado difícil e conturbado. Como as perseguições, as prisões e o exílio que o obrigaram a sacrificar uma promissora carreira profissional, na sua qualidade de engenheiro, bem como a tranquilidade do lar.

A par da política dirigia o seu carinho e encantava-o a família que gostava de ter junto de si, certamente para compensar os anos em que isso bastas vezes lhe foi negado pela força das circunstâncias de resistente anti-fascista. Felizmente este seu legítimo sonho encontrou eco nos familiares e foi de tal forma conseguido e evidente que, curiosamente, sempre se considerou a Família Tito de Morais como um verdadeiro “clã”, no sentido mais nobre da expressão.

Por vezes no nosso imaginário criam-se mitos que se desvanecem ao privar-se de perto com os visados. No entanto, com Tito acontecia precisamente o contrário. Todos, que de qualquer modo tivemos o privilégio de consigo colaborar, considerávamos que à medida que mais privávamos e melhor o conhecíamos mais aumentava o nosso respeito e admiração. Recordamo-lo, segundo as diversas áreas de intervenção, como uma personalidade humanista de grande carácter e integridade que pôs a sua inteligência, cultura, saber e enorme capacidade de trabalho ao serviço do seu país, o qual amou intensamente. A sua preocupação e principal objectivo, antes e após o 25 de Abril, visava designadamente o desenvolvimento social e económico.

Jamais se coibiu de alertar com frontalidade e de manifestar a sua discordância, quando era caso disso. Expressava as suas críticas e apresentava sugestões alternativas. Procurava o diálogo. Argumentava dando a conhecer o seu pensamento analítico. Guiava-o a firme ambição de que efectivamente se concretizasse a prática dos valores republicanos de Justiça, Igualdade e Fraternidade.

Tito de Morais, que foi, é e será sempre uma grande referência, permanecerá na memória colectiva e nos nossos corações.

Maria José Gama



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Manuel Tito de Morais faria cem anos no dia 28 de Junho. Para mim, e creio que para todos os que o conheceram, será sempre intemporal…uma referência no nosso imaginário colectivo, um exemplo de coragem e de determinação.

Mas o "camarada Tito", como tantas vezes ouvi referenciar, era muito mais do que isso, porque sempre usou essa coragem e determinação para o bem comum, não cruzou os braços inconformados, quis mudar o futuro.

Um futuro sem grilhetas, sem mesquinhez, sem injustiça, um futuro digno dos valores republicanos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade era a razão do seu inconformismo e da sua luta.

Tito de Morais faz-nos ter orgulho num partido que foi o seu, de que foi um dos fundadores em tempos difíceis, de clandestinidade e de exílio. E a História nunca lhe fará suficiente justiça, porque a sua abnegação e entrega à luta pela liberdade será sempre incomensurável.

Como medir o sofrimento de um homem a quem privam da liberdade por, justamente, lutar por ela?

A riqueza interior de Tito de Morais revela-se na sua capacidade de resistência, mas também na sua entrega a causas públicas e políticas, hoje tendencialmente desvalorizadas por uma sociedade cansada de ser intoxicada com causas mesquinhas, que nos toldam a memória.

Também por isso, o exemplo de vida e a luta política de Manuel Tito de Morais deveriam dar-nos a exacta noção do quanto lhe devemos, porque são testemunhos de como a grandeza de homens e de mulheres que acreditaram na mudança e na justiça das causas que fizeram suas, moldaram a democracia que hoje temos e que devemos continuar a aperfeiçoar. O seu legado obriga-nos a estar atentos e atentas, a não pactuar com a indiferença, a não trair a sua memória.

Manuel Tito de Morais foi digno da revolução de Abril que o viu regressar a Portugal, após anos de exílio político activo, foi um Deputado brilhante, logo na Assembleia Constituinte, e presidiu a este órgão de soberania com o mesmo sentido de dever cívico com que integrou o VI Governo Provisório e o I Governo Constitucional, de que Mário Soares foi o Primeiro-Ministro.

Não deixou de militar activamente no Partido Socialista, de que também foi presidente, consciente de que este era crucial para consolidar a democracia e governar Portugal em tempos difíceis e tão exigentes.

Foi, acima de tudo, um homem íntegro e justo que compreendeu os desafios do seu tempo. Cedo entendeu que a qualidade da nossa democracia passava pela envolvência e participação das mulheres na vida pública e política. Sabia que o futuro, a modernidade, o desenvolvimento, teriam que contar com as mulheres. Sempre soube que elas estiveram também na primeira linha de todos os combates políticos e de todas as causas humanistas.

Tito de Morais vai ser homenageado pelo Partido Socialista e pela Assembleia da República. É de toda a justiça. Ao acarinhar a sua memória, tornar-nos-emos, nós próprios, mais ricos.

As suas lutas, as causas por que toda a vida se bateu foram suas, mas tiveram sempre como destinatários os seus concidadãos, os outros, mesmo os que desdenharam, perseguiram ou tentaram contrariar a sua perseverança.

Um desprendimento assim não se esquece, não se apaga, não se esconde. Manuel Tito de Morais foi um socialista de inestimável valor, um homem de corpo inteiro, um democrata que a jovem República viu nascer.

Hoje, cem anos depois, os tempos são de memória, para nós que o conhecemos, mas também para tantos outros, para os jovens e menos jovens que não se conformam com a injustiça e para quem os valores da república e da democracia já fazem parte da sua idiossincrasia.

Hoje, cem anos depois do seu nascimento, façamos desta homenagem a Manuel Tito de Morais um motivo de alerta, para nunca descurarmos os valores pelos quais lutou. Honramos um homem que se bateu, com coragem e determinação, contra a indiferença, contra o conformismo!

Maria Manuela Augusto
Presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas



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Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Manuel Alfredo Tito Morais Memória de um Amigo Tito Morais foi-me apresentado em Paris por Mário Soares, num fim-de-semana de reuniões políticas no âmbito das actividades da então Acção Socialista Portuguesa, organização que precedeu e deu origem ao Partido Socialista actual.

Estávamos na segunda metade dos anos sessenta, ainda com Salazar no poder, a guerra de África já instalada nas três colónias de Angola, Moçambique e Guiné e uma repressão política violenta e selectiva.

Os jovens eram mobilizados em massa para a guerra e a oposição na Universidade, após um auge de movimentação estudantil na crise de 62 e nas lutas de 65, estava decapitada pelas prisões e exílios que dizimaram o movimento. Cá dentro, os que escaparam, tentavam reanimar o movimento estudantil mantendo as Associações dos Estudantes em funcionamento e mesmo com algum desenvolvimento nas suas actividades desportivas, pedagógicas, turismo estudantil e sociais. A coordenação inter-associações foi-se mantendo a nível local e nacional e em 67 organizou-se em Lisboa a primeira grande manifestação em Portugal contra a guerra do Vietname.

Mas o regime estava sólido, as Forças Armadas cumpriam a sua missão com lealdade ao poder político e longe estávamos da convicção generalizada que a guerra não era solução para o problema colonial.

Pela parte da Acção Socialista, era defendida uma abertura imediata de negociações com os movimentos de libertação, com compromisso dum caminho da auto-determinação e independência, caso fosse esse o desejo livre dos respectivos povos.

Tito Morais, o Tito como todos os mais chegados lhe chamávamos, não tinha qualquer dúvida que a solução acabaria por ser uma independência total das colónias, e que a doutrina salazarista dum só País pluricontinental não tinha qualquer viabilidade nem razão moral ou histórica, inviabilizando um concerto entre países livres e independentes, multirraciais, de língua portuguesa e de culturas com profundas raízes comuns e enormes inter-influências de séculos de convivência.

Salazar parece não ter conhecido o exemplo do Brasil e esqueceu, como uma “branca” definitiva lhe tivesse dado, a vergonha do Estado da Índia, cristã e portuguesa, que por falta de visão deixou perder.

A minha amizade e harmonia com o Tito não foi difícil de iniciar. Em adolescente tinha sido amigo próximo do seu filho João Manuel, meu colega no Colégio Moderno. Perdemos o contacto pois o João Manuel exilou-se para o Brasil e estivemos sem nos ver até Abril de 74. As nossas ideias eram em geral coincidentes, ainda que muitas vezes o considerasse demasiado radical. Talvez o facto de estar exilado em Roma lhe desse uma visão mais afastada de algumas situações que eu, que sempre vivi em Portugal, analisava de forma diferente. Nos princípios era inflexível, embora razoável e conciliador na acção política concreta.

Pela geração a que pertencia, pela sua formação e pela sua vivência, era claramente um homem de esquerda, aquilo que poderíamos chamar, da grande família da Esquerda Portuguesa.

Aquela ideia hoje divulgada por muitos que as distinções entra Esquerda e Direita estão esbatidas quer pela “morte” das ideologias, quer pela necessidade da Sociedade e da Economia dum pragmatismo permanente e sempre presente em todas as grandes decisões, não tinham qualquer sentido para Tito Morais e apenas representavam uma forma nova, inteligente e insidiosa, de manter a exploração dos mais fortes sobre os mais fracos.

A minha situação profissional como quadro duma importante multinacional italiana da indústria farmacêutica fazia-me deslocar a Itália com alguma regularidade e, por vezes por períodos longos. Este facto fez com que visitasse o Tito e a Maria Emília, sua segunda mulher, amiúde. Sempre que podia dava um salto a Roma e ficava em sua casa, partilhando por alguns dias um quotidiano difícil, onde o dinheiro não abundava e, algumas vezes que por lá passei, senti mesmo que passavam mal.

Nesse tempo, no princípio dos anos 70, o Partido Socialista Italiano ajudava a Acção Socialista, particularmente na publicação do nosso jornal oficial que se chamava Portugal Socialista e que trazíamos à socapa para o interior do País.

Era Tito Morais que se encarregava de quase tudo, com ajuda da Maria Emília e do seu filho mais velho. Os artigos eram recebidos de diversas fontes de camaradas no exílio ou do interior, do próprio Tito e dum colaborador muito especial e dedicado que se chamava e chama, Mário Soares.

Mário Soares visitava frequentemente o seu amigo Tito, particularmente quando esteve exilado em Paris. Penso mesmo que terá sido quem mais o visitou nessa estadia forçada em Roma. Pelas razões atrás referidas creio bem que eu próprio fui o membro da ASP e posteriormente do PS, o português quem mais o visitou e partilhou as suas esperanças, a sua coragem e tenacidade na luta pela Liberdade em Portugal. Temos que nos organizar em todos os sectores da sociedade portuguesa, dizia, não só nas universidades e entre os intelectuais, mas também nos meios operários, nos serviços e nos meios rurais. Era sua convicção que o ideário do Socialismo em Liberdade, como lhe chamámos em 1969 ou Socialismo Democrático como lhe chamamos desde os anos 70, era maioritário em Portugal e que umas eleições livres e participadas o iriam demonstrar. Tinha toda a razão.

Pessoas como o Tito fazem falta e fazem-nos muita falta. São referências permanentes que, quando presentes nos estimulam à acção e à constante atenção na coerência dos nossos princípios com os nossos procedimentos.

Aproveitemos o centenário deste herói da Resistência e da Liberdade para revisitar os princípios que fazem grandes as nações. Os princípios da liberdade, da solidariedade e da convivência humana com tolerância, responsabilidade e respeito pelo próximo.

Pedro Coelho



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Nascido no ano da instauração da República e filho de um dos seus fundadores, o oficial da Armada e posteriormente Almirante Tito Augusto de Morais, a República estava no código genético de Manuel Tito de Morais. Mas mais do que essa condição genuína, tornou-se também uma opção consciente e racional quando, desde muito jovem, a sua vida passou a ser conduzida pelas decisões por si próprio responsavelmente assumidas.

O Engenheiro Tito de Morais foi um republicano indefectível, que não via a República apenas como uma forma de Estado assente no reconhecimento de que a soberania reside no povo e na recusa de caducos modelos aristocráticos inspirados em privilégios de casta. Associava-a também a um tipo de sociedade que tem como valores axiais a liberdade e a igualdade, isto é, direitos e deveres iguais para todos os cidadãos independentemente das suas origens. E por isso quando, ainda estudante liceal, a República foi deposta pela ditadura militar emergente do 28 de Maio de 1926 que deu lugar ao regime fascista do Estado Novo, Tito de Morais não hesitou na escolha do seu caminho, a luta pela restauração da legitimidade republicana e da liberdade democrática. Cedo começou a conhecer a repressão da PIDE, as prisões e os Tribunais Plenários.

E porque era aquele o modelo de República em que acreditava, o seu sentido de liberdade não podia limitar-se ao âmbito restrito do seu país. Para ele os valores da república eram universais pelo que, estando em Angola em pleno período colonial quando o continente africano atingia o ponto decisivo da luta dos seus povos pela libertação do domínio colonial, Tito de Morais não teve dúvidas que o seu campo era o dos nacionalistas que heroicamente se organizaram na luta pela independência e iniciaram a luta armada em 4 de Fevereiro de 1961. Preso em Luanda em condições muito difíceis, torturado, sobreviveu, porque era dotado de uma notável resistência física e anímica. Seguiu-se o exílio, em vários países da Europa, da América do Sul e Norte de África, sempre integrando as mais activas frentes da luta contra a ditadura colonial do Estado Novo. Mas, e mais uma vez porque não tinha da República e da democracia uma perspectiva meramente formal, considerando-as indissociáveis de um conteúdo mais substancial que contemplasse o desenvolvimento material, a justiça social e o enriquecimento cultural, Manuel Tito de Morais perfilhava empenhadamente os ideais socialistas e integrou o grupo mais dinâmico que fundou o Partido Socialista em 1973.

O 25 de Abril de 1974 abriu as portas para o seu regresso à Pátria, entregando-se de corpo inteiro na construção do Portugal livre, democrático e progressista que fora o objectivo de toda a sua vida. Jamais esqueceu isso e foi dos que nunca escondeu nem esmoreceu o apreço pelos jovens capitães de Abril, da mesma forma que estes nunca deixaram de reconhecer nele um dos muitos lutadores pela liberdade que, com o seu sacrifício, foram verdadeiros precursores do 25 de Abril.

Gozei do privilégio de Manuel Tito de Morais me incluir entre os seus amigos. Também eu lhe dedicava uma profunda amizade e um enorme respeito. Creio que se justifica usar o lugar comum: era, para mim, uma referência cívica. Tivemos longas conversas, a maioria das vezes em sua casa, por iniciativa de um ou do outro. Trocávamos impressões, analisávamos a conjuntura política, equacionávamos hipóteses para contrariar uma situação que cada vez deixava mais longe os ideais de Abril. Tito de Morais era mesmo, por vezes, crítico em relação ao seu partido, mas era-lhe de uma fidelidade total e nunca sequer equacionou a eventualidade de uma dissidência. O seu lugar e a sua luta era dentro do Partido Socialista, do qual foi presidente.

No Portugal de Abril Tito de Morais foi deputado constituinte, deputado legislativo, membro do governo. E atingiu o segundo lugar na hierarquia do Estado ao ser eleito pelos seus pares presidente da Assembleia da República. E, nessa qualidade, não posso esquecer um gesto simbólico, mas que no seu simbolismo o dignifica e confirma o que aqui venho dizendo da sua ligação afectiva aos capitães de Abril. Quis, exactamente na qualidade de presidente da Assembleia da República, o órgão de Estado que mais legitimamente representa a soberania popular e, portanto, a natureza democrática da República, que constitui a mais genuína expressão dos objectivos institucionais do 25 de Abril, manifestar publicamente esse reconhecimento aos militares do Movimento das Forças Armadas. Foi assim que reuniu, a seu convite e em representação do MFA, umas largas dezenas de militares num almoço que constituiu uma significativa manifestação de mútua consideração e apreço. Até porque tal aconteceu numa altura em que, com a primeira revisão constitucional que extinguiu o Conselho da Revolução – o que era para os seus membros pacífico mas que foi feito em termos pouco dignificantes –, começavam ouvir-se vozes oriundas de certos sectores políticos tentando denegrir a imagem honrada dos militares de Abril. Tito de Morais quis, corajosamente como era seu timbre, demarcar-se dessas campanhas e aderiu prontamente à Associação 25 de Abril, logo que os respectivos estatutos o permitiram.

A Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, com que foi agraciado, é a justa consagração do Portugal Democrático a um Homem cuja vida foi uma infatigável luta contra a ditadura, contra o colonialismo e, restaurada a liberdade, fez questão de se assumir por inteiro como Cidadão de Abril.

Pedro Pezarat Correia



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Domingo, 4 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de MoraisConheci Manuel Tito de Morais, pouco depois do 25 de Abril, quando das conversações do MFA com a delegação do PS, no âmbito da formação do 1º governo provisório.

Como um militar que estava a entrar nos meandros da política, preocupado com o facto de o MFA não se ter preocupado devidamente com o dia seguinte, procurando evitar que Spínola e os seus homens ocupassem o espaço vazio que o MFA não ocupara, guardo, desses primeiros contactos entre a comissão coordenadora e a delegação do PS, a imagem de um homem determinado, convicto das suas posições alicerçadas numa experiência de luta política, desenvolvida no exílio.

Lembro-me da contradição de sentimentos então vividos, entre uma presença física que se não impunha de imediato e a firme determinação na defesa de posições, que nessa altura nos pareceram exageradas. Atitude que, pela firmeza e convicção que comportava, provocou a minha admiração e consideração.

Os tempos futuros proporcionaram-nos contactos diversos, com algumas divergências de opinião, mas com muito mais coincidências que nos aproximaram e nos tornaram amigos. Recordo que, quando alguns militares me queriam provocar, apontavam o Manuel Tito de Morais como um dos meus amigos do PS...

Posso dizer que a casa do Manuel e da Maria Emília foi uma das poucas casas de dirigentes partidários que eu e a minha mulher visitámos.

Recordo momentos difíceis, onde lutámos do mesmo lado da barreira, na defesa das liberdades e da democracia.

Recordo algumas discussões que tivemos, nomeadamente quando o verberava por atitudes do PS e ele, sempre, defendia denodadamente o seu partido. Confesso que não conheci ninguém que mais defendesse o partido a que pertencia do que o Manuel Tito de Morais. Mesmo quando essa defesa era praticamente impossível...

Como recordo com emoção e respeito a atitude que o Manuel Tito de Morais e o Manuel Alegre tiveram, quando da votação da revisão da Constituição, abandonarem o hemiciclo, para não acompanharem o voto (ia adjectivá-lo, mas por decoro prefiro não o fazer) que o PS exerceu. Estava em causa a forma como os militares de Abril foram tratados, no fim do período de transição...

Mais tarde, foi para nós militares de Abril reconfortante ver a alegria com que Manuel Tito de Morais assumiu o cargo de Presidente da Assembleia da República e, como tal, decidiu homenagear os militares de Abril que, como então salientou, com a sua acção lhe possibilitaram essa realização pessoal.

No mundo cão da política, onde nunca entrei precisamente porque constatei enormes diferenças entre o que é necessário fazer para ter sucesso e o que a minha consciência consegue aceitar, o Manuel Tito de Morais foi um dos políticos que mais me marcaram, pela positiva.

Fui amigo do Manuel Tito de Morais, digo-o com o sentimento de honra que isso me provoca. Sou seu amigo e recordo-o com um enorme carinho, um enorme respeito e uma maior consideração e estima.

Portugal perdeu, com a sua morte. O seu partido perdeu imenso – oh, como seriam úteis, nos dias de hoje, socialistas como o Manuel Tito de Morais!

Saibamos ser dignos da sua memória, seguindo o seu exemplo de grande lutador pelos valores da liberdade, da paz, da democracia, da igualdade, da fraternidade, da justiça social!

Até sempre, Manel!

Vasco Lourenço



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Conheci Tito de Morais num daqueles intensíssimos e indescritíveis dias que se seguiram ao 25 de Abril, em que todos os problemas do país caíam em catadupas sobre a Comissão Coordenadora do Programa com pedido de resolução. A azáfama não impediu porém que tivéssemos tido, logo ali, uma longa e aberta conversa sobre o futuro político do país. Talvez a abertura e franqueza desta sua primeira conversa tivesse sido estimulada por lhe referir ter sido professor da Escola Naval e recordar o retrato de seu pai numa sala onde estavam representados os antigos Comandantes, de conhecer alguns aspectos da sua ilustre carreira na política e na Armada e, em particular, a sua participação no 5 de Outubro.

Sensibilizado, falou-me com enorme entusiasmo de valores republicanos e logo aí pude observar a funda convicção com que os cultivava e a apologia que logo deles fez para o Portugal recém-saído da ditadura. Sabia ser uma das principais personalidades responsáveis pela organização e estímulo da heróica luta anti-fascista que durante tantos anos e com tantos sacrifícios fora travada contra o regime deposto, e por isso, perante a sua generosidade e abertura, logo o quis ouvir sobre as formas de garantir a construção de um regime democrático e de progresso para Portugal, o que constituía a principal preocupação do grupo de militares com que me relacionei na preparação política do 25 de Abril.

Foi aí, durante a conversa mantida sobre este tema, que verdadeiramente conheci e passei a admirar Tito de Morais. Na alegria transbordante com que participava na construção do Portugal livre revelava-se o homem de profundas convicções, o democrata intransigente, o militante de esquerda, para quem o socialismo é um desígnio a construir em liberdade e inteiro respeito pela pessoa humana. O homem para quem o progresso não é apenas material, mas deve também reflectir-se, na justiça, na verdade, na melhoria dos comportamentos sociais, em tudo o que possa contribuir para o aperfeiçoamento, a elevação e a dignificação do homem.

Recordo ainda vivamente, a sensibilidade que revelou aos episódios ocorridos com o programa do MFA na Pontinha, de que já tinha conhecimento, e aos nossos receios de que os militares pretendessem manter-se na política, particularmente através da Junta de Salvação Nacional; a satisfação que sentiu quando lhe chamámos a atenção para o facto do programa referir, por nossa vontade expressa, a constituição de um governo civil, que gostaríamos de ver rapidamente implantado e com poder; o clima de entendimento que logo se estabeleceu ao saber que aquele sector do movimento entendia intransigentemente que a política deve ser praticada por políticos e partidos e não por militares e a grande importância que, por isso, dávamos ao estrito cumprimento do Programa do MFA para se obterem, no tempo marcado, órgãos e políticas com legitimidade democrática.

Ficou-me gravada para sempre a reflexão que fez, com grande realismo, sobre as diferenças de organização, implantação e métodos entre os dois partidos então existentes, a análise dos riscos que então se perfilavam, acabando por afirmar a sua profunda convicção na pujança dos ideais defendidos pelo Partido Socialista, a sua inabalável certeza na capacidade de atrair militantes, de organizar o PS como grande força política nacional, capaz de obter o apoio democrático que permitisse ir construindo a sociedade de liberdade e progresso que há tantos anos ardentemente desejávamos.

Estabeleci desde então laços de confiança e respeito por Tito de Morais que mais se aprofundaram durante os tempos difíceis que o país viveu durante o verão de 1975, onde juntos integrámos o VI Governo Provisório e onde separadamente, mas com contactos e no mesmo sentido, lutámos pela vitória da democracia e da liberdade.

Por todo esse passado de estima e admiração, é com grande emoção que me associo à homenagem a Tito de Morais por ocasião do seu centenário.

Num momento tão delicado para a vida nacional deve lembrar-se ao país que também em épocas bem difíceis da história nacional, houve um patriota que, com a sua excepcional coragem pessoal e sentido de dever cívico, empenhou toda a sua vida na causa da liberdade e do progresso do seu país e do seu povo.

É bom evocar o seu contributo para a construção e consolidação da democracia do Portugal renovado pelo 25 de Abril, na qualidade de membro fundador e grande militante do Partido Socialista, de político extremamente empenhado na construção de uma sociedade de direitos, justiça e progresso e na rectidão da sua acção como Vice-presidente e Presidente da Assembleia da República.

É salutarmente didáctico, neste tempo de anemia de valores, lembrar ao país a exemplaridade da sua estatura cívica, a verticalidade do seu carácter, o sentido ético que orientou toda a sua vida, prestar homenagem ao cidadão Tito de Morais.

Vítor Crespo



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Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

José Neves - Discurso PSCamarada Presidente Almeida Santos
Camarada Secretário-Geral José Sócrates
Senhores e Senhores Convidados
Familiares de Tito de Morais
Camaradas Militantes do Partido Socialista

Constitui para mim uma grata satisfação participar nesta sessão de encerramento das Comemorações na sede nacional do Partido Socialista, pois este é sem dúvida o local apropriado, a casa política de Tito Morais, instituição de que foi impulsionador da sua criação e obreiro da sua construção.

Também é um grande privilégio compartilhar com todos os presentes este sentimento de apreço e reconhecimento pelos méritos do nosso homenageado, Tito de Morais. A presença de ilustres convidados da Comissão Executiva muito honra este momento e a quem saúdo calorosamente.

As minhas saudações de carinho aos familiares de Tito de Morais cuja presença indispensável completa o significado deste encontro.

Saúdo os camaradas Almeida Santos e José Sócrates, pois a sua participação nesta sessão abona o patrocínio e o apoio dado pelo Partido à iniciativa de homenagear a figura impar do socialista Tito de Morais.

Uma fraternal saudação de camaradagem aos militantes do Partido Socialista.

Entenderam os meus colegas da Comissão Executiva designar-me para dar o meu testemunho sobre Tito de Morais, com quem convivi e participei em acções políticas no exílio e também em Portugal. Há muito para falar sobre este meu camarada, mas vou limitar o meu depoimento ao seu período de exílio que antecedeu a criação do Partido Socialista.
Conservo bem viva na memória o meu primeiro encontro com Tito de Morais. Encontrava-me já exilado em Londres quando fui desafiado para ir a um encontro com um político da resistência de visita aquela cidade. Só sabíamos que se tratava de um membro de um grupo socialista e era patriarca de uma grande prole. Subsistia uma dúvida: Seria que se tratava de um agrupamento constituído apenas por esse cidadão e pelos seus filhos?



publicado por CCTM às 23:00
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Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Grande Oriente LusitanoSapientíssimo Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, Caro Amigo António Reis
Estimada Amiga Maria Carolina Tito de Morais, Presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais
Demais membros dessa Comissão
Caro irmão Luís Medeiros Ferreira, digno representante da Loja José Estêvão
Companheiros Oradores José Paulo da Silva Graça e Manuel Tito de Morais Oliveira
Demais membros da Família Tito de Morais
Demais Irmãos do Grande Oriente Lusitano
Ilustres convidados
Senhoras e senhores

Manuel Tito de Morais

Quando de minha iniciação como aprendiz maçon, escolhi como nome simbólico Nuno Álvares Pereira. Talvez porque desde os bancos de escola me encantava imaginar a Padeira de Aljubarrota a despachar sete castelhanos com sua pá de forno e D. Nuno a comandar os valentes combatentes lusitanos.

No entanto, no dia do funeral de Tito de Morais, acompanhei seu filho João, meu irmão de vida, no momento em que o caixão foi colocado no carro e, antes da porta se fechar, João ergueu o braço, com o punho fechado, na saudação socialista, e exclamou: "Adeus, Comandante!"

Essa despedida comovente me fez perceber que também eu sentia o velho Tito como meu Comandante e quis que assim continuasse no desenvolvimento de minha ainda recente vida maçónica. Então, em plena emoção, tomei a decisão de que meu nome simbólico deveria ser Manuel Tito de Morais, um grande português da nossa História Contemporânea.

E hoje estamos aqui, no Grande Oriente Lusitano, evocando Manuel Tito de Morais!

O que levaria um homem como Manuel Tito de Morais a ser iniciado aprendiz maçon no Grande Oriente Lusitano, beirando já os oitenta anos, depois de uma tão extraordinária quanto intensa vida de permanente luta política, depois de ter exercido cargos de grande relevância nas instituições nacionais, como deputado, membro do Governo e, culminando sua trajetória, Presidente da Assembleia da República?



publicado por CCTM às 21:37
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Sábado, 19 de Junho de 2010

Blog José Leitão"Recordo a minha estranheza quando vi pela primeira vez o seu nome num número do Esquerda, publicação clandestina dos jovens socialistas para os jovens portugueses, da Associação Socialista Portuguesa (ASP), que antecedeu o Partido Socialista.

Creio que foi em 1969, que o Manuel Maria Carrilho, que estudava em Lisboa, apareceu em Viseu com um exemplar do Esquerda, que li avidamente. O socialismo democrático surgiu-me claramente desde essa altura como o projecto político por que valia a pena lutar.

Não tinha nesse momento altura qualquer contacto com a ASP, identifiquei-me com a linha política que defendiam, sabia da ligação da ASP a Mário Soares e a Salgado Zenha, mas foi ali que pela primeira vez li o nome de Tito de Morais, que se encontrava no exílio. Meses depois, tive acesso a exemplares do Portugal Socialista editado por Tito de Morais em Roma e que entrava clandestinamente no país. Não imaginava, que viria a conhecê-lo, a ser seu companheiro de luta e a ter a honra de como director do Portugal Socialista, escrever o editorial daquele número que lhe foi dedicado."

José Leitão
(continue a ler no Blog Inclusão e Cidadania)



publicado por Luis Novaes Tito às 19:02
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Catálogo-ProgramaHo conosciuto “Tito” – così lo chiamavamo tutti in Italia – durante l’esilio a Roma. Io facevo parte del “Comitato italiano per l’amnistia e le libertà politiche in Portogallo” e siamo diventati amici. La casa di Via Catania era sempre aperta: la vivacità di Maria Emilia contrastava con la “pacatezza” di Tito, ricordo che anche Pedro, pur essendo un bambino, già parlava di politica.

La collaborazione con Tito è stata indispensabile per smascherare definitivamente l’informatore della PIDE che viveva a Roma e aveva mandato il povero generale Delgado a morire all’agguato di Badajoz.

Nel 1974 la famiglia de Morais si trovava in difficoltà perché il proprietario dell’alloggio di Via Catania aveva chiesto un aumento di affitto che non era in grado di pagare, tutti stavamo mobilitandoci quando … arrivò il 25 aprile e la “Rivoluzione dei garofani”. Ho continuato a vedere Tito, come giornalista, anche dopo il rientro in Portogallo, anzi sono stato ospite una volta nell’alloggio di Rua Magalhaes de Lima. Come politico, Tito è stato determinante nel costruire un partito socialista forte e unito, che ha fatto da baluardo per la democrazia appena ritrovata, attorno a Mario Soares, nell’estate calda, anzi politicamente caldissima, del 1975, contro le derive militar-populiste. Più tardi, nel contribuire a portare il Portogallo in Europa.

Tito è stato anche determinante per far da “ponte” tra le tradizioni del socialismo repubblicano delle generazioni dell’inizio del secolo passato, e il socialismo rinnovato delle nuove generazioni. Per tutti questi motivi, i progressisti dell’intera Europa, della “nostra Europa”, rimangono per sempre grati a Tito de Morais, al suo impegno, alla sua testimonianza di un’intera vita portata avanti con coerenza e fedeltà.

Valerio Ochetto



publicado por CCTM às 00:15
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Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Pavilhão Assembleia da República

Nos alvores do Dia em que Portugal gosta de se relembrar, é Manuel Alfredo Tito de Morais que lembro.

Bom ouvidor, perspicaz e modesto, o considero exemplo vivo da Igualdade, da Fraternidade e da Liberdade, qualidades que fertilizam a Justiça e enobrecem da única forma aceitável de Nobreza que é conferir Dignidade a todo o Ser Humano.

Tive a honra de com ele trabalhar e merecer a sua Amizade.

Poderia, mas não devo ainda, falar de substâncias e circunstâncias e de, através disso, distingui-lo por tão diferente ser num meio em que a pureza do ideário cedia (cede) ao primeiro acenar dos interesses mais espúrios.

Às portas do centenário do seu nascimento vejo-o firme nas suas convicções e respeitador das diferenças, seguro de que un bel di vedremo...sull'estremo confin del mare nascer um mundo em que valeu a pena ter combatido pelo bem até de quem nos combateu.

Reconvocar a sua Memória, perpetuando o seu exemplo de vida, é continuar a sua luta numa estafeta de transmissores do seu legado.

Presente!

Augusto Pinto Baptista
Membro da Comissão de Honra
ex-chefe do gabinete da AR



publicado por CCTM às 14:43
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Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Boletim FPLN

É com agrado e de certo modo como um dever que me associo à homenagem a Tito de Morais por ocasião do centenário do seu nascimento, tanto mais que a evocação da sua figura ocorre num momento da vida nacional que não pode deixar de inquietar todos aqueles que deram parte significativa da sua vida para que os portugueses pudessem não só viver em liberdade, mas igualmente num país soberano e desenvolvido.

Sendo embora de gerações diferentes e de termos percorrido caminhos políticos diferentes, não esqueço o facto de Tito de Morais ter sido um lutador empenhado e convicto contra a ditadura fascista e que, desse modo, tenha inscrito o seu nome na longa lista dos democratas portugueses que, com a sua acção persistente e confiante, criaram as condições para o derrube da ditadura fascista e a conquista da liberdade.

O que conheço de Tito de Morais resulta do relacionamento político que com ele mantive no âmbito da Assembleia da República e das relações inter-partidárias. Ambos integrámos delegações dos nossos partidos em variados encontros bilaterais.

Tito de Morais fez parte daqueles democratas que compreendiam quanto era importante a unidade dos antifascistas, e em particular a unidade com os comunistas, para o desenvolvimento da resistência ao fascismo, compreensão que o levou por vezes a intervir pessoalmente para que fossem ultrapassadas dificuldades que aqui e ali surgiam no campo das forças antifascistas. Lembrarei, a título de exemplo, as suas diligências junto de Álvaro Cunhal, em Junho de 1963, aquando de dificuldades surgidas no seio da Frente Patriótica de Libertação Nacional.

A contribuição de Tito de Morais em diferentes momentos, já como membro do PS, para se alcançarem entendimentos com o PCP deve igualmente ser realçada. Tito de Morais não ignorava que a unidade pressupunha a fixação de objectivos comuns.

Nesta altura julgo ser oportuno recordar dois momentos de grande importância no relacionamento PCP/PS, nos quais Tito de Morais se empenhou de forma particular para que se desenvolvessem as relações inter-partidárias.

Em Abril de 1974, poucos dias antes da Revolução de Abril, teve lugar um encontro entre a direcção do PCP e a Comissão directiva do PS, no qual ambas as delegações partilhavam um enorme optimismo e confiança quanto à evolução da situação política nacional. Ambas as delegações não só coincidiam quanto ao evoluir da situação política, mas também quanto ao rumo que o país deveria seguir uma vez derrubado o fascismo.

A este respeito, é altura de lembrar e não deixar esquecer uma passagem do comunicado conjunto saído desse encontro:

«As duas delegações concordaram na necessidade de intensificar a luta por melhores salários e contra a carestia da vida, de fazer frente ao domínio dos monopólios com vista à sua liquidação, de lutar por uma solução nacional que encaminhe o país para o desenvolvimento económico independente em benefício do povo português».

Refira-se, ainda, que esta «plataforma» comum foi subscrita ao mais alto nível por ambos os partidos.

É pois com alguma perplexidade que hoje se toma conhecimento de que Tito de Morais, na opinião de companheiros do seu Partido, era um radical, caracterização que pode explicar que quando da crise política de 1978, ano em que tiveram lugar variados encontros entre delegações do PCP e do PS e nas quais se discutiram eventuais saídas para a crise na base do entendimento entre os dois partidos, Tito de Morais – talvez o único dirigente do PS que sinceramente esteve empenhado na possibilidade desse entendimento – tenha deixado de integrar as delegações do PS a partir do terceiro encontro.

Tendo os encontros começado com a afirmação de Tito de Morais de que finalmente «os pontos convergentes (entre os dois partidos) permitiam ver o futuro» e de que, segundo Jorge Campinos, havia «condições políticas, militares, nacionais e internacionais para a saída da crise dar uma viragem à esquerda», o PS evoluiu para a impossibilidade de um acordo na base de que «o entendimento dos dois partidos levaria fatalmente ao agrupamento da direita». Sabemos a que conduziu a evolução política do país este «encostar» do PS à direita.

E foi precisamente pelo empenho de Tito de Morais para que se encontrasse uma solução para a crise política de então, na base do entendimento dos dois partidos, que a delegação do PCP, da qual fiz parte, tivesse informado previamente Tito de Morais de que as negociações tinham falhado.

Há quem diga que Tito de Morais defendia convictamente «o socialismo em liberdade» ou, no dizer de outros, «o socialismo democrático». De um modo geral a adjectivação só tem servido para renunciar ao socialismo, para a aceitação do capitalismo como o melhor dos mundos possíveis.

Mas uma coisa eu tenho como certa: Tito de Morais, ainda que imbuído da crença de um certo espontaneismo social, considerava inequivocamente o capitalismo um sistema injusto e desumano e que era necessário um sistema sócio-económico compatível com a justiça social e a moral, o que não era obviamente o capitalismo.

Maio de 2010
Domingos Abrantes
Membro do Comité Central do PCP



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Sábado, 29 de Maio de 2010

São Paulo, 26 de Maio de 2010.

Os Tito de Morais tiveram uma influência decisiva no percurso que marcou a nossa família. Mais de 50 anos de uma amizade que começou em Luanda, passou pelo Brasil, e nunca se perdeu no regresso a Lisboa.

Por Fanny Gelehrter da Costa Lopes

 e Ruth Gelehrter da Costa Lopes

 Luanda Tito de Morais

Luanda, uma das festas na casa dos Titos. Acilio e Tito à esquerda e Maria Emília ao centro 

Chegamos a Luanda, mais ou menos em 1950: meu marido, Acílio, foi trabalhar na CAOP, assumindo um emprego de topógrafo. Hospedados na pensão, conhecemos o Chico Louro, na ocasião do PC, que nos apresentou o amigo Tito de Morais. Mais tarde, os dois, agora nossos vizinhos, visitavam-nos em casa e eram noites onde ficámos horas conversando sobre o momento político de Portugal. A amizade de vizinhos evoluiu com a chegada da Maria Emília. Compartilhamos, alegrias e dificuldades, por seis anos. A cesárea para o nascimento do Manuel, as ameaças após a prisão de vários amigos nossos: o engenheiro Calazans, a médica Julieta Gandra, Meireles e mais tarde o Tito. Nessa ocasião, sob ameaças veladas – por ser simpatizante do movimento de independência – a Maria Emília retorna a Portugal, agora também com o filho Luís.

Os muitos momentos gratificantes da nossa convivência estão constantemente na memória da nossa família. Fomos testemunhas no registo de casamento dos Titos e eles, padrinhos da minha filha Ruth. Apesar dos muitos percalços que tiveram pela vida afora, sempre levaram a sério este papel. Em TODOS os aniversários da Ruth, sempre apareciam mensagens e fotografias de locais onde se encontravam.

A residência deles era um ponto de encontro de fértil convívio. Os filhos do Tito – Maria Carolina, João, Maria da Conceição, Luísa e Teresa – vinham passar as férias, completando o ambiente. Eram organizadas festas dançantes; numa destas confraternizações a M. Emília teve início às dores do parto do Luís … e a festa continuou.

O Acílio e o Tito tinham grande camaradagem. Numa ocasião, João precisou de um fato de treino e os dois desenharam o molde para posterior execução, regado a grandes gargalhadas. É por essas e outras que um empregado perguntou: “Senhora, afinal, o patrão é engenheiro ou alfaiate?”

Era comum saírem do mercado e passarem por nossa casa, com grande quantidade de peixes frescos. Uma maneira simpática de colaborar connosco, um jovem casal com filhos pequenos.

São Paulo

O desprendimento e a generosidade dos Titos, marcou positivamente a nossa vida. Tito saiu da prisão e veio com a família para o Brasil. Foram eles que incentivaram nossa vinda a São Paulo para que meus três filhos não participassem da guerra colonial. Na ocasião, Igor, meu filho mais velho, escreveu-lhes perguntando se poderia vir para S. Paulo. Responderam que só se trouxesse todos. Tivemos o privilégio de conviver mais alguns meses, antes de irem para Argélia. Compartilhamos a construção dos alicerces da história da nossa família: o emprego do Acílio e a continuidade dos estudos dos filhos.

Lisboa Tito de Morais

À mesa, no ambiente familiar de Tito de Morais, entre a sogra e Fanny. Pedro à esquerda 

Após o 25 de Abril, retornei algumas vezes a Portugal, sempre hospedada na casa dos velhos amigos Titos, sentindo o estilo acolhedor com que o anfitrião se dirigia a qualquer pessoa, agora com uma função oficial na política portuguesa. Um episódio ilustrativo: no fim da vida, já muito debilitado – pouco falava e andava – se nega a tomar uma medicação. Me aproximei dele com o remédio e perguntei-lhe: “Tito, aceita o remédio?” Ele, sempre galante, responde: “Da Fanny aceito tudo.”

Terrugem

 Tito de Morais

Terrugem -Tito de Morais, António Machado e M. Emília 

Numa das visitas aos amigos, na casa de campo dos Titos, em Terrugem, veio-nos visitar o amigo comum, o zoólogo, António Machado. Todos tínhamos recordações a compartilhar.

 

Por Fanny Gelehrter da Costa Lopes

 

Lembranças do meu padrinho.

Duas vezes estive com os Titos em Terrugem. O acolhedor espaço tinha as marcas deste político-artesão. Em todos os cantos: piso, móveis, parte elétrica, …

 Tito de Morais

Tito de Morais 

Em 1994, conheci as netas do Tito, filhas do Luís. Didi e Manuel eram os meus amigões no Brasil.

 

Tito de Morais

Claire, Ruth, Maria Emília, Marine e Tito de Morais

 Por Ruth Gelehrter da Costa Lopes

 

Lembranças dos meus amigos.

Não só a minha mãe era bem recebida na casa dos Titos. Nós, os filhos, com as nossas mulheres, também tivemos ótima acolhida nas viagens a Lisboa.

Tito de Morais

Tito de Morais, Rui e Maria Emília

Não esqueço de dois acontecimentos marcantes. Uma noite conversávamos todos na sala de estar: o Tito estava um pouco triste com seus problemas de trabalho – política. Tito circunspecto e Maria Emília fazendo sala. Resolvi perguntar de onde vinham as muitas medalhas que estavam num móvel. Eram medalhas de todo o mundo homenageando o Tito. Muitas. Sem cerimônia resolvi colocá-las em mim. Ao invés de ficar contrariado, Tito mudou de humor e participou também da animação que tomou conta daquele nosso encontro.

 

Tito de Morais

Sala do presidente – Susi, Denis, Marcos, Rui e Maria Emília

Na outra ocasião Maria Emília nos levou ao Palácio do Governo. Tinham orgulho da cidade de Lisboa. Bons anfitriões. Num momento de distração do mestre-de-cerimónias que nos acompanhava pude ter o gostinho “histórico” de sentar na cadeira destinada ao presidente. Este ato não teve a aprovação dos nossos cicerones. Saudades.

Por Rui Gelehrter da Costa Lopes

Escrito ao abrigo do acordo ortográfico



publicado por CCTM às 01:29
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Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

Tito de Morais

Tendo por mim a desculpa da idade, não posso orgulhar-me de ter conhecido o Tito antes do 25 de Abril pois só o encontrei pela primeira vez, em Paris, em 1975.

Tive porém, ao longo dos anos em que viveu desde então, a ocasião, ou melhor, várias ocasiões de apreender e de aprender qual a densidade da generosidade e da disponibilidade que este Homem dedicou à luta pela Liberdade e Democracia antes do 25 de Abril, e depois, pela sua consolidação.

O Manuel Tito de Morais, pela firmeza das suas convicções, foi para mim, jovem "débutant" na militância política, um exemplo.

Fosse em reuniões de carácter político ou em família e com os amigos, sempre encontrei um Tito afável e disposto a dar a sua contribuição ao debate e às discussões, que por vezes eram animadas.

Vi no Tito, um Homem que tinha o máximo respeito e sem qualquer género de complexos, pelas pessoas com quem lidava e em quaisquer circunstâncias.

A este propósito, quero apenas recordar um facto, ocorrido durante a sua Presidência da Assembleia da República:

Encontrando-me de férias em família, em Portugal, num belo dia de verão, vejo chegar dois automóveis particulares que pararam frente à minha casa. De um deles saiu o Tito, a sua esposa Maria Emília e dois dos seus filhos. Ao recebê-los, manifestei o meu orgulho por estar a receber em minha casa o Presidente da Assembleia da República. O seu comentário foi pronto e instantâneo: "Ora essa, então lá por ser Presidente da Assembleia da Republica já não teria o direito de visitar os amigos que visitava antes e visitarei depois de o ser?" Não deixou ainda de acrescentar, que tendo vindo ao Norte passar uns dias e passando perto de um amigo, nunca o faria sem o visitar.

Um pouco mais tarde, tendo sugerido que os guardas da AR que o acompanhavam se juntassem a nós, disse-me que evidentemente não via inconveniente.

Acho que comemorar o aniversário do nascimento do Tito é indispensável. Não só pela oportunidade de mais uma vez lhe render homenagem, mas também para recordar que Homens desta craveira, – que infelizmente se tornam raros –, merecem não ser esquecidos.

Germano Lima



publicado por CCTM às 01:03
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Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Bandeira original PSA acção de Tito de Morais desde a sua mudança para Roma em 1966 foi de uma importância política extraordinária, pois abriu uma nova fase da actividade política do movimento Acção Socialista Portuguesa (ASP). Do período que vai dessa data até ao 25 de Abril, o trabalho de Tito de Morais repartiu-se por várias áreas, merecendo maior destaque:

• A área de relações internacionais, tendo participado em conferências e congressos de prestigiados partidos europeus e organizações internacionais, desta forma denunciando a ditadura em Portugal e obtendo apoios para a luta;

• No âmbito da divulgação da mensagem socialista através da criação do jornal “Portugal Socialista”, publicação da ASP e que se tornou no órgão central do Partido Socialista, meio de difusão dos valores socialistas e de luta anti-fascista;

• No sector de recrutamento de militantes junto dos emigrantes portugueses e na criação e coordenação dos Núcleos ASP, depois PS, no estrangeiro, função que, como Secretário de Organização, o levou a promover encontros em vários países europeus.

É bem conhecida que toda esta actividade de Tito de Morais no exílio era exercida com enorme empenhamento, tendo dado uma contribuição incontornável para a expansão da ASP e, desta forma, criando as condições indispensáveis para a fundação do Partido Socialista. As acções desencadeadas pela sua criatividade política, o estímulo que impregnou no trabalho desenvolvido e a inquebrantável perseverança à causa do socialismo qualificam Tito de Morais como impulsionador da fundação do Partido Socialista.

Como militante da ASP, em cujo Núcleo de Londres exerci a minha militância desde 1970, com frequentes contactos com Tito de Morais, posso bem testemunhar o que em síntese acima descrevo. Acresce que, depois da revolução redentora dos Capitães de Abril e criadas as condições para a actividade política em liberdade, Tito de Morais, mais uma vez, deixou uma marca fundamental no Partido Socialista, agora no âmbito da implantação de estruturas partidárias por todo o país.

Na 1ª sede do PS, em São Pedro de Alcântara, tive o privilégio de trabalhar no mesmo gabinete de Tito de Morais. Era bem visível a satisfação com que Tito, logo de manhã, dava andamento ao expediente, despachando com a sua secretária, camarada Maria do Carmo Maia Cadete. Depois recebia militantes e simpatizantes socialistas que vinham de todo o país oferecer o seu apoio ao Partido, dava entrevistas aos órgãos de imprensa nacional e internacional, geria toda a imensa azáfama de tarefas políticas que surgiam a todo o momento, enfim, era o dirigente disponível para todas as funções políticas.

Naturalmente que Tito de Morais não era o único dirigente socialista, mas todos os outros andavam demasiado absorvidos em actividades políticas, como reconheceu Mário Soares no seu relatório ao 1º Congresso Nacional: “… muitos de nós, durante estes sete trabalhosos meses, têm estado tão ocupados que mal têm tempo de passar pelo Partido.”

Um dia Tito chamou-me junto à sua mesa de trabalho para me incumbir de uma tarefa, o que acontecia regularmente. Desta vez, abrindo um gavetão apinhado de cartas, cartões ou simples apontamentos com contactos de apoiantes e amigos que tinham vindo oferecer a sua disponibilidade para apoiar o Partido, incumbiu-me de analisar todos esses documentos e fazer uma proposta para a implantação do Partido Socialista no país, missão que seria empreendida por três camaradas.

A estruturação da proposta foi simples, pois existiam vários pontos de contacto em todos os distritos. Aprovado o plano foram criadas três zonas de trabalho, Zona Norte e Zona Sul, que ficaram sob a responsabilidade política, respectivamente, dos saudosos camaradas João Tito de Morais e Catanho de Menezes, ficando José Neves com a Zona Centro. As áreas de Lisboa, Açores e Madeira foram estruturadas num sistema próprio.

 Foram 5 meses de trabalho árduo, sob a orientação e coordenação de Tito de Morais, mas chegou-se ao Congresso Nacional e no relatório acima referido podia-se afirmar com orgulho: “Todos os concelhos do país, com raríssimas excepções, estão cobertos por secções ou por núcleos P.S. – a esmagadora maioria dos quais com sedes abertas e em pleno funcionamento.”

Tito de Morais, além deste trabalho gigantesco a nível nacional, foi o dirigente que assegurou o funcionamento interno do P.S. neste período difícil e conturbado. Recorde-se que à medida que o Congresso se aproximava aumentava a agitação política interna no Partido devido à acção do grupo Movimento Socialista Português (MSP), dirigido pelo histórico resistente anti-fascista Manuel Serra (recentemente falecido). E foi sob a direcção de Tito de Morais que foi conduzida a maior oposição ao MSP, cujo desfecho em Congresso favorável ao PS se ficou a dever a um brilhante discurso de Manuel Alegre.

Por tudo isto, Tito Morais foi também o obreiro da estruturação do Partido Socialista, cuja implantação a nível nacional contribuiu decisivamente para o papel histórico que veio a desempenhar na sociedade portuguesa.



publicado por Jose Neves às 01:10
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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Luís Filipe MadeiraConheci o Tito de Morais logo após o 25 de Abril, quando em 1974 aderi ao PS.

As primeiras impressões foram ditadas pela sua figura, austera e grave, de velho combatente republicano e socialista, com o grosso bigode grisalho e "fumado". Homem profundamente leal aos amigos, foi solidário com Mário Soares em circunstâncias difíceis da vida do partido. Mas não deixou nunca de manifestar as suas reticências relativamente a certas estratégias.

Relevo três situações que ilustram o que atrás fica dito:

A primeira ocorreu no início de funções do primeiro governo constitucional.

Na qualidade de secretários de Estado participámos ambos num Conselho de Ministros em que se discutiu a acção diplomática a levar a cabo pelo 1º Ministro no estrangeiro. Aonde devia ser a primeira visita? Cunha Rego propôs que fosse ao Brasil (ainda nas teias do poder militar). O Manuel Tito, apoiado por mim, propôs Angola.

Foi o Brasil a opção com todos os equívocos (relativos a Angola) que se seguiram.

A segunda verificou-se aquando das acções que conduziram à formação do II Governo (PS/CDS).

Os renitentes foram convocados a S. Bento para serem convencidos a pôr de lado as reticências. Chamados foram mais de 20. Que me lembre só o Manuel Tito recusou. Talvez não tivesse razão, mas as suas objecções de consciência (e de longo prazo) não cederam.

A terceira teve lugar em 1987 após a Moção de Censura que levou à demissão do governo minoritário do PSD.

Na sequência, todas as forças políticas que aprovaram a censura (PS, PRD, PCP e CDS) manifestaram ao PR a sua vontade de apoiar a formação (viabilizando-o por um período razoável) de um Governo minoritário PS no quadro parlamentar existente. Na crispação que se seguiu, numa minoria do PS, à eleição de Vítor Constâncio para S.G., o PR preferiu dissolver a AR, levando às maiorias absolutas do PSD que se seguiram. Nas hostes socialistas mais próximas do PR só Manuel Tito de Morais manifestou publicamente o seu desagrado, o que lhe valeria alguns contratempos futuros.

Outras estórias poderiam ser aqui descritas, mas isso levar-nos-ia mais longe do que agora convém.

Luís Filipe Madeira



publicado por CCTM às 02:30
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Terça-feira, 30 de Março de 2010

Carta InglaterraQuem conviveu com Tito de Morais não pode deixar de o recordar com saudade. Foram anos de camaradagem e conivência política que jamais esquecerei.

Aderi à Acção Socialista Portuguesa (ASP) em fins de1969, quando já exilado em Londres, circunstância que veio proporcionar-me frequentes contactos com o camarada Tito de Morais, dadas as suas deslocações a essa cidade em trabalho de política internacional e, também, devido às funções inerentes ao cargo de Secretário de Organização da ASP. As visitas de Tito de Morais davam origem a prolongadas conversas de orientação política, conselhos sobre o trabalho a desenvolver no Núcleo de Londres da ASP, depois PS, e também troca de opiniões sobre o trabalho sindical junto dos emigrantes portugueses iniciado com a colaboração de militante da ASP.

Naturalmente que toda esta convivência política decorria em ambiente de grande camaradagem e cordialidade, o que é absolutamente natural entre companheiros que comungam dos mesmos ideais. Mas quando surgiam divergências de opinião, mesmo no fervor da discussão, era nessa ocasião que se tornava mais evidente a feição socialista de Tito de Morais proceder, como o demonstra no caso que relato:

Tinham surgido problemas no funcionamento do Núcleo e desacordo quanto a um aspecto da minha participação como secretário da secção sindical, o que lhe fora exposto num longo relatório. A reacção de Tito, numa carta de 6 páginas, chamando à atenção para vários aspectos e dando indicações claras e com convicção, terminava assim:

"Não temos felizmente nem guias nem chefes, mas temos a enorme fortuna de possuir os valores de auto disciplina, da independência de juízo na fidelidade aos princípios que defendemos, da auto-critica e da consciência das nossas responsabilidades. Para terminar lembro-lhe que depende quase exclusivamente de si o resolver todos os problemas ai existentes: o das suas relações dentro do Núcleo e os sindicais, na linha política da ASP. Com as fraternais saudações socialistas envia-lhe um apertado e afectuoso abraço o camarada e amigo

Tito Morais”

Era com esta afectuosidade que chegavam a bom termo os nossos desacertos.

Eu na altura não passava de um neófito na política e foi com Tito de Morais que muito aprendi na senda do Socialismo.

Obrigado por tudo, Camarada Tito!

Imagem do arquivo de José Neves - aqui pode ver maior



publicado por Jose Neves às 02:40
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Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Chegada St. ApolóniaImediatamente após o 25 de Abril, Tito de Morais exilado político por largos anos, regressou ao seu querido país com incontida emoção e enorme alegria. Esta, naturalmente, não isenta de orgulho pela vitória dos valores da Liberdade.

Ao entrar em Portugal com Mário Soares e Ramos da Costa e ao ser recebido tão gloriosamente pelos portugueses, viveu com intensa exaltação esse inesquecível momento. Automaticamente, o seu pensamento foi para os correligionários, seus companheiros de luta, que já não assistiram a esta mudança tão sonhada por todos.

Nesse regresso vieram-lhe à mente imagens do seu exílio. Quer da sua passagem por França, primeiro país onde se acolheu, quer do Brasil e da Argélia onde a par da sua actividade como Engenheiro foi um dos responsáveis pelo lançamento na Rádio da "Voz da Liberdade" que todo o Mundo ouvia com enorme interesse pela excelência dos textos noticiosos e também pelas vozes inconfundíveis de Tito de Morais e de Manuel Alegre. Sendo igualmente de assinalar, o facto de haver nessa Rádio uma locutora, então Jovem Jornalista, que também fora obrigada a exilar-se, Luísa Tito de Morais.

Curiosamente, também recordou a Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Europeia, realizada em Florença de 2 a 5 de Dezembro de 1971 e a parte da sua intervenção em que como representante da ASP afirmou:

* "Para a Acção Socialista Portuguesa superar os blocos políticos e militares significa vencer uma batalha na luta contra a alienação do homem, contra o Imperialismo, contra a sociedade capitalista. Significa ainda ter confiança na solidariedade entre os homens, em particular na solidariedade que deve unir as massas trabalhadoras de todos os países do mundo e que deve unir todos os jovens que são a garantia do futuro"

Enquanto o comboio avançava para Lisboa, afluiu-lhe ao pensamento que tinha de voltar a Itália a fim de fazer a mudança da sua residência de Roma para Lisboa e de se despedir dos amigos bem como dos seus Camaradas italianos que costumavam ajudá-lo na feitura do Portugal Socialista que clandestinamente editava e enviava para os emigrantes portugueses e ainda para os resistentes anti-fascistas que residiam em Portugal.

Assim aconteceu, depois da grande festa comemorativa do 1º de Maio, que todos vivemos com grande entusiasmo e euforia, foi com Maria Emília, sua mulher, a Roma para orientar o seu regresso definitivo a Portugal.

Antes de partir disse a Mário Soares que ele, Tito, se responsabilizaria pela organização do Partido Socialista, bem assim da preparação e coordenação do processo para a sua legalização. Nesse sentido, sob a orientação de seu irmão Augusto e seu filho João, deixou a funcionar um atendimento, provisoriamente instalado num andar na Duque d’Ávila, pertença de uma Cooperativa de Estudos, cujo responsável era Lopes Cardoso.

Foi nesse andar da Duque d’Ávila que mais tarde começaram a funcionar as primeiras secções do PS – sectoriais e de residência Foi também aí que conheci pessoalmente Tito de Morais e que tive o privilégio de com ele colaborar. Pois, precisamente no dia 1 de Maio de 74, comunicara a Teresa Loureiro, que  conhecía desde o Liceu D. Filipa de Lencastre,  da minha disponibilidade para colaborar e apoiar o PS.  E,  logo na manhã do dia 3  a Teresa telefonou-me a pedir para ir para lá, porque além dela só lá estava a Maria Antónia Catanho de Menezes e uma outra Senhora.

Claro que correspondi de imediato à chamada. A minha militância activa começou desde esse dia. Fi-lo como uma homenagem póstuma a meu Pai, José Carvalho dos Santos, que fora um jovem político interveniente na Iª República e que, entre outras acções, exerceu as funções de Chefe de Gabinete do Presidente do Conselho de Ministros Francisco Cunha Leal, Deputado da Nação pelo círculo eleitoral de Viseu e Governador Civil de Viseu. Em princípios de 1933, resolveu exilar-se voluntariamente para Angola onde exerceu com reconhecido saber a advocacia. Esta resolução deveu-se à sua defesa intransigente e publica pela autonomização das colónias, opondo-se às resoluções do Acto Colonial de 1930 bem como pela sua discordância com a política da governação autoritária de Oliveira Salazar, quer como Ministro das Finanças, quer posteriormente, como Presidente do Conselho de Ministros.

Anteriormente ao exílio Tito de Morais, devido às perseguições da PIDE, que impunha às Empresas que lhe davam emprego que o despedissem, fora viver para Luanda. Nesse período, antes de ser preso, conseguiu exercer a sua profissão e, discretamente, também actuar politicamente. Nessa sua acção contactou alguns oposicionistas ao regime de Salazar, entre os quais meu Pai, que vivia em Benguela. Devido a esse esforço conjunto, quer em Luanda, Benguela e em muitos outros distritos de Angola, contrariamente ao acontecido na então Metrópole, Humberto Delgado ganhou as eleições.

Pela admiração que a figura de Tito de Morais sempre me inspirou, foi-me particularmente gratificante tê-lo conhecido, ter tido o privilégio da sua amizade, de o ter entrevistado em Abril de 1991 e consequentemente ter elaborado a sua Biografia.

Ao evocar Tito de Morais, não posso deixar de referenciar o seu filho, João, que sentia fortemente a responsabilidade dos valores que herdara dos seus maiores.

Entre outros episódios políticos que vivemos no período pós 25 de Abril, em que ainda se lutava pela estabilidade da democracia, retenho na memória o seguinte facto. Estávamos na Duque d’Ávila. O João recebera um telefonema de um capitão de Abril, que na qualidade de membro do MFA, a funcionar na Cova da Moura, fora incumbido da cedência de edifícios aos partidos para a instalação das suas sedes. Este Oficial perguntara-lhe se o PS aceitaria o palácio sito em S. Pedro de Alcântara, onde funcionara a censura e pedia-lhe para visitar o citado prédio. O João muito satisfeito convidou-me a ir também. Tinha de decidir e gostaria da minha opinião. Fez idêntico convite a mais duas pessoas,  uma das quais foi à Maria do Carmo Maia Cadete.

Ambos fazem parte do álbum das minhas boas recordações. Inevitavelmente recordo sempre Manuel Tito de Morais e seu filho João Tito de Morais com enorme carinho, admiração e muita saudade.

 

* Fonte – Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Social – Florença, Dez. de 1971 – Pensamento retirado da sua Intervenção que se encontra no Espólio.



publicado por Maria José Gama às 02:20
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Quinta-feira, 4 de Março de 2010

Vitor Vasques - Fonte Luminosa Não vou fazer uma apreciação do Tito de Morais como cidadão e político, uma vez que outros Camaradas que contactaram mais intimamente com ele já o fizeram de maneira exaustiva. Vou falar sim, do meu Camarada e Amigo, militante em vários comícios, colega em dois governos e como candidato a Deputado do Partido Socialista pelo círculo de Viana do Castelo.

Como foi para mim reconfortante ver no FacebooK (Cctm Tito de Morais) a foto de um comício na Fonte Luminosa onde me revejo em companhia do Tito, do Mário, do Zenha, do Campinos, do Aires Rodrigues, entre muitos outros! Mas que grande PS! Que saudades da «chama» de então!

Em relação à nossa convivência estreita no Governo liderado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo, ele, ligado ao Emprego e eu à Segurança Social, vivemos momentos extremamente complexos numa altura conturbada da vida política do País. Recordo que no 25 de Novembro estávamos no Governo. Nesses tempos difíceis o Tito revelou-se sempre um Homem de grande serenidade e com fortes convicções no Socialismo em Liberdade como defendíamos. Este seu entusiasmo foi contagiante para aqueles que tinham, na altura, menos experiência política. Então, a coragem e a determinação de Tito de Morais foram uma pedra basilar para o nosso ânimo e forte determinação na defesa dos princípios defendidos pelo PS!

Continuámos esta luta no 1º Governo Constitucional, já sob a liderança do comum Amigo Mário Soares, então com uma perspectiva de projecto mais segura e com uma orientação política muito mais bem definida. Lembro os contributos dados pelo Tito e pelo nosso também saudoso Jorge Campinos no problema do apoio aos retornados.

Mais tarde, travámos uma luta difícil e para muitos considerada quase que impossível, no distrito de Viana do Castelo... Durante um mês de campanha eleitoral, diariamente, percorremos todo o distrito, levando as nossas propostas a locais onde nunca as palavras Democracia, Liberdade e Socialismo tinham sido ouvidas...Fomos a locais cujo acesso teve de ser feito a pé devido à falta de caminhos transitáveis… Lembro que a uns quilómetros do Lindoso, depois de fazer cerca de uma légua a pé, fomos recebidos em casa de habitante de uma aldeia de que não recordo o nome, que nos ofereceu como refeição, a única coisa que tinha: uma batata cozida e uma tira de carne que tirou da salgadeira. Era este o espelho do Portugal profundo!

Oferecemos-lhe um copo com o emblema do PS que guardou religiosamente…

Durante toda a campanha, à nossa esquerda, o PCP, disfarçado de MDP, atacava-nos, tentando encostar-nos à direita… aí o Tito respondia com o seu exemplo de militante de sempre! À nossa direita existiam nichos ultra-reaccionários que, por estratégia, ignorávamos. Existia, também um numeroso grupo de tradição conservadora e muito influenciado pelo clero local que nos tentava «colar» aos comunistas, fazendo de cada homilia um comício dominical. A todos respondíamos com a nossa tolerância religiosa, os nossos princípios éticos e morais, focando as nossas intervenções no irradicar das desigualdades existentes no campo social naquele Distrito tendo sempre a tónica da Democracia e do Socialismo em Liberdade! Foi uma luta difícil, com muito trabalho, muita determinação, mas extremamente estimulante! O esforço teve como resultado a nossa eleição como deputados para a Assembleia da Republica por esse Distrito!

A maior gratidão que tenho para com o Tito é viver segundo o legado que ele e também o Mário e o Arnaut me transmitiram com o seu exemplo e que vincou a minha maneira de estar e sentir para todo o sempre… é ser: «socialista, republicano e laico»!

É esta a minha sincera homenagem!

Fevereiro de 2010

Vítor Vasques



publicado por CCTM às 01:56
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Terça-feira, 2 de Março de 2010

Pedro CoelhoTito Morais foi-me apresentado em Paris por Mário Soares, num fim-de-semana de reuniões políticas no âmbito das actividades da então Acção Socialista Portuguesa, organização que precedeu e deu origem ao Partido Socialista actual.

Estávamos na segunda metade dos anos sessenta, ainda com Salazar no poder, a guerra de África já instalada nas três colónias de Angola, Moçambique e Guiné e uma repressão política violenta e selectiva.

Os jovens eram mobilizados em massa para a guerra e a oposição na Universidade, após um auge de movimentação estudantil na crise de 62 e nas lutas de 65, estava decapitada pelas prisões e exílios que dizimaram o movimento. Cá dentro, os que escaparam, tentavam reanimar o movimento estudantil mantendo as Associações dos Estudantes em funcionamento e mesmo com algum desenvolvimento nas suas actividades desportivas, pedagógicas, turismo estudantil e sociais. A coordenação inter-associações foi-se mantendo a nível local e nacional e em 67 organizou-se em Lisboa a primeira grande manifestação em Portugal contra a guerra do Vietname.

Mas o regime estava sólido, as Forças Armadas cumpriam a sua missão com lealdade ao poder político e longe estávamos da convicção generalizada que a guerra não era solução para o problema colonial.

Pela parte da Acção Socialista, era defendida uma abertura imediata de negociações com os movimentos de libertação, com compromisso dum caminho da auto-determinação e independência, caso fosse esse o desejo livre dos respectivos povos.

Tito Morais, o Tito como todos os mais chegados lhe chamávamos, não tinha qualquer dúvida que a solução acabaria por ser uma independência total das colónias, e que a doutrina salazarista dum só País pluricontinental não tinha qualquer viabilidade nem razão moral ou histórica, inviabilizando um concerto entre países livres e independentes, multirraciais, de língua portuguesa e de culturas com profundas raízes comuns e enormes inter-influências de séculos de convivência.

Salazar parece não ter conhecido o exemplo do Brasil e esqueceu, como uma “branca” definitiva lhe tivesse dado, a vergonha do Estado da Índia, cristã e portuguesa, que por falta de visão deixou perder.

A minha amizade e harmonia com o Tito não foi difícil de iniciar. Em adolescente tinha sido amigo próximo do seu filho João Manuel, meu colega no Colégio Moderno. Perdemos o contacto pois o João Manuel exilou-se para o Brasil e estivemos sem nos ver até Abril de 74.

As nossas ideias eram em geral coincidentes, ainda que muitas vezes o considerasse demasiado radical. Talvez o facto de estar exilado em Roma lhe desse uma visão mais afastada de algumas situações que eu, que sempre vivi em Portugal, analisava de forma diferente. Nos princípios era inflexível, embora razoável e conciliador na acção política concreta.

Pela geração a que pertencia, pela sua formação e pela sua vivência, era claramente um homem de esquerda, aquilo que poderíamos chamar, da grande família da Esquerda Portuguesa.

Aquela ideia hoje divulgada por muitos que as distinções entra Esquerda e Direita estão esbatidas quer pela “morte” das ideologias, quer pela necessidade da Sociedade e da Economia dum pragmatismo permanente e sempre presente em todas as grandes decisões, não tinham qualquer sentido para Tito Morais e apenas representavam uma forma nova, inteligente e insidiosa, de manter a exploração dos mais fortes sobre os mais fracos.

A minha situação profissional como quadro duma importante multinacional italiana da indústria farmacêutica fazia-me deslocar a Itália com alguma regularidade e, por vezes por períodos longos. Este facto fez com que visitasse o Tito e a Maria Emília, sua segunda mulher, amiúde. Sempre que podia dava um salto a Roma e ficava em sua casa, partilhando por alguns dias um quotidiano difícil, onde o dinheiro não abundava e, algumas vezes que por lá passei, senti mesmo que passavam mal.

Nesse tempo, no princípio dos anos 70, o Partido Socialista Italiano ajudava a Acção Socialista, particularmente na publicação do nosso jornal oficial que se chamava Portugal Socialista e que trazíamos à socapa para o interior do País.

Era Tito Morais que se encarregava de quase tudo, com ajuda da Maria Emília e do seu filho mais velho. Os artigos eram recebidos de diversas fontes de camaradas no exílio ou do interior, do próprio Tito e dum colaborador muito especial e dedicado que se chamava e chama, Mário Soares.

Mário Soares visitava frequentemente o seu amigo Tito, particularmente quando esteve exilado em Paris. Penso mesmo que terá sido quem mais o visitou nessa estadia forçada em Roma. Pelas razões atrás referidas creio bem que eu próprio fui o membro da ASP e posteriormente do PS, o português quem mais o visitou e partilhou as suas esperanças, a sua coragem e tenacidade na luta pela Liberdade em Portugal. Temos que nos organizar em todos os sectores da sociedade portuguesa, dizia, não só nas universidades e entre os intelectuais, mas também nos meios operários, nos serviços e nos meios rurais. Era sua convicção que o ideário do Socialismo em Liberdade, como lhe chamámos em 1969 ou Socialismo Democrático como lhe chamamos desde os anos 70, era maioritário em Portugal e que umas eleições livres e participadas o iriam demonstrar. Tinha toda a razão.

Pessoas como o Tito fazem falta e fazem-nos muita falta. São referências permanentes que, quando presentes nos estimulam à acção e à constante atenção na coerência dos nossos princípios com os nossos procedimentos.

Aproveitemos o centenário deste herói da Resistência e da Liberdade para revisitar os princípios que fazem grandes as nações. Os princípios da liberdade, da solidariedade e da convivência humana com tolerância, responsabilidade e respeito pelo próximo.

Lisboa, 31 de Janeiro 2010

Pedro Coelho



publicado por CCTM às 01:38
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Sábado, 23 de Janeiro de 2010

Acção Socialista “Manuel Tito de Morais foi uma personalidade única, um exemplo moral para todos nós, pela determinação, coragem e coerência com que defendeu as suas ideias de liberdade e justiça social”,

afirmou o presidente do PS, Almeida Santos, na cerimónia, no dia 14, no cemitério da Guia, em Cascais, que assinalou os dez anos da morte do fundador do nosso partido e antigo presidente da Assembleia da República.

“Nunca conheci ninguém cujo carácter, honradez, integridade moral, coragem e coerência das ideias me tenham impressionado tanto, por isso foi a figura política que mais me marcou”,

referiu o presidente do PS, sublinhando que

“é preciso não esquecer homens como Tito de Morais que foi um resistente pela liberdade e democracia, com os sacrifícios inerentes, desde a prisão ao exílio”.



publicado por CCTM às 17:05
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Contentores Em finais de 1975, recebi um convite para trabalhar no Gabinete do Secretário de Estado do Emprego como assessor para a área do emprego e formação profissional, minha especialidade técnica no IEFP.

Em 1 de Dezembro, após breve encontro com o chefe do gabinete, fui apresentado pessoalmente ao Eng. Tito de Morais, pessoa que, não obstante não conhecer pessoalmente, há muito admirava.

Foi logo manifestada uma grande empatia entre ambos. Aquela figura franzina de uma correcção extrema, deixou-me imediatamente estupefacto pelo facto de, não obstante o curto tempo de acção governativa que levava, já dominar com grande profundidade as necessidades imediatas do emprego e formação profissional, a dimensão da capacidade de resposta dos serviços, o nome de todos os dirigentes cuja competência era reconhecida independentemente da ideologia seguida.

Muitos foram aqueles que independentemente da cor partidária lhe ficaram eternamente reconhecidos, dedicando-lhe o respeito e a consideração que este Homem de Princípios merecia.

Entre inúmeras acções realizadas, vem-me à memória um episódio que jamais esquecerei. Os chamados “Homens da Rua” do sector portuário eram trabalhadores sem qualquer protecção social que há muito vinham solicitando uma solução para a sua difícil situação. Havia casos de extrema penúria porquanto não conseguiam trabalho continuado chegando a estar grandes períodos sem laborar e, como tal, não conseguiam angariar os meios de sobrevivência. Várias vezes os seus representantes foram recebidos no Gabinete mas o assunto não era de fácil resolução. Todos os dias se concentravam à porta do Ministério do Trabalho, na Praça de Londres, edifício onde no 16º andar estávamos instalados. Sem nada prometer, como era seu hábito, no meio de imensos assuntos que exigiam uma actuação imediata, Tito nunca esqueceu o drama dos Homens da Rua.

Apesar das dificuldades de vária ordem, incluindo dificuldades legais, o subsídio de desemprego acabou por se tornar realidade. Dias antes da decisão ser tornada pública, acompanhava eu o Secretário de Estado, vejo uma enorme algazarra à porta do Ministério. Receei pela reacção daquela gente ao reconhecer o governante de quem dependia a solução da sua precária situação. Qual espanto meu quando se ouve uma voz entre a multidão dizer:

Camaradas, vem aí o “Nosso Homem", o Engenheiro Tito de Morais!

De imediato abriram alas entre imensas palmas e Tito de Morais pondo os olhos no chão envergonhadamente entrou no Ministério. Voltando-se para mim disse: Mas que fiz eu para merecer isto!

Personagem de grande rigor político. Homem de uma só palavra, foi e soube ser incómodo em muitos momentos da vida deste País. Hoje faz-nos falta tal incomodidade porque era justa.

Vamos comemorar o centenário de Tito de Morais por ele, por nós, por Portugal que precisa cada vez mais de ter presente o nome e a obra dos poucos que têm sabido dignificar a palavra Povo.



publicado por Alvaro Sales Lopes às 02:26
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

A festa do fim do ano de 1973 reuniu em Lausana: Mário Soares, Maria Barroso, Manuel Alfredo Tito de Morais, Maria Emília, além da família anfitriã Teresa, Jaime e os seus filhos Carlos e Rita.

À época, Mário Soares e Tito de Morais eram dirigentes socialistas no exílio que tinham assinado, dias antes, provavelmente em Paris, um manifesto com a Direcção do PC, que apontava no caminho de uma unidade de esquerda tipo Frente Popular. O Partido Socialista Português já tinha sido constituído, em Abril desse ano, na cidade alemã de Bad Munstereifel.

Como em todas as passagens de ano era obrigatório: a abertura da garrafa de espumante, as passas e o bolo. Os votos e os desejos tinham os olhos postos no regresso a Portugal e no derrube da Ditadura. As ilusões da "primavera Marcelista” tinham chegado ao fim.

“Para o ano em Portugal”, voto repetido ao longo de tantos anos de exílio, tornou-se uma realidade.

É hoje, com saudades, que relembro esse dia e muitos outros mais passados no exílio e depois em Portugal, no convívio com o meu sogro, Manuel Alfredo Tito de Morais.

Recebido em sua casa, sempre como filho, também sempre o considerei como um segundo Pai, e é difícil falar, com imparcialidade, de um Pai.

Apesar de eu ter militado num Partido diferente do dele; recebi o seu exemplo como a herança que nos deixou a mim e à minha família, de verticalidade, honestidade, de lutador incansável pela Justiça, de defensor dos mais fracos.

Tito de Morais, nascido em berço de ouro, recebeu, como muitos naquela época, os ideais da República: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como primeira refeição.

Atrevo-me a dizer que foi sempre um socialista de esquerda, certamente mais influenciado pelos ideais da revolução francesa do que da revolução bolchevique, mas não era um social-democrata.

Na política ficou como o grande obreiro do partido socialista, o militante por excelência, o que punha o Partido e o combate em primeiro lugar, muitas vezes em detrimento do convívio familiar de que tanto gostava.

Nos tempos que correm distingo como um dos principais traços do seu carácter, a honestidade e diria mesmo o desinteresse completo pelo dinheiro e os bens supérfluos desta sociedade de consumo.

Pertencia àqueles homens que apesar de desempenharem altos cargos de Estado, viajavam de comboio em 2ª classe, porque não existia 3ª, que preferiam um restaurante popular, onde se comesse o bom “cozido à portuguesa”, em vez de um “requintado” que estivesse na moda.

Para o PS e para toda a esquerda portuguesa, ele deve ser o exemplo a seguir, de estar na política servindo o país, como o fez durante toda a sua longa vida.



publicado por Jaime Mendes às 19:37
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Tito de Morais - 1974
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Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

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