Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de MoraisÍndice da Edição Especial do Portugal Socialista 2010.07.02

Editorial
Legado, inspiração e estímulo
José Augusto de Carvalho

Sempre em defesa dos valores republicanos e socialistas
António de Almeida Santos

Exemplo de empenho cívico
José Sócrates

Testemunho
Mário Soares

Guardião dos valores do socialismo democrático
J. Ferraz de Abreu

Representou a alma do partido
António Guterres

Um socialista sem medo
Eduardo Ferro Rodrigues

Manuel Tito de Morais, o socialista
Amândio Silva

Combatividade inquebrantável e fidelidade à ética republicana
Ana Gomes

Reabilitar o projecto socialista
António Arnaut

Lembrar e seguir
António Coimbra Martins

Um inesquecível camarada
António Costa

Firmeza das convicções e coerência na acção
António José Seguro

A força das convicções no ideário socialista
António Reis

Militante da amizade
Antunes Ferreira

Figura cimeira da luta pela liberdade
Duarte Cordeiro

Um socialista de fortes convicções
Edmundo Pedro

Um homem de princípios
Germano Lima

Artífice da edificação do Partido Socialista
José Neves

Esta viagem a Tito de Morais é uma passagem geracional de testemunho
Luís Novaes Tito

Um socialista praticante
Manuel Alegre

Um ídolo da minha juventude
Manuel van Hoof Ribeiro

A coragem de um combatente e a fraternidade de um homem
Maria Carolina Tito de Morais

Um ícone da democracia
Maria do Carmo Romão

Porque sem ideias não há convicções e sem ambas não teria havido revolução
Maria Helena Carvalho dos Santos

Tem um lugar na História do país
Maria de Jesus Barroso

Homenagear Tito de Morais é homenagear Abril e a Liberdade
Maria José Gama

Uma referência do Partido Socialista
Maria Manuela Augusto

Memória de um amigo
Pedro Coelho

Manuel Tito de Morais e o 25 de Abril
Pedro Pezarat Correia

Grande lutador pelos valores da justiça social
Vasco Lourenço

Um patriota de excepcional coragem
Vítor Crespo



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Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de MoraisLogo que os recebi da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais, li detidamente, do primeiro ao último, os textos que dão corpo e alma à presente edição especial do “Portugal Socialista”.

De seguida, reli os depoimentos – igualmente em homenagem a Tito de Morais – também aqui dados à estampa em Outubro de 1996.

Completei a minha incursão percorrendo um livro já de folhas amarelecidas que reproduz a colecção de todos os números do “Portugal Socialista”, publicados na clandestinidade.

Tratou-se de um triplo itinerário – que vivamente recomendo aos mais jovens – de reencontro com a história, a memória, o património e os tesouros do nosso Partido Socialista. Tesouros de dedicação, tenacidade, sacrifício e entrega. E, simultaneamente, de coerência, fidelidade, fraternidade e humanismo.

São homens e mulheres cuja grandeza faz jus a que figurem na história do Partido Socialista e na História maior de Portugal. Portugueses que tudo na vida sacrificaram para que pudessem legar aos seus filhos uma terra de liberdade, democracia e justiça social.

Sem um esbirro em cada esquina, uma censura em cada voz e o risco de destruição em cada vida. Pela dignidade como estrutura essencial do homem e contra as injustiças gritantes ou sem voz.

Entre os combatentes heróicos por uma Pátria nova, indubitavelmente, avulta Manuel Tito de Morais. Cidadão tenaz, impoluto, nobre de sentimentos, para quem o homem não foi feito para vegetar na mediocridade. Não foi feito para a adaptação e a resignação. Daí que as actuais comemorações do seu centenário constituam uma justa homenagem e um oportuno estímulo.

Pela lição de vida de Tito de Morais, são comemorações que se colocam nos antípodas das que mumificam os vivos, estimulando-nos a reflectir em ordem a melhor responder às inquietações e perplexidades que nos assaltam.

Até porque, como Coimbra Martins lapidarmente deixa escrito adiante, “comemorar é partir de novo”.

O Partido Socialista é obra generosa e patriótica, decisivamente, do gesto precursor de Abril de 1964 de Mário Soares, Ramos da Costa e Tito de Morais e dos que em Abril de 1973 – Abril premonitório! – se reuniram em Bad Munstereiffel.

O Partido Socialista é um corpo social, uma comunidade de mulheres e homens livres com valores comuns que o vocacionam para se assumir como a figuração da alma portuguesa.

Inspirados em Tito de Morais e noutros obreiros de referência do Partido Socialista, saibamos remar contra a corrente para chegarmos à nascente que ambicionamos e nos identifica.

“São ideias que mudam o mundo e não o mundo que muda as ideias” como, no seu testemunho, aqui nos recorda António Arnaut.

A natureza cria as nozes mas não as parte. Tito de Morais e outros socialistas seus contemporâneos fizeram o que generosa e patrioticamente lhes cabia.

Façamos nós, neste tempo, o que nos cabe.

Com determinação e optimismo, enquanto força vital e vontade de futuro.

José Augusto Carvalho

Director do Portugal Socialista



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais O Eng.º Tito de Morais foi uma das minhas referências políticas. É-o ainda a sua memória.

Conheci-o em Madrid, juntamente com Mário Soares, onde para os encontrar me desloquei, em pleno salazarismo. Mário Soares estava exilado em Paris, e Tito de Morais exilado em Itália. Eu advogava em Lourenço Marques, capital de Moçambique, e vinha com frequência a Lisboa, por motivos profissionais. Encontrava-me com o meu velho amigo Salgado Zenha, com Raul Rego, o Gustavo Soromenho, e os outros revolucionários do costume, que tinha conhecido por intermédio de Soares e Zenha.

O tema do encontro de Madrid foi, como sempre, o problema do Ultramar e o derrube do ditador.

Tito de Morais causou em mim uma forte impressão. O futuro viria a confirmá-la. Ele viria a editar e difundir o “Portugal Socialista” e, mais tarde, esteve entre os fundadores do Partido Socialista.

Reencontrámo-nos na exaltação dos cravos, quando ele e Mário Soares regressaram, livres, a Portugal. Eu estava em Lisboa quando a liberdade eclodiu, vivi a exaltação de ser livre, pela primeira vez, quarenta e oito anos depois de ter nascido e, pouco depois, regressei definitivamente a Portugal para integrar o primeiro governo provisório.

É inimaginável a alegria com que, na cerimónia da posse, pude encontrar a meu lado os meus velhos companheiros de luta Mário Soares, Salgado Zenha e Raul Rego. Além do meu amigo Prof. Adelino da Palma Carlos, como Primeiro-Ministro.

Como entrei para o Governo na qualidade de independente, o PS pôde contar sempre com um voto a mais nas reuniões dos sucessivos governos provisórios – nada menos de cinco – em que participei antes do primeiro governo constitucional. Neste e nos demais de que fiz parte, já votei como militante do P.S.

E foi nos encontros partidários e pessoais, não só como camarada, mas crescentemente amigo, que melhor conheci e crescentemente admirei o Manuel Tito de Morais. Foi para mim, sobretudo, um exemplo de dignidade pessoal. Como lutador político, e sobretudo como agente, foi sempre um corajoso exemplo de aprumo pessoal, rigor funcional, e exigência ética.

Nas reuniões do partido, esteve sempre do lado do respeito pelos princípios e os valores republicanos, democráticos e socialistas. Debalde se lhe oporiam exigências do pragmatismo e da realidade. Foi sempre, nesse sentido, um fervoroso cultor do pensamento utópico. Nunca cultivou a ambição de cargos ou se bateu por eles. Bem ao contrário, rejeitou alguns. No partido foi tudo o que quis ser. Pertenceu sempre aos mais altos órgãos. Fora dele, abriu apenas duas excepções: aceitou ser Secretário de Estado e Presidente da Assembleia da República.

Diferente terá sido a satisfação que um e outro desses cargos lhe proporcionaram. Tito de Morais não era um executivo. Se tivesse querido sê-lo, não lhe teriam faltado oportunidades. Na administração pública e fora dela. Mas não quis.

E não quis, entre outras razões, porque nunca o seduziram as altas honrarias e remunerações, ou mesmo a riqueza em si. Viveu modestamente até ao fim.

Onde terá bebido essa sua tão sedutora personalidade? Decerto nos princípios de ética política a que sempre foi fiel. Mas também nos genes e nos exemplos que herdou de seu pai, um ilustre oficial da Marinha que foi uma figura destacada da revolução republicana de cinco de Outubro de 1910. Bateu-se a partir de barcos surtos no Tejo, e é sabido que, o que mais cedo fez fugir o jovem rei D. Manuel, que não tinha nascido para actos de coragem, foi a bombarda com que um desses barcos logrou atingir o quarto de dormir do rei no Palácio das Necessidades. Em razão disso tomado de pânico, partiu para Mafra, daí para Ericeira, e daí para o exílio, no iate real que tinha estado na origem de um dos escandalosos adiantamentos não pagos à Casa Real, que tanto deterioraram a imagem do rei D. Carlos. Tito de Morais terá herdado de seu pai a mística de aprumo cívico e ético que foi a dominante de toda a sua vida.

Passa este ano o centenário de Manuel Tito de Morais. O País e a República têm para com ele umas dívidas de exemplar cidadania. E se saldássemos essa dívida?

Como seu camarada e amigo; como venerador da sua memória e do seu exemplo, eu veria isso com inultrapassável satisfação. Sei que a Câmara Municipal cogita num busto. Sei que a Assembleia da República programa também uma homenagem. Esses actos são justos. Mas não serão pouco?

António de Almeida Santos
Presidente do Partido Socialista



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais No centenário do seu nascimento, neste ano também centenário para a República, é tempo de reencontro evocativo com um republicano e socialista de têmpera como era Manuel Tito de Morais. E, por isso, quero deixar o meu testemunho sobre aquele que foi um dos principais obreiros do Partido Socialista. Um homem cujo empenho na causa socialista remonta a esses longínquos tempos em que ele, Mário Soares e Francisco Ramos da Costa fundaram a Acção Socialista Portuguesa, esse precioso embrião de um dos mais importantes pilares da nossa democracia, o Partido Socialista.

Conheci-o como homem de fortes convicções, determinado, lutador e corajoso, que viu a sua vida, nesses tempos difíceis da ditadura, transformar-se num permanente roteiro de exilado em luta pela liberdade do seu País. A ele devemos muito do que representa o nosso PS, porque ele sempre esteve lá, onde se decidiam os difíceis caminhos da liberdade e da democracia. Caminhos que, primeiro, a ASP e, depois, o PS sempre ousaram trilhar com a nobreza de alma dos seus fundadores.

Fundador e Presidente do PS, Presidente da Assembleia da República, deputado, constituinte e militante apaixonado da causa pública, Manuel Tito de Morais deixou-nos um testemunho exemplar de empenho cívico, de coerência moral, de espírito lutador e companheirismo solidário.

É por isso que, no Centenário do seu nascimento, o evoco com grande emoção e gratidão, em nome do PS e de todos aqueles que amam a liberdade e a democracia. E é uma coincidência gratificante que o possamos lembrar precisamente neste ano de evocação da também centenária República, dos seus ideais e dos seus valores de cidadania.

Valores que, afinal, também sempre foram os seus.

José Sócrates
Secretário-geral do Partido Socialista



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Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Conheci o engenheiro Manuel Tito de Morais, no Movimento de Unidade Democrática (MUD), em 1945, no imediato fim da II Grande Guerra, na Europa. Filho de um dos chamados "almirantes da República", do mesmo nome – como Afonso Cerqueira, Cabeçadas e Sousa Dias – revolucionários do 5 de Outubro e amigo do meu Pai, só tinha razões para simpatizar com ele e nos tornarmos camaradas, apesar da diferença de idades que havia entre nós.

Acresce que Manuel Alfredo Tito de Morais se revelou um activista anti-fascista sempre pronto a participar nas acções mais audaciosas, contra a ditadura, legais e para-legais, como então dizíamos. Era um tempo de euforia, dada a vitória das Democracias, na II Grande Guerra, e da União Soviética bem como da criação da ONU. Todos pensávamos, com lógica, que os pequenos e cruéis ditadores peninsulares – Salazar e Franco – não se aguentariam no poder, contra a corrente. Mas os interesses e os complexos caminhos da política, às vezes, desmentem a lógica das coisas. Foi o caso, sobretudo após se instalar a "guerra-fria", que dividiu o mundo em dois...

Essa aprendizagem difícil, fizemo-la os dois, conjuntamente, com os nossos amigos e camaradas, Manuel Mendes, Gustavo Soromenho, Maria Isabel Aboim Inglês, Luciano Serrão de Moura, Lobo Vilela, Teófilo Carvalho dos Santos, Ramos da Costa e alguns outros, tendo como referências principais duas figuras de excepção: Mário de Azevedo Gomes e Bento de Jesus Caraça, ambos Professores universitários e os dois compulsivamente demitidos por Salazar.

Manuel Alfredo Tito de Morais e eu próprio fizemos parte da Comissão Central do MUD (na segunda fase). Por isso, fomos processados e tivemos que depositar uma caução de cem contos, cada, uma soma considerável para a época, para ficarmos em liberdade. Mais tarde, fomos presos, tendo passado cerca de dois meses na mesma cela do Aljube, onde estavam também, Azevedo Gomes, Manuel Mendes, Mayer Garção e outros. Inclusivamente o meu Pai e o velho revolucionário Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha, mas esses por terem participado numa tentativa de um putsch militar frustrada...

Em 1949 participámos ambos na Campanha presidencial do general Norton de Matos – que foi uma farsa salazarista da chamada, por Salazar, "liberdade suficiente" – e, em consequência disso, voltámos a ser presos. Manuel Tito de Morais, por razões pessoais, resolveu ir para Angola. Por isso, participou, efemeramente na Campanha do general Humberto Delgado, em Angola, e eu em Lisboa. Os resultados são conhecidos: o roubo eleitoral da Ditadura foi evidente e o general, depois de ter estado exilado no Brasil e na Argélia, resolveu participar numa tentativa revolucionária em Portugal, que foi uma armadilha, onde foi assassinado pela PIDE, à ordem de Salazar.

Entretanto, anos antes, em 1961, deram-se os primeiros ataques nacionalistas em Angola. Na leva das prisões feitas pela ditadura foi incluído Tito de Morais, juntamente com os angolanos, apenas por ser reconhecido como oposicionista e anti-colonialista. Prevenidos pela sua segunda Mulher, Maria Emília, escrevemos uma carta de protesto ao ministro das Colónias Adriano Moreira, que o fez regressar a Lisboa e o libertou. Tito, esteve pouco tempo em Lisboa. Resolveu exilar-se, voluntariamente, para a Argélia e, depois, para Itália.

Durante este longo período, em que estivemos tão distantes, mantivemos sempre o contacto, embora espaçado. Em 1964 num encontro que tivemos em Genève, no modesto Hotel Moderno, Ramos da Costa, Tito de Morais e eu, devidamente mandatados pelos nossos camaradas e amigos, fundámos a Acção Socialista Portuguesa (ASP) com a intenção, que veio a concretizar-se, de fundar um verdadeiro Partido Socialista. Porquê? Porque, dado o ambiente internacional da "guerra fria", que então atravessávamos, tínhamos a percepção de que se não nos autonomizássemos do PCP – que era então o único partido organizado, na clandestinidade – nunca conseguiríamos credibilizar-nos, junto da corrente socialista extremamente influente na Europa Ocidental.

Durante esse período da ASP, de 1964 a 1973, que foi uma fase de grande expansão, Tito vivia em Roma, onde lançou o jornal Portugal Socialista, com a ajuda do PS italiano, o Ramos da Costa em Paris e eu, em Lisboa, com os percalços habituais: prisões, deportação em São Tomé e finalmente exílio forçado, em Paris.

Em 1973 convertemos a ASP em Partido Socialista num Congresso realizado em Bad Münstereifel, Alemanha, em que participaram camaradas vindos de várias cidades do interior (Portugal) e camaradas exilados políticos em diferentes países europeus. Foi um período politicamente trabalhoso, em que multiplicámos os contactos internacionais, com os Partidos da Internacional Socialista – na qual fomos admitidos nesse mesmo ano – e não só, em vários Continentes, com a visão sempre presente de que o regime estava no fim. Não nos enganámos.

Em 24 de Abril de 1974, encontrávamo-nos os três – Ramos da Costa, Tito e eu – em Bona, a convite de Willy Brandt. Tentávamos convencer os camaradas do SPD, de que a revolução em Portugal estava para breve. Em vão. Estavam no Governo, tinham o poder – julgavam ter as melhores informações – e diziam-nos que a Ditadura de Caetano estava de pedra e cal. Para durar...

No dia seguinte de manhã, bem cedo, fomos acordados pelos camaradas alemães a informar-nos que, afinal, alguma coisa se estava a passar em Lisboa. Voámos para a sede do SPD e conseguimos falar telefonicamente com o Raul Rego, director do República. Disse-nos que de facto havia tropas revoltadas na rua, mas não se sabia quem as comandava e se eram da Direita (Kaúlza) ou da Esquerda (Spínola). Aconselhou-nos, sobretudo, que não regressássemos a Lisboa, para não sermos presos na fronteira.

Decidimos ir imediatamente, numa primeira etapa para Paris. E voltar daí a comunicar com Lisboa. Tito estava proibido de entrar em França. Teve que ir via Bruxelas e, depois, de automóvel, clandestinamente, para Paris. E, no dia seguinte, porque o aeroporto estava fechado, viemos de comboio para Lisboa.

25 de Abril foi a festa da liberdade, a revolução dos capitães, dos cravos e de sucesso, porque pacífica, sem efusão de sangue e que cumpriu todos os seus objectivos: descolonizar, democratizar e desenvolver, por esta ordem. O regime caiu de podre, sem resistência e deixou-nos o caos.

Daí para diante, a história é conhecida. Teve altos e baixos, momentos de grande exaltação e outros de enorme perigo ou de grandes dificuldades. Tito e eu estivemos praticamente sempre do mesmo lado da barricada. Tito foi o primeiro responsável da organização do PS. Uma posição chave, crucial. Só no primeiro mês tivemos cem mil novos aderentes-militantes. Foi deputado em todas as Legislaturas, Secretário de Estado da População e Emprego no I Governo PS, e Presidente da Assembleia da República. Pertenceu sempre ao núcleo duro do Partido. E até à sua morte, mantivemos sempre uma amizade sem mácula, impenetrável às intrigas e às controvérsias vivas que surgem num Partido democrático e pluralista, como o PS.

Manuel Alfredo Tito de Morais foi um homem bom, de carácter, valente, coerente com as suas ideias e sempre fiel às suas convicções e amizades. Foi um resistente intemerato contra a Ditadura. Em suma um cidadão exemplar.

Mário Soares



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais A personalidade e o nome de Tito de Morais aparecerão sempre no topo das primeiras páginas duma História do Partido Socialista e da História da luta contra a ditadura salazarista, do seu derrube e do renascimento da Democracia em Portugal. Ele fez parte, e com grande relevo, da plêiade de gigantes que tudo sacrificaram nessa luta: Vida familiar, carreiras profissionais e a sua própria liberdade.

Preso, perseguido, exilado, Tito de Morais nunca quebrou. Pelo contrário, esta duradoura perseguição reforçaria o seu carácter e a sua persistência na luta pela vitória dos seus ideais, vitória que viria a surgir com o 25 de Abril.

Mas a sua luta não parou aqui, era necessário assegurar que a Revolução não se desviaria duma desejada Democracia Progressista. E Tito de Morais em todas as intervenções públicas ou no interior do Partido jamais deixou de defender com vigor, intransigência e frontalidade, as suas profundas convicções.

A este propósito, recordo encontros – almoços informais de um grupo de camaradas e amigos em que participei, ao lado de Magalhães Godinho, Raul Rego, Cal Brandão, Almeida Santos, Pinto e Melo, Gustavo Soromenho, onde naturalmente as conversas não deixavam de fora a vida política nacional e partidária. Aí ouvimos e não poucas vezes, Tito de Morais comentar com severidade o que considerava erros ou desvios programáticos e doutrinários cometidos por algum dos Órgãos do Partido.

Homem de uma só fé, atento e pronto a defender os princípios por que sempre se bateu. Assim era Tito de Morais, que eu nunca deixei de admirar pela sua coragem, pela sua coerência e pela sua frontalidade.

Ele era um verdadeiro Guardião dos valores do Socialismo Democrático.

São-lhe devidas todas as homenagens e tudo deve ser feito para que a Sua memória e o seu exemplo estejam sempre presentes no espírito das actuais e das futuras gerações.

J. Ferraz de Abreu



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de MoraisManuel Tito de Morais foi, indiscutivelmente, a pedra angular na construção do Partido Socialista em Portugal.

 Mário Soares é sem dúvida a figura central do socialismo português na segunda metade do século XX. Mas a verdade é que, durante décadas, antes e depois da Acção Socialista Portuguesa (ASP), com o PS ainda na clandestinidade e mais tarde com o arranque da sua actividade em Portugal, Manuel Tito de Morais sempre representou a alma do Partido e sempre foi o esteiro organizativo principal que o fez sobreviver e afirmar-se, sobretudo nos momentos decisivos da clandestinidade.

No Brasil, em Argel ou em Roma era sempre ele que mantinha “a máquina” em funcionamento e que garantia a edição do “Portugal Socialista”, um traço de união entre os seus membros.

Mas Manuel Tito de Morais foi mais do que um pilar organizativo. Ele representou sempre a fidelidade aos valores do PS nos momentos de dúvida, quando os caminhos do futuro eram incertos. Tito de Morais era uma referência segura: “Antes quebrar que torcer”.

Alguns porventura o consideravam teimoso, eu sempre vi nele uma firme determinação e um total apego aos princípios.

A sua herança perdurará para sempre, até mesmo para aqueles que não tiveram a oportunidade de com ele conviver e por isso não sabem que é em nome dos seus valores que travam as batalhas do presente.

Para mim, enquanto for vivo, ficará sempre, não apenas a referência sólida política, mas sobretudo a memória querida do amigo.

António Guterres



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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Os Partidos Socialistas e Sociais-Democratas europeus atravessam uma crise séria visível por derrotas sucessivas em recentes eleições, pelas dificuldades que apresentam os que governam, por uma certa desorientação das suas bases sociais e eleitorais. Isto acontece cerca de dois anos depois da explosão da crise financeira, que na actual fase se manifesta pela crise do Euro e dos financiamentos aos países expostos ás dívidas públicas e privadas externas. Assim, uma crise global que não teve na origem excessos de despesa pública ou de défices, mas o aventureiríssimo e ganância irresponsáveis do capital financeiro privado, uma crise que não teve base na Europa, mas sim do outro lado do Atlântico, perante as fragilidades estruturais do processo de construção europeu e a incapacidade dos partidos de esquerda democrática em lidarem com a globalização transformou-se num processo de ataque àqueles que à primeira vista poderiam e deveriam ter emergido como seus beneficiários políticos.

Recordar o centésimo aniversário do nascimento de Tito de Morais é pois hoje mais do que nunca, relembrar a falta que nos faz, em Portugal, na Europa e no PS alguém que soube sempre aliar o realismo da sua análise, à coragem da sua postura e das suas convicções. No combate à ditadura, na edificação da democracia, na defesa de princípios e valores, Tito de Morais não se limitava a ser uma referência. Foi um activo e empenhado cidadão, um democrata sem medo, um homem da única esquerda verdadeira – a esquerda democrática.

Nos seis anos em que fui Ministro do primeiro governo do PS após dez anos de oposição, nos dois anos e meio em que fui, com muito orgulho, o Secretário Geral do Partido, a figura de Tito de Morais foi para mim sempre fonte de inspiração, base de determinação. A política não é uma mera gestão do poder ou arbitragem entre poderes fácticos, a política é ou deveria ser a mais honesta actividade de serviço e de transformação do presente e futuro dos nossos concidadãos.

Para mim, Tito de Morais continua bem vivo.

Eduardo Ferro Rodrigues



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de MoraisManuel Tito de Morais, o Socialista Evocar Tito nestes cem anos em que se comemoram sua vida e seu exemplo, se bem que uma obrigação, é, para mim, muito doloroso, porque sinto demais a falta de João (1), que estaria na linha de frente, com suas irmãs (2) e irmãos (3) a organizar estas tão justas homenagens ao pai, o ilustre cidadão, o homem de honra, o Socialista.

E digo, o Socialista e não apenas um grande socialista, porque, para mim, Manuel Tito de Morais foi o paradigma da vivência socialista, a imagem rigorosa do homem de Partido, o político sério, íntegro, inabalável na convicção de que o seu PS seria o garante -como foi – da democracia em Portugal.

Comecei a saber de Tito, ainda no exílio, no Rio de Janeiro, onde conheci João nos finais dos anos sessenta. Quando ambos, pai e filho, anos atrás haviam passado algum tempo em São Paulo, não tinha havido qualquer contacto, visto eu estar integrado no grupo da Oposição portuguesa do Rio e as articulações com São Paulo serem esporádicas.

Curiosamente, já depois do 25 de Abril, Maria Emília recordou uma carta minha dirigida a Tito, na Argélia, da qual não lembro, por certo com um motivo específico, não representando contudo qualquer linha de coordenação política, que aliás raramente aconteceu entre os grupos de Oposição no estrangeiro, na luta contra a Ditadura.

Foi com João que, alguns dias depois do 1ª de Maio florido de cravos, nos fuzis dos soldados e nas lapelas dos polícias, subi as escadas de São Pedro de Alcântara para ser apresentado a Tito, que encontrei na sua primeira sala de trabalho, modesta como todas as que ocupou no Partido Socialista. Logo na primeira conversa, ele distante, para avaliar se eu teria as qualidades necessárias, percebi na sua convocatória à luta "Não podemos perder tempo, o trabalho vai ser imenso!" o homem determinado que iria ser um pilar na construção do Partido, incansável e intransigente na defesa da liberdade e da justiça social.

João foi assim, desde esse dia, o elo permanente dum convívio com Tito, tão importante para a minha formação como militante activo do PS nos anos 70 e 80. Pai e filho constituíram um binário de enorme eficácia. Parece que estou sentado com eles na noite em que traçaram o roteiro para a conquista de Viana do Castelo para as hostes socialistas, acertando estratégias e a escolha dos camaradas que em cada lugar do Minho seriam os primeiros companheiros da empreitada, que trouxe grandes vitórias ao PS em toda aquela região, em sucessivas eleições pós 25 de Abril.

João varou o Minho com seu Citroen 2 cavalos, preparando as reuniões donde iam brotando as Secções do PS, após as intervenções galvanizadoras, as do camarada Tito, com voz firme e pausada, que doutrinava os assistentes, ávidos de democracia, e as do próprio João, em tom mais elevado, conclamando ao trabalho.

Falar de Tito no PS é também falar de Mário Soares. Quero declarar que ninguém lhe foi mais fiel do que Manuel Tito de Morais. Tito foi sempre tão frontal quanto leal na sua relação com o líder, que sempre estimou e a quem dedicou uma enorme confiança, como o timoneiro do Partido Socialista. Mário Soares nunca foi surpreendido por alguma posição divergente de Tito, sem antes ser avisado de que a iria tomar. Os mais velhos recordam bem como Tito foi o único voto público contrário ao Acordo com o CDS. E esse desassombro, essa coragem, só aumentaram o respeito que sempre mereceu.

Mas eu quero reviver Tito sobretudo como eixo fulcral de sua família, a extraordinária lição de como conseguiu reunir á sua volta as duas esposas, Maria da Conceição, a primeira, a mãe de família, Maria Emília, a segunda, a guerreira companheira de luta, as filhas, os filhos, os genros, as noras, os netos, as netas. Sua irmã Maria Palmira, seu irmão Augusto. Que admirável painel humano!

Depois de quase todos separados pelas vicissitudes da luta contra a ditadura, depois de tantos anos de dúvidas sobre se estavam bem, uns em Portugal, outros no exílio, mesmo depois das posições de confronto após o 25 de Abril por orientações políticas diversas, eis que em Lisboa, depois na Malveira da Serra, mais tarde em Terrugem – aqui lembro a festa dos 80 anos de Tito – foi possível ao chefe da clã sorrir do conforto de ter todos ao seu lado.

João, para a família, para nós os amigos também era Tito. Sempre o tratei por Tito, ele que foi um irmão de vida. Que ainda me traz lágrimas de saudade. Foi com ele e sua Lúcia (4), que eu e minha mulher Maria Ivone passámos a conviver de forma constante com a família Tito de Morais. A viver como nossos os bons e maus momentos. Destes, o abalo profundo da perda abrupta do Pereira – assim Tito o tratava – o marido de Titinha, homem bom, estimado por todos E também a imagem forte do velório do tio Augusto, rodeado toda a noite por seus alunos, numa demonstração de respeito e de dor pela partida do mestre e amigo.

Essa faceta de congregador da família, como também do Partido, foi a grande marca de Manuel Tito de Morais. Nasceu com a República. Honrou-a como poucos. Comemorar seu centenário junto com o da República é um ato de justiça.

Em nossas casas é comum ter fotos da família. Na minha casa da aldeia, além das fotos dos avós, pais e filhos, eu junto uma de Manuel Tito de Morais, sozinho, sentado numa mesa, com aquele olhar de missão a cumprir. Ele é a minha referência, como homem, político e cidadão.

(1) João Manuel Mealha Tito de Morais, grande militante do PS, no qual ocupou vários cargos de responsabilidade;
(2) Maria Carolina, a Titinha, Maria da Conceição, a Xãozinha, Teresa e Luísa, todas filhas como João, único filho do primeiro casamento de Tito, com Maria da Conceição Formosinho Mealha;
(3) Manuel, Luís e Pedro, filhos do segundo casamento de Tito com Maria Emília Adelaide Pedroso da Cunha Rego Monteiro dos Santos;
(4) Lúcia Melo Tito de Morais, a Lucinha, que João conheceu no exílio no Brasil, que o acompanhou em Portugal desde o 25 de Abril e com a qual se casou já nos anos 80.

Amândio Silva

* Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico



publicado por CCTM às 12:00
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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais O nome de Manuel Alfredo Tito de Morais faz parte não apenas do património do Partido Socialista, mas da história da Democracia em Portugal.

Comprometido politicamente com a resistência anti-fascista já desde o Movimento de Unidade Democrática em 1945, cedo foi forçado a tomar os caminhos do exílio, canalizando toda a sua energia e determinação para a luta patriótica pelo derrube da ditadura do Estado Novo. Fundou em 1964, na Suíça, a Acção Socialista Portuguesa que, mais tarde, em 1973, haveria de dar origem ao Partido Socialista. Além de fundador e principal impulsionador do PS, Manuel Alfredo Tito de Morais seria seu deputado à Assembleia Constituinte, depois Vice-Presidente da Assembleia da República e ainda Presidente do PS, entre 1986 e 1988.

O percurso pessoal de Manuel Alfredo Tito de Morais confunde-se com o caminho de Portugal, ao longo de décadas, na luta pela Liberdade e pela restauração democrática. Felizmente que ele teve a satisfação de ver esse desígnio da sua vida concretizado, a 25 de Abril de 1974. E felizmente que nós todos, portugueses, tivemos o benefício da sua contribuição devotada e experiente, por ainda muitos anos mais, ajudando-nos a superar os tremendos desafios da descolonização, das reformas económicas e políticas e da aprendizagem das liberdades e da tolerância democrática.

Nos anos 80 e 90 cruzei-me com o Eng. Tito de Morais nas mais diversas circunstâncias, de acções de rua aos salões do Palácio da Ajuda – eu jovem diplomata, ele um peso pesado da vida política nacional. Sempre me impressionou o olhar penetrante, a extrema afabilidade. E, sobretudo, o comentário atento e arguto, evidenciando combatividade inquebrável, fidelidade à ética republicana e firmeza de carácter.

Manuel Alfredo Tito de Morais faria este mês cem anos e os Socialistas e o país devem-lhe uma sentida homenagem: por não ter nunca desistido do sonho de um Portugal livre e por ter trabalhado incansavelmente, esclarecidamente, para o tornar realidade para todos nós.

Ana Gomes



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Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Manuel Alfredo Tito de Morais, que todos tratavam afectuosamente por Tito, foi um dos camaradas mais íntegros, devotados e generosos que tive o privilégio de conhecer nas lides políticas. Democrata em toda a dimensão ética do conceito e socialista em toda a compreensão redentora da ideia, foi, por isso mesmo, um humanista comprometido com o Povo e com a Pátria. Aliando o pensamento à acção, soube conjugar as atribulações diárias do combate concreto com a utopia radiosa da sociedade sem classes, justa, livre e fraterna com que sonharam os poetas e revolucionários de todos os tempos. Ele sabia que é necessário ousar o impossível para realizar o indispensável.

A ideia socialista, que lhe foi tão cara e que é a ideia mais velha do mundo, parece hoje enclausurada por um capitalismo sem açaimo, desavergonhado e voraz, que colocou impunemente o mundo à beira da catástrofe, obrigando os governos a endividar-se para evitar o colapso económico-social. E agora, que o perigo foi debelado, os especuladores financeiros, responsáveis pela crise, retomam o cenho feroz de donos do nosso destino, fixam as taxas de juros dos empréstimos a que os Estados têm de recorrer e querem obrigá-los, incluindo Portugal, a vender bens públicos para reduzir o défice que eles próprios provocaram!

É preciso romper o cerco, reabilitar o projecto socialista e derrubar as novas muralhas da Jericó. Em memória e em homenagem ao Tito – e a tantos que, como ele, sofreram a prisão e o exílio por fidelidade aos seus ideais – é preciso que o PS respeite o seu compromisso histórico e a sua matriz identitária. Se o mundo mudou e o socialismo democrático enfrenta hoje novas realidades, são ainda iguais os principais problemas que dilaceram as classes desfavorecidas, como o desemprego, a precariedade e a exclusão da cidadania. Não é o mundo que deve mudar as ideias, são as ideais que devem mudar o mundo. Por isso os socialistas têm a obrigação indeclinável de fazer tudo quanto em si caiba, atendendo à situação concreta do país, para reduzir as injustiças e encurtar as desigualdades, cujo agravamento ameaça atingir o ponto de ruptura. A construção do Estado Social, sem cedências nem tergiversações, não é apenas uma decorrência ideológica ou uma exigência constitucional, mas um imperativo categórico. Quer dizer, é uma condição irrenunciável para que o PS mereça o nome que tem e continue a ser o Partido do nosso saudoso Tito. E também para que o título deste jornal, que ele fundou ainda antes da (re)fundação do PS, continue a ser mensageiro da esperança de um “Portugal Socialista”.

António Arnaut



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Nasceu com a primeira República, foi obreiro incansável da segunda. A democracia portuguesa, é devedora para com ele de um empenho sem tréguas, sem concessões, sem desânimos… Ao longo da noite, manteve e espertou a chama, travou e renovou o combate, esforçou quem enfraquecia, tomou a iniciativa, quando elas faltaram. Congregou e exigiu de quem o acompanhou. Foi o Tito, foi o exemplo; rigoroso quanto à linha a seguir, teimoso, empreendedor.

Com a mulher que escolhera para companheira e esposa, que sempre partilhou a luta e nela o apoiou, inventou o itinerário em função das circunstâncias, e, dentro e fora de Portugal, o modo e as peripécias mais eficazes em função dessas mesmas circunstâncias. Nunca descansou na vida, porque não descansava da luta. Imaginou a comunicação entre os núcleos surgidos no estrangeiro, e os focos de resistência em Portugal. O fio condutor desta rede foi o Portugal Socialista, anunciador, no tempo certo, da mudança inelutável, mas que a tentação da inércia e da resignação fazia julgar impossível.

Desde os primeiros números foi a surpresa. O jornal viveu. Muitos artigos acertavam em cheio. E todos significavam, de uma maneira ou doutra, que o tempo da opressão estava perdendo o contexto que o permitia. O Portugal Socialista herdara uma certeza que lhe emprestara o Tito.

Na encruzilhada, em que estamos hoje, na encruzilhada da Europa a que pudemos aderir, graças a combatentes como o Tito, precisamos de uma convicção como a dele, num destino colectivo de nova dimensão.

Às falsas ideologias sucederam os grandes desequilíbrios, geradores de conflito, as primícias de uma idade post-europeia. Num rectângulo português que assimile a modernidade, numa União europeia que se demonstre em factos, nas raízes portuguesas de um mundo emergente em que deixámos sementes, ao longo da história, havemos de comparecer e competir.

Que comemorar seja partir de novo. E, tanto mais quanto à escala da Europa, mais precisamos de vontade, invenção, solidariedade. A Europa, quando nasce é para todos. Todos os Europeus enquanto Europeus. E todos os continentes, enquanto hóspedes deste mundo em transformação, com os mesmos direitos compatíveis, à vida, ao entendimento e à promoção.

António Coimbra Martins



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Manuel Alfredo Tito de Morais Homenagear este nosso fundador do Partido Socialista é pensar no que sentiriam os socialistas portugueses quando iniciaram a frente de opinião a que chamaram Acção Socialista Portuguesa, em 1964. Portugal, dominado por uma ditadura política e económica, que o empenhava numa guerra colonial sem sentido e contra os sinais que o Mundo dava desde o fim da Segunda Guerra Mundial, perseguia opositores e negava o direito à autodeterminação dos povos.

Tito de Morais, exilado em Roma, com Mário Soares e Ramos da Costa, exilado depois da Acção Militar de Beja em Paris, eram os dinamizadores da Acção Socialista e do seu "jornal", editado em Roma. Esta organização, precursora do PS chega a 1973 com 115 membros, a maioria exilados, alguns presos e outros condenados.

A importância que se tem de atribuir a Tito de Morais resulta da força das suas convicções republicanas, democráticas e socialistas. Eram poucos mas lutavam como se fossem muitos. Com grande desigualdade de meios, para enfrentar a repressão do regime salazarista, lutavam com orgulho e convicção. E legaram à nossa geração um Partido Socialista, que se tornou um grande partido nacional, popular, decisivo em todos os combates decisivos, pela liberdade, democracia, descolonização, integração europeia.

E a firme convicção que o combate à injustiça, às descriminações, contra a falta de igualdade de oportunidades, é um combate quotidiano e de sempre e para sempre.

A maior homenagem que podemos prestar a este grande socialista e republicano no ano do seu centenário é dizer que ele venceu. Deve ter pensado, em alguns momentos, para dentro de si mesmo, no tempo que a sua ideia de Liberdade demoraria a triunfar no seu país, dominado por uma ditadura fascizante. Mas Tito de Morais e os seus camaradas nunca esmoreceram. E ganharam! Já assistimos a Primeiros-Ministros e Presidentes da República do nosso Partido Socialista, eleitos por mais de três milhões de portugueses. Tito de Morais poderia ter sido um destes. Mas não foi menos importante a sua acção como deputado, Presidente da Assembleia da República e Presidente do Partido. E como cidadão. Creio que era a sua única ambição. E foi um cidadão exemplar. E um inesquecível camarada, mesmo para os mais jovens que com ele privaram. Criou-me uma vez uma dificuldade. O Engenheiro Tito de Morais tratava todos os camaradas por tu, na boa tradição socialista, que ele se esmerava em cultivar. E obrigou-me a tratá-lo, também, por tu. Desobedeci-lhe sempre.

António Costa



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Domingo, 11 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Acedi, de imediato, ao convite para escrever um depoimento por ocasião das comemorações do primeiro centenário do nascimento do meu camarada Tito de Morais. Mais tarde, reflectindo, perguntei-me o que mais poderia acrescentar ao que já se disse e se escreveu, e bem, sobre Manuel Tito de Morais.

Não acrescentarei nada, é certo, mas não quero deixar de juntar o meu reconhecimento à justa homenagem que lhe é prestada. Particularmente nos tempos que correm, sabe bem reconhecer num dos distintos membros da nossa família socialista a firmeza das suas convicções e a coerência da sua acção.

Recordar e celebrar a vida de Manuel Tito de Morais é um dever para quem acredita nos valores e nos princípios que devem guiar a vida pública.

Militava eu na Juventude Socialista quando conheci, pessoalmente, Manuel Tito de Morais. Conversámos algumas vezes. Sentia-se que estávamos na presença de uma personalidade singular para quem a lealdade e a solidariedade tinham significado.

Separados por várias gerações, encontramo-nos no espaço dos nossos valores socialistas e no combate pela qualidade da nossa República. Manuel Tito de Morais nasceu com a República e emprestou-lhe muito das suas forças e da sua dedicação.

Não o esqueceremos!

António José Seguro



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Estava eu a estudar na Suíça em 1966 quando conheci o Manuel Tito numa conferência do Comité Suíço para a Amnistia em Portugal realizada em Lausanne. Admirei logo a frontalidade com que interveio numa mesa em que estava também um representante do PCP, com o qual percebi haver uma certa tensão. Só o reencontrei sete anos mais tarde em Paris nas inolvidáveis reuniões de Agosto de 1973, na Fundação Leo-Lagrange do Partido Socialista Francês para discutir e aprovar a Declaração de Princípios e o Programa do Partido Socialista, cujo projecto o Sottomayor Cardia, o Marcelo Curto e eu trazíamos de Lisboa. Foram discussões homéricas, nas quais, para minha surpresa, o Manuel Tito, conjuntamente com o Chico Ramos da Costa, alinhou pela posição dos “radicais” de Lisboa, contra as posições bem mais moderadas do Mário Soares, do Campinos e do Bernardino Carmo Gomes. Eu, que o tinha em conta de um republicano socialista moderado vi-me várias vezes ultrapassado pela esquerda! Logo ali tive a demonstração da sua fibra, da força das suas convicções e do seu empenhamento num ideário socialista coerente e sem transigências. Atitude que manteria até ao fim da sua vida.

Voltei a abraçá-lo no seu regresso do exílio, no dia 28 de Abril, na Estação de Santa Apolónia. Foram então os tempos da organização do PS e da sua sede, que ele dirigiu com pulso firme e uma devoção sem limites, com a preciosa ajuda da Maria Emília. Fizemos várias viagens juntos pelo país, em intermináveis conversas, com sessões de esclarecimento por todo o lado. E o Tito tudo aguentava com uma enorme capacidade de resistência que pedia meças aos mais jovens de nós.

No 28 de Setembro lembro-me da surpresa com que me recebeu e me abraçou na sede de S. Pedro de Alcântara, quando lhe apareci fardado e armado, numa altura em que se receava a invasão da sede por gente da extrema-direita, e o tranquilizei sobre a evolução dos acontecimentos!

Mais tarde, no governo, testemunhei o sofrimento com que se confrontava com os nossos recuos ideológicos e/ou tácticos. Para a história ficará o seu voto isolado de vencido na célebre reunião da Comissão Nacional do P S em que se aprovou o acordo parlamentar de incidência governamental com o CDS que viabilizou o II Governo Constitucional!...

Como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, não posso também deixar de evocar aqui a sua iniciação na Maçonaria em 31 de Março de 1990 numa das mais antigas Lojas do GOL, a Loja José Estêvão, uma das poucas que resistiu à Ditadura sem abater colunas. Faria 80 anos poucos meses depois, tendo atingido o grau de Mestre em 11 de Dezembro de 1990. Não deixa de ser curioso que tivesse esperado pela fase final da sua vida para formalizar uma adesão, que vários dos seus amigos e camaradas de geração, como António Macedo e Mário Cal Brandão, tinham concretizado muito antes. Como se a adesão ao GOL fosse o coroar de toda uma carreira cívica, ele que já era há muito um “maçon sem avental”! Creio que, em certa medida, quis também desta maneira homenagear o próprio pai, o grande Almirante Tito de Morais, herói da República e grande maçon.

António Reis



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Militante da Amizade Aprendi a amar e defender a Liberdade ainda era um quase catraio, com as fraldas abandonadas havia uns tempos não tão longos como isso tudo. E com ela, aprendi também a amar e defender a Democracia. E a República e o Socialismo Democrático – e continuo a aprender. Todos os dias. Se isso não acontecer, quer dizer que não se vive, vegeta-se sem nada para amar e defender. Excepto a Pátria e a Família, bem entendido.

Pelos idos de 67/68, comecei a mandar umas coisas (com pseudónimo por mor das… coisas), para os primeiros números do Portugal Socialista. Era o tempo da ditadura, o tempo salazarento, o tempo da censura, da polícia política, do medo e da opressão. Mas também do destemor, da coragem, da dignidade e da verticalidade. Enviava esses textos entusiásticos e ingénuos, simultaneamente. Em cartas com mata-borrões dentro, de propaganda farmacêutica. Dava-me gozo – deu-me.

O destinatário era um tal Tito de Morais. Não sabia quem era, associava-o ao almirante que, quando jovem segundo tenente, participara no 5 de Outubro e que se tornara numa figura destacada da República. A morada era em Roma, e as missivas iam dirigidas a um italiano de seu nome Arigo.

Estava em Angola, como oficial miliciano e continuava sob vigilância da PIDE, (com a qual já tivera em Lisboa uns quantos encontros/desencontros e umas amolgadelas), quando comecei a remeter esses pequenos textos, – a que o destinatário, uns quantos anos mais tarde, chamaria textículos, com x, como acentuava com um sorriso por baixo do bigode e que continuo a usar... Mesmo assim, persisti em mandá-los para Roma.

Eis senão quando – dá-se o 25 de Abril. Eu ficara em Angola, tinha três filhos para criar e a escolha não se revelou de todo desacertada. Com a chegada do meu ex-professor de Direito Administrativo, Marcelo José das Neves Alves Caetano, ao poder, depois da bendita cadeira ter desempenhado cabalmente o papel que lhe fora distribuído, a PIDE rebaptizada DGS, não me incomodava muito. Uns avisos, apenas, que me iam chegando, por mor de alguns Amigos pretos (não gosto do termo negros, que considero insultuoso e o Tito também não) que eu não devia ter – mas tinha.

No dia 2 de Maio, depois de muitas lágrimas de alegria vertidas em Luanda, ao pé do aparelho de rádio, vim a Lisboa. Tinha de ser. Os malandros do MFA, tinham feito o já citado 25 de Abril nas minhas costas, sem esperarem por mim… E, apenas deixei a mala de viagem em casa de uma tia, meti-me num táxi para os Restauradores, apanhei o elevador da Glória, cheguei lá acima – e fui-me inscrever no Partido Socialista.

Dei de caras, logo, com um Amigo de sempre, o Mário Sottomayor Cardia e foi o Catanho de Menezes que recebeu a minha proposta. Ele e o Cardia apadrinharam-me. E foi então que conheci o Senhor Engenheiro Manuel Tito de Morais. Que, afinal, era filho do Senhor Almirante. Estivemos à conversa, pois se lembrou logo das minhas missivas «secretas». Era o princípio imediato de um tu que me desvaneceu e duma Amizade que duraria até à hora da sua morte. Não senhor; até hoje.

Meses depois, em Setembro, voltei a Lisboa, já com a família. E comecei à procura de emprego. Corri jornais, onde uns quantos «democratas» franziam os respectivos cenhos, porque eu era um colonialista regressado de Angola. E numa tarde, ali ao Príncipe Real, quase desmoralizado por tantas negas, o Cardia disse-me que me queria no Portugal Socialista, finalmente sem peias.

Não sei por que bulas, mas, dias passados, o Zé Leitão, o Jorge Morais, o Avelino Rodrigues, a Teresa Sena e mais dois ou três elegeram-me para chefe da Redacção. O Cardia, director, aceitou. Eu, também. Estávamos instalados (mal) nas dependências da antiga Censura no Bairro Alto… Saudosismos? Saudades. De uns bons tempos, em que nos tratávamos por tu e éramos camaradas. Hoje…

Foi no Largo do Rato que combatemos o mesmo combate nas colunas do seu e meu Portugal Socialista, o Órgão Central do PS. O Manel Tito como director, eu continuando como chefe da Redacção. Esses anos em que trabalhámos juntos, podia dizer que cimentaram a Amizade que nos unia. É uma redonda mentira. Ela já não precisava de mais argamassa. Os alicerces não cediam; nunca mais cederiam.

Esta é uma história corriqueira, na primeira pessoa (coisa que não deve ser feita, mas que está… feita) de um plural que não tinha fronteiras na fraternidade e na solidariedade que nos unia. Só mais uma alínea. O meu irmão mais novo, nunca saberei porquê, aos 33 anos deu um tiro na cabeça. Os escudos eram escassos, poucos mesmo. Foi o Manuel Tito de Morais que decidiu que a Maria Emília me desse a quantia para pagar o funeral. Sem que eu soubesse que a ideia e a decisão eram dele. Mas soube. E disso também nunca me esquecerei.

Resta acrescentar que, quando comecei a pagar o que considerava um empréstimo, o Tito, que ficara muito aborrecido por saber que eu… sabia o que ele fizera, disse-me tranquilamente – como era sempre e sempre procedia – que fosse depositando o dinheiro, porque os meus miúdos «talvez um dia destes precisem mais da massa do que eu». Era esse o Tito de Morais que tive como Amigo e me ensinou que defender os nossos ideais é das melhores coisas que podemos e devemos fazer.

Antunes Ferreira



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Sábado, 10 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Em 2010 comemoramos a implantação da República em Portugal, data maior para todos aqueles que acreditam num mundo com mais igualdade e sonham com uma sociedade em que todos, independentemente da sua raça, credo, sexo, origem, idade, ou orientação sexual, possam alcançar a sua felicidade. Ser republicano é acreditar num mundo melhor e mais livre e mais igual. Comemorar a República é, também, comemorar a democracia, único sistema político que nos pode fazer alcançar esta sociedade mais igual e justa que a República nos faz acreditar.

Mas em 2010 celebra-se, também, um outro centenário, não de um regime em que acreditamos, mas de um homem. Homem que se confunde na história do Portugal contemporâneo, com a República, com a Liberdade, com a Democracia, com a social-democracia e com o Partido Socialista. Celebramos em 2010 o centenário do nascimento de Manuel Tito de Morais, figura cimeira da luta pela democracia e da resistência anti-fascista e um dos fundadores da Acção Socialista Portuguesa, que se transformou no Partido Socialista.

Para a minha geração, nascida em liberdade, e que milita hoje na Juventude Socialista e no Partido Socialista, pessoas como Mário Soares e Tito de Morais são como lendas que conhecemos dos livros de história e cujo exemplo aprendemos a admirar e a tentar seguir. Pessoas que fazendo face a inúmeras adversidades, perseguições políticas, levados a abandonar os seus e a sua terra, aprisionados injustamente, torturados... Pessoas que tiveram de enfrentar as maiores provações por ousarem pensar pela própria cabeça e ousarem ser livres e desejarem o mesmo para os outros e mesmo assim mantiveram-se fiéis aos seus valores, aos seus princípios e que com estóica resistência, muitas vezes sem saberem se a liberdade e a democracia seria efectivamente uma realidade, mantiveram uma vontade e um empenho inquebrantável na luta pela liberdade e pela democracia.

Chegados a hoje, a minha geração, tem também desafios e provações diferentes para vencer e ultrapassar. Aprofundar a república e a democracia e continuar a lutar por mais igualdade entre todos e fazer do nosso país um país mais progressista e mais justo. Enfrentando os problemas que persistem estruturalmente no nosso país. A luta por um país com pessoas mais qualificadas, mais solidárias, a luta pela sustentabilidade energética e uma integração política mais eficaz entre os povos na Europa, são hoje tarefas primeiras dos jovens socialistas.

Para isso, contaremos sempre com a inspiração e o exemplo de Manuel Tito de Morais. Obrigado.

Duarte Cordeiro
Secretário-geral da Juventude Socialista



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Conheci o Manuel Tito de Morais em 1947, pouco depois do meu regresso do Tarrafal. Pertencia a uma tertúlia que se reunia na casa de ferias que o Manuel Rodrigues Oliveira (o fundador da “Biblioteca Cosmos”) possuía na Costa da Caparica. Conhecera o Rodrigues de Oliveira no Aljube durante a minha primeira detenção. Tornámo-nos amigos. Reencontrámo-nos naquela estância balnear. Além de nos reunirmos na sua casa, juntávamo-nos no “Café Papo-seco”, há muito tempo desaparecido.

Dessa tertúlia faziam parte várias pessoas que viriam a ser figuras públicas no período que se seguiu ao 25 de Abril, nomeadamente o próprio Tito de Morais e o Francisco Salgado Zenha. O Salgado Zenha e o Luís Saias também possuíam casa naquela vila. Por isso, ocasionalmente, juntavam-se ao grupo. Mas não eram dos frequentadores mais assíduos.

Eram todos homens e mulheres de esquerda – alguns já tinham passado pelas prisões – que se reuniam para analisar e discutir a situação política nacional e internacional. Tinham vários percursos políticos, mas todos se reclamavam do marxismo. A maioria tinha passado pelo PCP. Mas estavam inactivos. Alguns seriam eventualmente militantes daquele partido. Era o caso da Maria Emília que viria a casar com o Tito de Morais.

Líamos L’Humanité e discutíamos os romances dos escritores revolucionários franceses, designadamente Roger Martin du Gard, Romain Roland, André Gide, André Malraux, etc. Dávamos longos passeios pela praia.

O Manuel Tito de Morais foi um homem inteligente e de fortes convicções. Os feitios afáveis e fraternos tanto dele, como do Manuel Rodrigues de Oliveira, contribuíam para dar àquele círculo de amigos um ambiente de grande amizade.

Queria aqui destacar o importante papel que desempenhou nessa tertúlia uma mulher notável, Ana Isabel de Oliveira (a Bé entre os amigos). Ela é, junto com Luís Saias e a Maria Emília, viúva do Tito de Morais (além de mim próprio) das poucas pessoas desse notável grupo que ainda estão vivas.

A Ana Isabel, especialista em artes plásticas, foi uma grande amiga do Tito de Morais. É uma referência cultural da sociedade portuguesa. Continua viva e activa, apesar dos seus oitenta e cinco anos.

O meu testemunho é, para além de uma homenagem à notável figura do meu querido amigo Manuel Tito de Morais, um pequeno contributo para a história das várias formas da resistência à ditadura.

Edmundo Pedro



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais “Um Homem de Princípios“ foi o qualificativo escolhido no momento em que ele foi homenageado em vida, em Lisboa, Em presença dos mais altos dignitários da República Portuguesa, e é sem dúvida aquele que melhor corresponde à personalidade do Tito.

Pela sua postura intelectual e política de lutador pela Liberdade e Democracia no decorrer da sua vida, o Manuel Alfredo Tito de Morais angariou o respeito e o reconhecimento dos portugueses, mesmo daqueles – tal foi o meu caso – que o viram pela primeira vez fora do nosso país.

Para além da honra que foi para mim tê-lo como proponente e signatário (em nome do Secretariado Nacional do PS) do meu cartão de militante, sinto grande satisfação em poder afirmar que este Homem me inspirou sobre uma certa forma e postura política.

Encontrei-me muitas vezes com o Tito, inclusivamente em sua ou em minha casa, nomeadamente quando ele era Presidente da Assembleia da República. Devo dizer que sempre me senti impressionado com a modéstia natural que sobressaía da sua personalidade.

Não vou prolongar-me mais. Creio que era necessário render esta homenagem àquele que foi para Portugal, para o PS e para os seus amigos; um grande Homem. “UM HOMEM DE PRINCIPIOS”

Germano Lima



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Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Tito de Morais é uma figura incontornável do socialismo em Portugal. Homem de princípios, combatente contra a ditadura fascista e o colonialismo, lutador pela liberdade e pelo estabelecimento da democracia em Portugal, a sua acção política foi determinante para a criação do Partido Socialista.

Quando se comemora o centenário do nascimento de Tito de Morais e se impõe dar a conhecer a sua obra, não é demais repetir, ainda que numa brevíssima resenha, algumas notas da acção política do indomável resistente e combatente pelos ideais do socialismo.

Filho de revolucionário da instauração da República, a sua acção política iniciou-se cedo, tendo logo aos 16 anos participado numa greve de estudantes do Liceu Camões, episódio que lhe acarretou a agressão de um agente da repressão da ditadura. Foi o seu baptismo de fogo. Dir-se-ia que este incidente teve um efeito catalisador e Tito de Morais nunca mais parou na sua luta contra a opressão e pela liberdade.

O combate de Tito de Morais acarretou-lhe profundas atribulações a vários níveis. Sofreu várias prisões – entre outras, por integrar o MUD e participar nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e Humberto Delgado – demitido de empregos, não podendo exercer uma actividade profissional como engenheiro, e por fim o exílio para onde foi empurrado. E foi nesta situação que Tito de Morais, longe dos esbirros da ditadura, deu largas à sua imaginação revolucionária e desenvolveu uma acção política consequente.

Em 1964, na Suíça, Mário Soares, Tito Morais e Ramos da Costa criam a Acção Socialista Portuguesa (ASP). Dois anos mais tarde foi decidido que Tito de Morais, depois de actividade política no Brasil e na Argélia, fixasse residência em Roma. Estavam criadas condições para uma nova fase de luta contra a ditadura.

Tito de Morais começou por dar especial atenção aos contactos na área internacional, participando em conferências e congressos de prestigiados partidos e organizações europeias, dando a conhecer a situação política em Portugal e obtendo significativos apoios para a luta dos socialistas no país.

O “Portugal Socialista”, criado em 1967, foi um instrumento de luta contra o fascismo e concebido para, no quadro da ASP, ‘contribuir para a estruturação política e organizativa dos socialistas portugueses’. Este tema da organização foi uma constante das preocupações de Tito de Morais, e não foi por acaso que no primeiro número desta publicação o tema é abordado e recorrente em várias edições seguintes.

Sendo este jornal uma publicação produzida em Roma, é de imaginar as dificuldades na sua distribuição em Portugal, obstáculo suplantado pela criatividade do fundador e director do jornal, Tito de Morais, tendo sempre conseguido que as edições circulassem em Portugal.

Outro aspecto a destacar foi o contacto com os emigrantes. A ASP era um movimento preocupado com a formação política e a intervenção dos trabalhadores. Não foi por coincidência que o “Portugal Socialista” foi fundado no dia 1º de Maio – o dia do trabalhador. Tito Morais promoveu encontros com trabalhadores em vários países europeus, de que resultou a criação de Núcleos ASP e que veio a reflectir-se de forma positiva no Congresso da fundação do Partido.

Em síntese, as acções políticas de Tito de Morais no exílio, com o empenho, a dedicação e o estímulo que promoveu em toda a sua actividade para o trabalho progredir, o recrutamento de militantes e a expansão da ASP, concorreram de forma decisiva para a criação das condições necessárias que levaram à fundação do Partido Socialista.

No Congresso da fundação, organizado sob sua responsabilidade, apresentou dois documentos: Política Interna da ASP e Problemas de Organização. É certo que são documentos datados, mas onde não falta espaço para alguma presciência política quando reflecte sobre o futuro, admitindo o derrube do regime fascista pelas forças armadas. Regista-se também a sua preocupação ideológica de uma comunidade solidária e fraterna ao afirmar “… não aceitar nada que possa comprometer a construção, embora por fases sucessivas, da sociedade socialista”.

Após a Revolução redentora dos militares de Abril, Tito Morais regressou a Portugal depois de 13 longos anos no exílio, não se deslumbrou por cargos de prestígio social e colocou todo o seu empenhamento na organização do Partido Socialista. Como 1º Secretário Nacional ficou instalado na sede nacional, dirigiu múltiplas áreas políticas e formou equipas que, sob sua orientação, implementaram o Partido a nível nacional.

Tito de Morais continuou a servir o Partido Socialista exercendo vários cargos, de que se destacam, a nível institucional, o de Presidente da Assembleia da República, e a nível partidário, o de Presidente do Partido Socialista. O ex-exilado, exercendo então funções do maior prestígio nacional, continuou igual a si próprio, na sua modéstia e integridade. Manteve-se durante toda a vida como o guardião dos valores do socialismo, e encontramo-lo, em Maio de 1992, no seu “Portugal Socialista”, a escrever: “Vem-se acentuando no seio do Socialismo democrático a tendência de, por razões eleitoralistas, se adaptarem os modelos neoliberais existentes que vão tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e, para mascararem esta tendência, afirmam que se trata de uma ‘MODERNIZAÇÃO’.”

Estas breves notas, de apenas alguns aspectos relevantes da acção política de Tito de Morais, são suficientes para o colocar na galeria da História do Socialismo em Portugal, como vulto do maior destaque que não se poupou a esforços na luta contra a ditadura, para a edificação do Partido Socialista e a institucionalização da Democracia em Portugal.

Tem sido para mim uma grande honra e forte emoção participar nesta bem merecida homenagem a Tito de Morais, com quem tive o privilégio de colaborar como companheiro de exílio, como camarada e como amigo.

A melhor homenagem que devemos prestar a Tito de Morais é prosseguir na defesa dos valores do Socialismo Democrático de que ele sempre foi porta-voz.

José Neves



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Poder imaginar Tito de Morais com cem anos a partir da memória de há trinta e seis é um exercício difícil para quem com ele partilhou a energia verde do olhar e vermelha dos cravos, da solidariedade e da fraternidade que sempre distribuiu a quem com ele se cruzou.

Imaginar o País que ele queria e por quem nunca vacilou no seu querer, é colocarmo-nos num patamar de progresso social e económico ao nível das democracias sociais da Europa do norte, modelo de desenvolvimento que o Tito ambicionava para o Portugal moderno, afastado da miséria e da desigualdade contra a qual lutou e que lhe custou a diáspora, o exílio, a prisão, a tortura e o afastamento dos seus.

Imaginar a civilização e a cidadania que Manuel Tito queria, quando se bateu no Governo pelos direitos dos trabalhadores e na Assembleia da República pela dignificação pela ética, pelo trabalho, pelo esforço e pela humildade dos representantes do povo, é entender a lógica e a determinação, que alguns apelidavam de teimosia, de um pensamento claro e dirigido ao serviço público, à abnegação, à valorização da coisa política e do bem comum.

Esta Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais teve por objectivo promover um conjunto de acções que convocassem a memória para os princípios de um dos homens que, no Século XX, foi dos maiores impulsionadores do regresso de Portugal à democracia europeia e um dos lutadores para que todos os cidadãos tivessem as mesmas oportunidades e se pudessem expressar e agir em liberdade.

Para desenvolver o meu trabalho na Comissão Executiva tive de manipular documentos que não via há anos, imagens que me recolocaram no século passado, informações que já são história e a partir daí projectar, como o Tito fazia, um futuro que sendo presente fica muito aquém do futuro que ele projectava numa visão correcta do conceito de liberdade.

Tito sabia que liberdade não era uma abstracção nem um valor teórico e de retórica. Tito defendia que a Liberdade tinha de ser “para fazer” e que só há liberdade para fazer quando o saber não é ignorância, quando a cultura não é desconhecimento e quando os movimentos, a imaginação e a criatividade não estão restringidos pela miséria, pelo desemprego e pela desigualdade de oportunidades.

Recordar Tito de Morais não é um retorno ao passado mas uma projecção na sociedade que ele defendeu toda a vida com determinação frontal e é acompanhar a visão de progresso social e económico baseada nos seus conceitos de integridade intocável, por impoluta, e na honestidade do pensamento e da acção.

Foi uma honra ajudar a não deixar que o seu exemplo se perca na voraz superficialidade dos dias que correm. É um orgulho ter sido seu colaborador nos momentos de poder que a liberdade permitiu ao povo atribuir-lhe por voto secreto e universal. Poder que, sou testemunha, sempre usou em prol do bem comum e com a ambição de proporcionar a quem o investiu, retorno de justiça e de bem viver.

Esta viagem a Tito de Morais é uma passagem geracional de testemunho. É um apelo aos jovens para que compreendam que sem os valores universais dos direitos da humanidade que guiaram a sua vida, o futuro não tem sentido.

Como ele sempre fez e assinou, deixo-lhe este testemunho solidário e fraterno com um apertado e afectuoso abraço do camarada e amigo.

Luís Novaes Tito
Coordenador da Comissão Executiva das CCTM



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Foi em Angola que pela primeira vez ouvi falar de Tito Morais, da coragem com que se opôs à matança de africanos na sequência do 4 de Fevereiro, da sua posterior prisão e transferência para Lisboa. Mais tarde, estando eu no corredor do isolamento da prisão da PIDE, em Luanda, ouvi, uma noite, uma estranha emissão de rádio cujos ecos me chegavam dos gabinetes dos agentes da PIDE, perto da minha cela.

Uma voz feminina e uma voz masculina. Falavam da luta contra o fascismo e a guerra colonial, por um Portugal livre e democrático. Soube depois que era uma nova rádio da resistência, sediada em Argel, a Voz da Liberdade, emissora da Frente Patriótica de Libertação Nacional. A voz feminina era a de Stella Piteira Santos, a masculina de Tito Morais, que viria a encontrar em 1964, precisamente em Argel na Voz da Liberdade.

Impressionou-me a sua elegância, a sua serenidade, a sua firmeza de convicções. Estava acompanhado de grande parte da família de que era um patriarca. A sua casa estava sempre aberta para receber quem precisasse e à sua mesa havia sempre lugar para os exilados mais desamparados.

Era um cavalheiro e um resistente. Desde que nos conhecemos começou a falar-me da necessidade de se construir um Partido Socialista. Nessa altura, ele representava na FPLN, a Resistência Republicana e Socialista. Mas a sua convicção era que, sem um Partido Socialista, não seria possível derrubar a ditadura. Mais do que um objectivo, era quase uma obsessão. De certo modo, sozinho, ele era já o Partido Socialista, de que viria depois, com Mário Soares e Ramos da Costa, a ser um dos principais fundadores. Mas eu recordo-o assim: Temos de fazer um Partido Socialista. Ou então, na passagem do ano, em que invariavelmente ele brindava sempre da mesma maneira: Para o ano em Portugal.

Era um voluntarista. Para ele, nunca nenhum combate estava perdido. E nenhum objectivo era impossível. Era uma força que lhe vinha de dentro, da firmeza inquebrantável do seu ideal socialista e da sua irredutível oposição ao fascismo e a qualquer forma de opressão e exploração.

Partiu para Roma para abrir caminho à formação do seu Partido Socialista. Aí, com a solidariedade dos socialistas italianos e a colaboração dos seus camaradas, começou a publicar o Portugal Socialista, que de Roma vinha para o interior do país e começou a funcionar como um elo de ligação e um factor de organização.

Estivemos juntos em Roma, na Conferência Europeia dos resistentes antifascistas.

Mas foi depois do 25 de Abril que a nossa amizade se estreitou ainda mais e se tornou indestrutível. Foi em grande parte por ele, pelo António Arnaut e pelo meu cunhado António Portugal que acabei por ingressar no Partido Socialista, que ele, como eu, escrevia sempre por extenso.

Consideravam-no teimoso. E era. Mas por fidelidade ao seu entendimento do que devia ser o Partido Socialista. Se estivesse convencido da sua razão, ninguém o conseguia demover.

Recordo três episódios em que, como em muitos outros, estivemos lado a lado.

Suspendemos o mandato de deputado por 15 dias, para não votarmos a primeira revisão constitucional, como protesto pelo facto de não se respeitar uma negociação feita com o MFA no sentido de, antes da votação, ser prestada homenagem à coerência com que os militares de Abril cumpriram a promessa de devolver o poder aos representantes do povo democraticamente eleitos.

Num congresso do Partido Socialista, em que se apresentou uma proposta de revisão do Programa do partido, feita à pressa e sem consistência, nós apresentámos uma moção contra, assinada por nós os dois.

Defendi a moção na tribuna e o apoio manifestado pelos congressistas tornou claro que a nossa moção seria vencedora. Mário Soares considerou que tal seria desastroso para a preservação do governo do Bloco Central e disse-nos que se a nossa moção fosse aprovada, ele tinha que se demitir de Secretário-Geral. E então o Tito retirou a moção. Por muito grandes que pudessem ser as suas divergências pontuais com Mário Soares, ele considerava, como eu também, que, naquele tempo, a presença de Mário Soares à frente do Partido Socialista era indispensável, não só para o partido, como para a própria consolidação da democracia.

A certa altura houve uma aproximação com aquilo que considerávamos a “ala tecnocrática”. Com razão ou sem ela, fomos contra. Tito, Jaime Gama, José Luís Nunes, Carlos César, Jorge Campinos, alguns outros. Reunião terrível, na Cooperativa dos Pedreiros, no Porto. Saímos do Secretariado. Mais tarde o novo Secretariado entraria em conflito com Mário Soares quando este retirou o apoio a Eanes e se auto suspendeu de Secretário-Geral. Tito veio ter comigo e com Almeida Santos e foi peremptório: temos de apoiar o Mário. E apoiámos, nós três e poucos mais. Pelas mesmas razões de sempre: a autonomia política do Partido.

Podia contar muitos mais episódios de divergências e convergências. Mas o que fica de Tito é o retrato de um homem de um só rosto e um só parecer.

Um socialista praticante. Um resistente. Um homem que viveu sempre do lado esquerdo da vida. Nas ideias e na prática. E também na amizade. Sem nunca deixar de ser um gentleman.

Manuel Alegre



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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais O centenário do nascimento do nosso querido Tito, em Lisboa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, a 28 de Junho de 1910, três meses antes da Revolução que implantou a República, identifica uma data que tem de ser comemorada, pela dimensão do Homem, cujo nome e obra, se pretende, possam continuar bem vivas em todos nós.

Para quem com ele conviveu, com maior ou menor proximidade, recordamos a homem que nunca recuou perante desafios, reflectindo uma solidariedade que sempre exerceu, a Liberdade pela qual combatia e a enorme coragem que o caracterizava.

A sua memória não pode perder-se. É nosso dever dá-lo a conhecer.

Fui solicitado a produzir para “O República” em Novembro de 2001, um testemunho que referisse o facto de ter tido lugar a atribuição, pela CML, do nome Tito de Morais a uma Rua na Cidade na Freguesia da Charneca. Referi a sua localização num Bairro Novo – “que fora construído sobre coisas doridas que se tinham passado na nossa Lisboa” e, dirigindo-me ao Tito, acrescentei que aquela homenagem toponímica, passados muitos anos, levaria os miúdos que por lá brincavam a interrogar-se sobre quem fora o Tito de Morais?

E assim seria sempre, e sempre alguém poderia responder que fora “um Homem grande” que deixara nesta cidade a “riqueza que construira, a imagem de simplicidade com que vivera e a liberdade que consquistara”.

Acrescentei, que aqueles miúdos iriam esquecer, mas que outros iriam de novo perguntar quem fora o Tito de Morais e, sempre que tal acontecesse, ele iria viver de novo, e os homens no futuro só se iriam lembrar vagamente que estivera entre nós um Homem-bom, que nos deixara no fim do século XX, mas, naquela rua, ficaria um sentido e uma intenção.

A História, essa, conclui, iria fluir despreocupadamente, desligada de tantos que tornaram a vida mais fácil e que só aqui, e ali, a toponímia recordaria. E um dia, de novo, um miúdo se interrogaria sobre quem fora o Tito de Morais.

Esta comemoração do centenário do seu nascimento é por isso um acto necessário, um testemunho de reavivarmos um passado. É um acto de justiça e de reconhecimento.

Conheci o Tito, teria eu os meus treze anos, passava as férias em Almoçageme, tornara-me amigo dos seus, então, cinco filhos. Era um homem impressionantemente dotado da capacidade rara de nos avaliar, adivinhando as nossas intenções. Era o ídolo daquela juventude, e todos nós sentíamos o seu sentido de fraternidade e a imensa capacidade de conquistar a admiração e amizade, apesar de então só vagamente termos conhecimento do que representava, da sua estatura política, do sacrifício do seu passado recente. Mantive sempre uma admiração profunda pelo Homem e fui conhecendo o Político pouco a pouco.

Mais tarde, muito mais tarde, o Tito, depois de muitas vezes ter sido obrigado a abandonar as suas funções, acabou por se fixar em Angola onde exerceu, como profissional, a sua actividade. De Angola partiu para Portugal em 1961, com residência fixa em Lisboa. Partiu depois para França, autorizado pela PIDE. Mas, impossibilitado de conseguir emprego, acabou por ir para o Brasil e, em 1963, instalou-se em Argel onde participou na fundação da Rádio Voz da Liberdade. Em 1964 fundou em Genebra, na qualidade de dirigente da Junta de Salvação Nacional, (Órgão executivo da FPLN), a Acção Socialista Portuguesa com Mário Soares e Ramos Costa.

No dia 25 de Abril estava em Bona, tendo voltado a Portugal no comboio que partiu de Paris na companhia do Mário Soares e do Ramos Costa.

Os filhos, entretanto, foram pouco a pouco abandonando o País e, finalmente, voltaram no 25 de Abril. Retomamos os contactos e, tendo o Tito aceite exercer funções no 6ºGoverno Provisório, aceitei imediatamente ser o seu Chefe de Gabinete e dediquei-me, com enorme satisfação, a servir directamente um Homem que continuou a dedicar a Portugal a sua imensa capacidade, ajudando a ultrapassar um período difícil da sua governação e suscitando dos seus pares uma admiração que importa ser salientada.

Exerceu nessa qualidade com uma coragem, competência e enorme imaginação, num período da nossa História em que era necessário travar o desemprego, uma função, em que a mudança de procedimentos na política de emprego deixou uma marca assinalável. Foi por isso e também, como Governante, um Homem que se soube impor, e o resultado foi indiscutivelmente de uma qualidade que desejaria hoje ver exercitada, agora que, como então, há problemas que têm de ser ultrapassados.

Mas o desempenho dos cargos que o levaram o Tito de Morais até segunda figura da hierarquia dos Órgãos de Soberania em Portugal, não constituíram um percurso de reconhecimento da sua dedicação à coisa Pública, por todos reconhecida, foram antes o reconhecimento da qualidade do desempenho de um Homem que sabia compreender e gerir as situações, que intuía o que fazer e quando o fazer e, principalmente, que se dedicava e amava a sua Terra e queria responder aos problemas sem afastar as gentes.

Compreendi melhor quando, no Cemitério de Cascais lhe foi recentemente prestada uma homenagem e o Almeida Santos, num curto improviso concluiu, que não foram os políticos que não acarinharam o Tito quanto o merecia, o Tito, afirmou, seria aquilo que quisesse e fora sempre aquilo que escolheu ser. Era um Homem livre, que quis, durante toda a sua vida, ser livre e fraterno.

Obrigado Tito. Talvez nos vejamos dentro de algum tempo.

Manuel van Hoof Ribeiro



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Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Relembrar o meu Pai é para mim simultaneamente relembrar a sua personalidade e o seu pensamento político.

Homem corajoso e determinado que se entregava, de alma e coração, às causas em que acreditava, homem que desde a sua juventude sentiu o peso da ditadura e das atrocidades cometidas por esta.

Desde sempre tivemos uma ligação de grande cumplicidade. Bastava um olhar. Tudo ficava iluminado. Emanava uma força inesgotável que abria caminhos e ao mesmo tempo nos confortava.

A instauração da democracia e do socialismo em Portugal, a construção de um país melhor, mais justo e fraterno foram as bandeiras por que sempre lutou.

Nunca vacilou, nunca perdeu a esperança, mesmo nas ocasiões mais difíceis que atravessaram a sua vida.

E muitas houve. Preso três vezes, obrigado a ir trabalhar para Angola em resultado das suas opções políticas, que o levaram igualmente mais tarde ao exílio, o meu Pai teve de deixar para trás os pais e os filhos.

Esta separação forçada da sua família e da sua terra nunca apagou nele o amor que lhes tinha, mais, deu-lhe força redobrada para lutar.

O 25 de Abril de 1974 foi o dia da glória. Os capitães de Abril concretizaram os anseios dos portugueses, deram forma ao combate que milhares de democratas, anti-fascistas e anti-colonialistas travaram durante quase cinco décadas.

Para o meu Pai foi também o reagrupamento familiar. Juntou-se aos filhos, aos netos e depois aos bisnetos, alguns dos quais chegou ainda a conhecer.

Foi um “verdadeiro chefe de clã”, agregando todos à sua volta, com o seu humanismo, marca indelével da sua personalidade.

“ (...) eu sei que dei tudo o que me foi possível para se formar em Portugal um Partido Socialista e para se derrotar o fascismo. Coloquei como prioritário na minha luta política, este objectivo”, diria o meu Pai no discurso que proferiu na Homenagem Nacional que lhe prestaram em 30 de Novembro de 1996.

Na ocasião, recusou o carácter pessoal da homenagem e assumiu-a como tendo sido escolhido como símbolo da luta travada e a travar pela liberdade, pelos direitos humanos, pela construção de uma sociedade socialista.

Esta modéstia e desprendimento eram também uma característica sua, que muito orgulho nos dava. E é um grande orgulho para mim ser sua filha.

O meu Pai foi um homem fiel à República, à Democracia e ao Socialismo até ao fim da sua vida. Quando se avizinhavam coligações com a direita, a sua palavra fazia-se sempre ouvir.

No discurso já citado pode ler-se que “é necessário fortalecer o campo de acção que passa pelo fortalecimento do Partido e pela escolha dos aliados”. “Estes só os poderemos encontrar na esquerda, que embora tenha de ser renovada tem princípios intocáveis”, afirmou na ocasião.

Manuel Tito de Morais foi um altruísta. Manuel Tito de Morais foi um democrata.

Maria Carolina Tito de Morais
Presidente da Comissão Executiva das CCTM



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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Mantém-se na nossa memória, como carácter firme e um homem de princípios inabaláveis. Manuel Tito de Morais nunca vacilou perante os obstáculos que as escolhas da sua vida lhe colocaram pela frente. Nascido quando nasceu a República, juntou ao ideal republicano a vontade de liberdade, igualdade e solidariedade, ao lutar, onde estivesse, pelo socialismo democrático. Não se importou com os rendimentos ou com as comodidades do viver, com a segurança de um emprego ou com a doce convivência da família, quando era preciso partir.

Sempre admirei Tito de Morais, mesmo antes de ter tido a honra de com ele trabalhar na Assembleia da República. A sua dimensão política impressionante fez dele um ícone da democracia que ajudou a conquistar e a manter para os portugueses. Ele é, justamente, um vulto entre aqueles “que por obras valorosa se vão da lei da morte libertando”, como disse o Poeta.

Tive, por isso, imensa sorte em ser por ele convidada para exercer as funções de secretária-geral do nosso Parlamento. Esse contacto mais estreito não só com o político mas com a pessoa que Manuel Tito de Morais era, permite-me realçar, com amizade e admiração, uma faceta mais pessoal do grande homem. Quase contraditório com o que foi a saga da sua vida, as dificuldades que, a qualquer, um teriam abatido ou azedado o temperamento, em Tito de Morais, tal como o conheci, não apagaram a generosidade não diminuíram a complacência, nem obscureceram uma peculiar elegância de atitude que lhe veio, certamente do berço.

Já admirava Tito de Morais, antes de 1983, ano que foi eleito Presidente da Assembleia da República e me convidou para trabalhar neste órgão de soberania.

Num tempo em que as mulheres tinham ainda acesso restrito e grandes dificuldades em aceder a postos de direcção, marcadamente masculinos, segundo as mentalidades então vigentes, foi algo de muito inovador, direi mesmo, corajoso, nomear uma mulher para aquelas funções. Não admira que tal facto tivesse causado surpresa no nosso Parlamento e, igualmente, nos círculos parlamentares internacionais pois, até aquele ano, nunca nenhuma mulher fora nomeada como secretária-geral parlamentar.

Ao comemorarmos o centenário do nascimento de Tito de Morais não quis deixar de assinalar este pequeno mas significativo episódio. É justo que a sua história pessoal registe em que variados pontos Tito de Morais marcou a diferença. Na questão da igualdade de género, ele foi, mais uma vez, coerente com os seus princípios, demonstrando em actos concretos o que valia, para ele, o conceito de democracia e de igualdade.

Como Presidente, desempenhou um papel de reformador da maior importância, nada escapando ao seu olhar, preocupado e ao seu desejo de dignificar a Assembleia. Vivia-se ainda um período um tanto conturbado. Pouca preocupação tinha existido, até então, com o aspecto interior e exterior da casa parlamentar. Por isso, no que à Administração dizia respeito, Tito de Morais, sem tempo a perder, tudo começou a restaurar e reformar. Nem os tectos e soalhos, nem os móveis e cortinados, nem os uniformes do pessoal, escaparam à sua preocupação. Foram também iniciados novos estudos para a reestruturação dos serviços e realizadas diligências para o alargamento dos espaços, visando criar mais comodidade ao trabalho dos Parlamentares.

No curto tempo que durou o seu mandato, Manuel Alfredo Tito de Morais prestou, sem dúvida um relevante serviço ao Parlamento e ao seu País.

Maria do Carmo Romão



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Tito de Morais - 1974
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