Domingo, 11 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Estava eu a estudar na Suíça em 1966 quando conheci o Manuel Tito numa conferência do Comité Suíço para a Amnistia em Portugal realizada em Lausanne. Admirei logo a frontalidade com que interveio numa mesa em que estava também um representante do PCP, com o qual percebi haver uma certa tensão. Só o reencontrei sete anos mais tarde em Paris nas inolvidáveis reuniões de Agosto de 1973, na Fundação Leo-Lagrange do Partido Socialista Francês para discutir e aprovar a Declaração de Princípios e o Programa do Partido Socialista, cujo projecto o Sottomayor Cardia, o Marcelo Curto e eu trazíamos de Lisboa. Foram discussões homéricas, nas quais, para minha surpresa, o Manuel Tito, conjuntamente com o Chico Ramos da Costa, alinhou pela posição dos “radicais” de Lisboa, contra as posições bem mais moderadas do Mário Soares, do Campinos e do Bernardino Carmo Gomes. Eu, que o tinha em conta de um republicano socialista moderado vi-me várias vezes ultrapassado pela esquerda! Logo ali tive a demonstração da sua fibra, da força das suas convicções e do seu empenhamento num ideário socialista coerente e sem transigências. Atitude que manteria até ao fim da sua vida.

Voltei a abraçá-lo no seu regresso do exílio, no dia 28 de Abril, na Estação de Santa Apolónia. Foram então os tempos da organização do PS e da sua sede, que ele dirigiu com pulso firme e uma devoção sem limites, com a preciosa ajuda da Maria Emília. Fizemos várias viagens juntos pelo país, em intermináveis conversas, com sessões de esclarecimento por todo o lado. E o Tito tudo aguentava com uma enorme capacidade de resistência que pedia meças aos mais jovens de nós.

No 28 de Setembro lembro-me da surpresa com que me recebeu e me abraçou na sede de S. Pedro de Alcântara, quando lhe apareci fardado e armado, numa altura em que se receava a invasão da sede por gente da extrema-direita, e o tranquilizei sobre a evolução dos acontecimentos!

Mais tarde, no governo, testemunhei o sofrimento com que se confrontava com os nossos recuos ideológicos e/ou tácticos. Para a história ficará o seu voto isolado de vencido na célebre reunião da Comissão Nacional do P S em que se aprovou o acordo parlamentar de incidência governamental com o CDS que viabilizou o II Governo Constitucional!...

Como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, não posso também deixar de evocar aqui a sua iniciação na Maçonaria em 31 de Março de 1990 numa das mais antigas Lojas do GOL, a Loja José Estêvão, uma das poucas que resistiu à Ditadura sem abater colunas. Faria 80 anos poucos meses depois, tendo atingido o grau de Mestre em 11 de Dezembro de 1990. Não deixa de ser curioso que tivesse esperado pela fase final da sua vida para formalizar uma adesão, que vários dos seus amigos e camaradas de geração, como António Macedo e Mário Cal Brandão, tinham concretizado muito antes. Como se a adesão ao GOL fosse o coroar de toda uma carreira cívica, ele que já era há muito um “maçon sem avental”! Creio que, em certa medida, quis também desta maneira homenagear o próprio pai, o grande Almirante Tito de Morais, herói da República e grande maçon.

António Reis



publicado por CCTM às 12:00
link do post | comentar |

Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

António Reis - Portugal Socialista nº214 Conheci pessoalmente o Manuel Tito de Morais em Agosto de 1973, quando, na companhia de Sottomayor Cardia e de Marcelo Curto, me desloquei a Paris para participar nas reuniões do Secretariado do Partido Socialista, destinadas a ultimar a primeira Declaração de Princípios e o primeiro Programa do PS, ainda na clandestinidade. Tinha 25 anos muito sangue na guelra e uma certa desconfiança ideológica em relação à “velha guarda” do PS, que suspeitava de inaceitáveis tentações reformistas social-democratas... Qual não foi, porém, o meu espanto ao confrontar-me com o radicalismo programático tanto do Tito como do Ramos da Costa, que o Mário Soares e o Campinos tentavam sem êxito sofrear, em intermináveis discussões numa sala da sede da Fundação ligada ao PS francês! Surpreendido com aqueles aliados inesperados, a corrente de simpatia e amizade mútua rapidamente se estabeleceu para não mais se perder. E quantas vezes não dei por mim, ao longo deste 23 anos, a ver-me superado em determinação, arreigadas convicções, intransigência ideológica ou simplesmente estratégica, pelo Manuel Alfredo, socialista de antes quebrar do que torcer.

Na resistência à ditadura, na revolução, no poder e na oposição em regime democrático, nunca o Tito se deixou enlear pelos cantos de sereia das atitudes acomodatícias e dos oportunismos tácticos ou pelos “diktats” da realpolitik” frutos tantas vezes de um pragmatismo sem alma. Excessivo e teimoso na sua coerência ideológica? Ingénuo num mundo que persiste em ignorar a utopia e em deitar por terra tantos e tão nobres ideais? Provavelmente sim, em parte. Mas o que seria de nós se não tivéssemos alguém, como ele, com coragem e determinação para, em cada encruzilhada, nos alertar contra as tentações capitulacionistas e contra as ingenuidades de sinal contrário, que também as há? Por isso, o Tito permanece uma referência ética e moral no nosso Partido, cujo exemplo de vida e cuja voz se impõem à consciência de cada militante e de cada dirigente.

Sei que, na sua modéstia de revolucionário e socialista íntegro, ele detesta homenagens, porventura suspeitando também dos refinados exercícios de hipocrisia ou instrumentalização de uma vida a que tais ocasiões tantas vezes se prestam. Mas estou convicto de que ele saberá interpretar esta iniciativa, em boa hora levada a cabo por camaradas militantes de base e não pela direcção do Partido, como a expressão sadia e sincera de um sentimento de admiração por tudo o quanto ele representa no coração dos socialistas deste País e de um desejo de ver os valores por que sempre lutou mais presentes no quotidiano do PS e na acção dos seus governantes. Em tempos de tentações mediáticas de instituir um “jet-set rosa” em tudo idêntico ao “jet-set laranja”, bom é que meditemos um pouco neste exemplo de coerência e austeridade, a fazer lembrar as velhas virtudes cívicas republicanas, hoje infelizmente esquecidas.

António Reis

Fonte: Portugal Socialista 214 – Outubro de 1996



publicado por CCTM às 03:14
link do post | comentar |


Tito de Morais - 1974
CCTM
Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

. . . . - HomePage -
pesquisar neste blog
 
contactos
Largo do Rato nº 2
1269-143 Lisboa
cctm@sapo.pt
cctm@ps.pt
autores
em destaque
. biografias (notas)
. - entrevista (M.José Gama)
. cctm - comissão executiva
. cctm - comissão de honra
. comunicação social/informação
. Portugal Socialista 2010
. depoimentos actuais
. depoimentos anteriores
. estórias
. exílio
. - Argélia
. - França
. - Itália
. família
. mensagens
posts recentes

A força das convicções no...

Socialista de antes quebr...

arquivos

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

últimos comentários
SUA SOLUÇÃO FINANCEIRA EM 72 HORAS.Incrível, mas v...
Boa noite,Ainda tenho uma carta do Francisco R.Cos...
Boa noite, sugiro que entre em contacto com a asso...
Boa noite, estou a realizar um trabalho no âmbito ...
Só lhe peço que refira que a imagem faz parte do e...
Boa noite caro amigo,Gostaria de lhe perguntar se ...
Estou a ver na TV informacao sobre a greve. Esta g...
Tenho seguido atentamente todos os passos destas c...
Li as vossas palavras e fiquei muito contente de s...
Excelente! É uma amizade exemplar que nem a distân...
tags

todas as tags

links
subscrever feeds
blogs SAPO