Terça-feira, 30 de Março de 2010

Carta InglaterraQuem conviveu com Tito de Morais não pode deixar de o recordar com saudade. Foram anos de camaradagem e conivência política que jamais esquecerei.

Aderi à Acção Socialista Portuguesa (ASP) em fins de1969, quando já exilado em Londres, circunstância que veio proporcionar-me frequentes contactos com o camarada Tito de Morais, dadas as suas deslocações a essa cidade em trabalho de política internacional e, também, devido às funções inerentes ao cargo de Secretário de Organização da ASP. As visitas de Tito de Morais davam origem a prolongadas conversas de orientação política, conselhos sobre o trabalho a desenvolver no Núcleo de Londres da ASP, depois PS, e também troca de opiniões sobre o trabalho sindical junto dos emigrantes portugueses iniciado com a colaboração de militante da ASP.

Naturalmente que toda esta convivência política decorria em ambiente de grande camaradagem e cordialidade, o que é absolutamente natural entre companheiros que comungam dos mesmos ideais. Mas quando surgiam divergências de opinião, mesmo no fervor da discussão, era nessa ocasião que se tornava mais evidente a feição socialista de Tito de Morais proceder, como o demonstra no caso que relato:

Tinham surgido problemas no funcionamento do Núcleo e desacordo quanto a um aspecto da minha participação como secretário da secção sindical, o que lhe fora exposto num longo relatório. A reacção de Tito, numa carta de 6 páginas, chamando à atenção para vários aspectos e dando indicações claras e com convicção, terminava assim:

"Não temos felizmente nem guias nem chefes, mas temos a enorme fortuna de possuir os valores de auto disciplina, da independência de juízo na fidelidade aos princípios que defendemos, da auto-critica e da consciência das nossas responsabilidades. Para terminar lembro-lhe que depende quase exclusivamente de si o resolver todos os problemas ai existentes: o das suas relações dentro do Núcleo e os sindicais, na linha política da ASP. Com as fraternais saudações socialistas envia-lhe um apertado e afectuoso abraço o camarada e amigo

Tito Morais”

Era com esta afectuosidade que chegavam a bom termo os nossos desacertos.

Eu na altura não passava de um neófito na política e foi com Tito de Morais que muito aprendi na senda do Socialismo.

Obrigado por tudo, Camarada Tito!

Imagem do arquivo de José Neves - aqui pode ver maior



publicado por Jose Neves às 02:40
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Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Argel-Tito de Morais, Mª Emília, Nuno e PedroPersonalidades anti-fascistas, movimentos democráticos e o Partido Comunista Português decidiram criar, numa Convenção realizada em Roma em 1963, a Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN). Por proposta de Tito de Morais a sede da FPLN seria na Argélia, país recentemente independente e solidário com os movimentos de libertação – nomeadamente das colónias portuguesas – e a luta dos povos oprimidos. Pedro Ramos de Almeida foi, entre 1964 e 1969, o representante do PCP na FPLN. Seguiu pois para Argel com a sua família: eu e o nosso filho Nuno, de nove meses de idade.

Sem viver com o meu Pai desde os nove anos – embora passasse algumas férias com ele -, a possibilidade de podermos conviver, dele conhecer o meu filho e de estarmos na mesma luta encheu-me de alegria. Posso dizer, com verdade, que foi em Argel que o conheci melhor.

E gostei muito daquele Pai que me aparecia aos 22 anos de idade. Todo ele era ternura e solidariedade, mas ao mesmo tempo um líder, um combatente sem tréguas pela liberdade.

As nossas casas ficavam relativamente longe, mas todas as semanas íamos jantar a casa dele e aprofundar laços com os meus jovens irmãos Manuel e Luís e mais tarde com o Pedro, que nasceu em Argel.

O Pedro tem menos um ano do que o meu filho, seu sobrinho, e cheio de pressa nasceu algumas semanas antes do tempo. O meu Pai apareceu aflito em minha casa a dizer-me que a Maria Emília tinha ido para a maternidade. Numa correria, fomos os dois comprar o “enxoval” do bebé e levá-lo à maternidade. Fui eu que o vesti, lhe dei o nome e fiquei sendo sua madrinha.

Todos os dias estávamos juntos pois ele era dirigente da FPLN e eu trabalhava na sede. Eu era também locutora da “Voz da Liberdade”, a rádio da FPLN, e o meu Pai esteve na origem da sua fundação e foi o primeiro responsável por ela.

A rádio emitia duas vezes por semana, às quartas e sábados, e mais tarde também às segundas, e o meu Pai era um dos redactores. Lembro-me ainda de alguns dos seus textos – bem escritos, com uma linguagem simples e precisa.

A importância da rádio na luta anti-fascista deve ser sublinhada. Muito ouvida em Portugal, a par da Rádio Portugal Livre, dava uma informação livre de censura e mobilizava os democratas portugueses contra a ditadura e a guerra colonial. Tinha uma rubrica muito concorrida: o Correio da Voz da Liberdade. Dezenas de pessoas do interior e do exterior enviavam semanalmente cartas para o “13 rue Auber” e era normalmente Piteira Santos quem respondia. Fazia-o calorosamente e com um enorme prazer. Havia ainda outras publicações da imprensa escrita largamente difundidas. O trabalho da FPLN também foi essencial. Desde o MUD que não existia uma organização unitária tão forte, embora esta tivesse a sua actividade principal no exterior. Os membros da Junta Revolucionária Portuguesa (o órgão directivo da FPLN) deslocavam-se a vários países europeus e mesmo americanos, onde criavam núcleos de democratas aderentes, e chegaram a vir clandestinamente a Portugal. Participaram e/ou organizaram conferências internacionais sobre a situação em Portugal e aprofundaram laços com os movimentos de libertação nacional das colónias que também tinham escritórios em Argel e com os seus principais líderes.

As autoridades argelinas relacionavam-se com a FPLN considerando que esta representava o povo português e convidavam os seus dirigentes para assistir a comemorações e recepções. As representações diplomáticas acreditadas, nomeadamente as dos países socialistas, tomavam posição idêntica. Numa ocasião, em 1965, a Embaixada de Cuba convidou os responsáveis da Junta Revolucionária para uma recepção destinada a assinalar um momento muito especial: a presença de Che Guevara em Argel, que vinha participar numa conferência.

Argel foi um chão amigo para os exilados e para os desertores e refractários da guerra colonial.

Quando, em 1963, o meu Pai se instalou em Argel, mobilou a sua casa com “móveis” feitos por ele. Com a madeira dos caixotes dos seus livros, que trouxera do Brasil, construiu uma mesa e vários bancos. As camas, inicialmente, resumiam-se a colchões no chão. Era um óptimo “bricoleur” e as suas habilidades estendiam-se à cozinha e ao “corte e costura”.

Mais tarde, com o trabalho do casal – o meu Pai era engenheiro electrotécnico nos Hospitais de Argel - foi comprando outra mobília e a sua casa tinha sempre as portas abertas para todos os portugueses refugiados.

Todas as festas, como o Natal ou a passagem do Ano, eram feitas em sua casa. Sabia receber como ninguém e com ele o exílio ficava menos triste.

As nossas longas conversas, que muitas vezes duravam horas, só se repetiriam depois do 25 de Abril, quando finalmente tivemos o direito de viver em Portugal. Voltei a ter Pai aos 32 anos.

Tenho de confessar que em 75 “brigámos” bastante pelos nossos pontos de vista, nem sempre convergentes, mas isso nunca obstaculizou a nossa infinita amizade.

A separação derradeira foi em 1999, com a sua morte. Mas o seu exemplo de Homem íntegro e carinhoso, democrata e combatente pela liberdade contínua ao meu lado.

Imagem: Manuel Tito de Morais com o neto Nuno Ramos de Almeida ao colo e, ao colo de Maria Emília, o seu filho Pedro Tito de Morais



publicado por Luisa Tito de Morais às 15:20
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Boletim FPLN - Humberto Delgado

Boletim da FPLN - Maio de 1965
Notícia do assassinato de Humberto Delgado

(Clique aqui para ver maior)



publicado por CCTM às 01:44
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Raimundo Narciso - Avante 1973

" - Então qual é o teu blog? – interroguei o Jaime Mendes – Que ainda não tinha, faltava escolher o nome. Recentemente anunciou-me, naquela feira de "amizades” e bolsa de encontros que é o Facebook, que já velejava em velocidade de cruzeiro.

Um dos seus primeiros posts foi dedicado ao sogro, Tito de Morais, um dirigente histórico fundador do PS, político muito respeitado e carismático representante da ala esquerda do Partido Socialista. A leitura fez-me recuar ao ano de 1973, ia eu no meu oitavo ano a viver na clandestinidade e na sexta casa clandestina, então em Odivelas. A Leonor já ia com três anos de idade (e de clandestinidade mas sem dar por isso) a Maria esperava o José para Março do ano seguinte.

O post do Jaime conduziu-me ao histórico e clandestino primeiro e único (antes do "25 de Abril") encontro de delegações do Conselho Directivo do Partido Socialista, recém-constituído e do Comité Central do PCP, em Paris. O "Comunicado Comum" saído da reunião e publicado no Avante clandestino de Outubro de 1973 (na imagem) refere como data o mês de Setembro mas não oferece, por causa da PIDE, mais nenhuns dados, nem o dia, nem o país ou a cidade onde teve lugar ou a composição das delegações.

Sei que a reunião foi em Paris porque participei nela e lembro-me bem de que ocorreu na manhã de 12 de Setembro de 1973, como explicarei."

Raimundo Narciso

Continue a ler em Caminhos da Memória.

Imagem de: Raimundo Narciso (fazer clik para ler a imagem)



publicado por CCTM às 00:01
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Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

José Neves _ Fundador do PS(...) "E se estou a recordá-los é tão só para situar o clima favorável ao Governo de Salazar que existia na Europa anterior ao exílio dos Líderes da ASP.

O primeiro a ser empurrado para o exílio foi Ramos da Costa, na sequência do seu envolvimento no golpe de Beja. Instalou-se em Paris, no ano de 1961, onde começou a desenvolver uma intensa actividade de publicista em jornais e revistas, participando em reuniões internacionais, denunciando a situação que se vivia em Portugal.

Em 1966 foi a vez de Tito de Morais mudar-se para Roma, vindo da Argélia, depois de ter passado pelo Brasil onde foi parar após ter sido expulso de Angola. E por todos estes países Tito de Morais fundou movimentos de luta contra o regime fascista. Esta mudança de Tito Morais para Roma foi uma decisão política para representar a ASP em Itália com o apoio do Partido Socialista Italiano. E foi aqui que Tito de Morais começou também a desenvolver contactos internacionais que se revelaram de enorme importância.

Com Ramos da Costa, em Paris, e Tito de Morais, em Roma, a ASP fazia-se representar nos Congressos de prestigiados Partidos Europeus e em conferências internacionais. As arbitrariedades da ditadura e do colonialismo eram expostas e as manifestações de solidariedade para com os socialistas e os democratas em Portugal decorriam espontaneamente. Deputados socialistas em Itália levantam questões relacionadas com a falta dos direitos humanos em Portugal e manifestam no Parlamento solidariedade para com Mário Soares quando estava deportado em S. Tomé. A ASP estabelece relações com todos os Partidos filiados na Internacional Socialista (I.S.), criando laços de fraternidade com, além do P.S. de Itália, o S.P.D. na Alemanha, os Trabalhistas na Grã-Bretanha, os Sociais-democratas na Suécia, os Socialistas em França. Enfim, Tito de Morais e Ramos da Costa desdobram-se nestas relações internacionais e promovendo contactos directos com os socialistas em Portugal. Por ocasião da farsa eleitoral de 1969 uma delegação de I.S. esteve em Portugal, constituída por personalidades políticas de destaque. Todos os membros da delegação acabaram por serem expulsos pela polícia política, a PIDE, que convém que ninguém se esqueça que existiu. Assim o regime fascista foi mais uma vez denunciado e estava irremediavelmente desmascarado. Agora já se sabia na Europa que em Portugal existiam democratas, socialistas e comunistas cujos elementares direitos eram espezinhados por um regime fascista.

Assim, quando Mário Soares, por sua vez, teve que optar pelo exílio, já havia um longo trabalho empreendido na área internacional por Ramos da Costa e Tito de Morais."(...)

Museu República e Resistência, em 25 de Outubro de 1996
(ler toda a intervenção)



publicado por Jose Neves às 01:01
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Foto de Gabriel Brustoloni (1970)Por ocasião do 10° aniversário do falecimento de Tito de Morais, antigo militante e co-fundador do PS como também Presidente da Assembleia da República, tenho o prazer de remeter a esta Comissão as anexas fotos que remontam à Primavera do ano de 1970.

As fotos em questão foram tiradas no extremo norte da província de Viterbo, quando do exílio italiano do destacado anti-salazarista português, com quem privei, já em sua residência romana de Via Catania, momentos de agradável convívio, acompanhados de interessantes trocas de impressões sobre a situação portuguesa daquela época.

Gabriel Brustoloni
Roma,Itália

(recebido por email em 2009.12.14)



publicado por CCTM às 02:21
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

A festa do fim do ano de 1973 reuniu em Lausana: Mário Soares, Maria Barroso, Manuel Alfredo Tito de Morais, Maria Emília, além da família anfitriã Teresa, Jaime e os seus filhos Carlos e Rita.

À época, Mário Soares e Tito de Morais eram dirigentes socialistas no exílio que tinham assinado, dias antes, provavelmente em Paris, um manifesto com a Direcção do PC, que apontava no caminho de uma unidade de esquerda tipo Frente Popular. O Partido Socialista Português já tinha sido constituído, em Abril desse ano, na cidade alemã de Bad Munstereifel.

Como em todas as passagens de ano era obrigatório: a abertura da garrafa de espumante, as passas e o bolo. Os votos e os desejos tinham os olhos postos no regresso a Portugal e no derrube da Ditadura. As ilusões da "primavera Marcelista” tinham chegado ao fim.

“Para o ano em Portugal”, voto repetido ao longo de tantos anos de exílio, tornou-se uma realidade.

É hoje, com saudades, que relembro esse dia e muitos outros mais passados no exílio e depois em Portugal, no convívio com o meu sogro, Manuel Alfredo Tito de Morais.

Recebido em sua casa, sempre como filho, também sempre o considerei como um segundo Pai, e é difícil falar, com imparcialidade, de um Pai.

Apesar de eu ter militado num Partido diferente do dele; recebi o seu exemplo como a herança que nos deixou a mim e à minha família, de verticalidade, honestidade, de lutador incansável pela Justiça, de defensor dos mais fracos.

Tito de Morais, nascido em berço de ouro, recebeu, como muitos naquela época, os ideais da República: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como primeira refeição.

Atrevo-me a dizer que foi sempre um socialista de esquerda, certamente mais influenciado pelos ideais da revolução francesa do que da revolução bolchevique, mas não era um social-democrata.

Na política ficou como o grande obreiro do partido socialista, o militante por excelência, o que punha o Partido e o combate em primeiro lugar, muitas vezes em detrimento do convívio familiar de que tanto gostava.

Nos tempos que correm distingo como um dos principais traços do seu carácter, a honestidade e diria mesmo o desinteresse completo pelo dinheiro e os bens supérfluos desta sociedade de consumo.

Pertencia àqueles homens que apesar de desempenharem altos cargos de Estado, viajavam de comboio em 2ª classe, porque não existia 3ª, que preferiam um restaurante popular, onde se comesse o bom “cozido à portuguesa”, em vez de um “requintado” que estivesse na moda.

Para o PS e para toda a esquerda portuguesa, ele deve ser o exemplo a seguir, de estar na política servindo o país, como o fez durante toda a sua longa vida.



publicado por Jaime Mendes às 19:37
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Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Grupo Argel 

Grupo Argel na passagem do ano de 1965 (1965.12.31)

 

Da esquerda para a direita:

à frente – Duartina Barbosa, Silva, Ema Silva, Manuel Alegre, Isabel Alegre, ?, ?, Banza (a menina), António Barbosa, Manuel Tito de Morais.

no meio – ???, o último à direita é o Manel filho.

atrás, em pé – Luís Bernardino, Mário Pádua, Luísa Tito de Morais, Pedro Ramos de Almeida, Nuno (o menino), João Ruela, Teresa Ruela, Ruela, Isabel Landeiro, Jorge Landeiro.



publicado por CCTM às 23:56
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Tito de Morais - 1974
CCTM
Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

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