Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Tito de Morais é uma figura incontornável do socialismo em Portugal. Homem de princípios, combatente contra a ditadura fascista e o colonialismo, lutador pela liberdade e pelo estabelecimento da democracia em Portugal, a sua acção política foi determinante para a criação do Partido Socialista.

Quando se comemora o centenário do nascimento de Tito de Morais e se impõe dar a conhecer a sua obra, não é demais repetir, ainda que numa brevíssima resenha, algumas notas da acção política do indomável resistente e combatente pelos ideais do socialismo.

Filho de revolucionário da instauração da República, a sua acção política iniciou-se cedo, tendo logo aos 16 anos participado numa greve de estudantes do Liceu Camões, episódio que lhe acarretou a agressão de um agente da repressão da ditadura. Foi o seu baptismo de fogo. Dir-se-ia que este incidente teve um efeito catalisador e Tito de Morais nunca mais parou na sua luta contra a opressão e pela liberdade.

O combate de Tito de Morais acarretou-lhe profundas atribulações a vários níveis. Sofreu várias prisões – entre outras, por integrar o MUD e participar nas campanhas eleitorais de Norton de Matos e Humberto Delgado – demitido de empregos, não podendo exercer uma actividade profissional como engenheiro, e por fim o exílio para onde foi empurrado. E foi nesta situação que Tito de Morais, longe dos esbirros da ditadura, deu largas à sua imaginação revolucionária e desenvolveu uma acção política consequente.

Em 1964, na Suíça, Mário Soares, Tito Morais e Ramos da Costa criam a Acção Socialista Portuguesa (ASP). Dois anos mais tarde foi decidido que Tito de Morais, depois de actividade política no Brasil e na Argélia, fixasse residência em Roma. Estavam criadas condições para uma nova fase de luta contra a ditadura.

Tito de Morais começou por dar especial atenção aos contactos na área internacional, participando em conferências e congressos de prestigiados partidos e organizações europeias, dando a conhecer a situação política em Portugal e obtendo significativos apoios para a luta dos socialistas no país.

O “Portugal Socialista”, criado em 1967, foi um instrumento de luta contra o fascismo e concebido para, no quadro da ASP, ‘contribuir para a estruturação política e organizativa dos socialistas portugueses’. Este tema da organização foi uma constante das preocupações de Tito de Morais, e não foi por acaso que no primeiro número desta publicação o tema é abordado e recorrente em várias edições seguintes.

Sendo este jornal uma publicação produzida em Roma, é de imaginar as dificuldades na sua distribuição em Portugal, obstáculo suplantado pela criatividade do fundador e director do jornal, Tito de Morais, tendo sempre conseguido que as edições circulassem em Portugal.

Outro aspecto a destacar foi o contacto com os emigrantes. A ASP era um movimento preocupado com a formação política e a intervenção dos trabalhadores. Não foi por coincidência que o “Portugal Socialista” foi fundado no dia 1º de Maio – o dia do trabalhador. Tito Morais promoveu encontros com trabalhadores em vários países europeus, de que resultou a criação de Núcleos ASP e que veio a reflectir-se de forma positiva no Congresso da fundação do Partido.

Em síntese, as acções políticas de Tito de Morais no exílio, com o empenho, a dedicação e o estímulo que promoveu em toda a sua actividade para o trabalho progredir, o recrutamento de militantes e a expansão da ASP, concorreram de forma decisiva para a criação das condições necessárias que levaram à fundação do Partido Socialista.

No Congresso da fundação, organizado sob sua responsabilidade, apresentou dois documentos: Política Interna da ASP e Problemas de Organização. É certo que são documentos datados, mas onde não falta espaço para alguma presciência política quando reflecte sobre o futuro, admitindo o derrube do regime fascista pelas forças armadas. Regista-se também a sua preocupação ideológica de uma comunidade solidária e fraterna ao afirmar “… não aceitar nada que possa comprometer a construção, embora por fases sucessivas, da sociedade socialista”.

Após a Revolução redentora dos militares de Abril, Tito Morais regressou a Portugal depois de 13 longos anos no exílio, não se deslumbrou por cargos de prestígio social e colocou todo o seu empenhamento na organização do Partido Socialista. Como 1º Secretário Nacional ficou instalado na sede nacional, dirigiu múltiplas áreas políticas e formou equipas que, sob sua orientação, implementaram o Partido a nível nacional.

Tito de Morais continuou a servir o Partido Socialista exercendo vários cargos, de que se destacam, a nível institucional, o de Presidente da Assembleia da República, e a nível partidário, o de Presidente do Partido Socialista. O ex-exilado, exercendo então funções do maior prestígio nacional, continuou igual a si próprio, na sua modéstia e integridade. Manteve-se durante toda a vida como o guardião dos valores do socialismo, e encontramo-lo, em Maio de 1992, no seu “Portugal Socialista”, a escrever: “Vem-se acentuando no seio do Socialismo democrático a tendência de, por razões eleitoralistas, se adaptarem os modelos neoliberais existentes que vão tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e, para mascararem esta tendência, afirmam que se trata de uma ‘MODERNIZAÇÃO’.”

Estas breves notas, de apenas alguns aspectos relevantes da acção política de Tito de Morais, são suficientes para o colocar na galeria da História do Socialismo em Portugal, como vulto do maior destaque que não se poupou a esforços na luta contra a ditadura, para a edificação do Partido Socialista e a institucionalização da Democracia em Portugal.

Tem sido para mim uma grande honra e forte emoção participar nesta bem merecida homenagem a Tito de Morais, com quem tive o privilégio de colaborar como companheiro de exílio, como camarada e como amigo.

A melhor homenagem que devemos prestar a Tito de Morais é prosseguir na defesa dos valores do Socialismo Democrático de que ele sempre foi porta-voz.

José Neves



publicado por CCTM às 20:00
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2010

José Neves - Discurso PSCamarada Presidente Almeida Santos
Camarada Secretário-Geral José Sócrates
Senhores e Senhores Convidados
Familiares de Tito de Morais
Camaradas Militantes do Partido Socialista

Constitui para mim uma grata satisfação participar nesta sessão de encerramento das Comemorações na sede nacional do Partido Socialista, pois este é sem dúvida o local apropriado, a casa política de Tito Morais, instituição de que foi impulsionador da sua criação e obreiro da sua construção.

Também é um grande privilégio compartilhar com todos os presentes este sentimento de apreço e reconhecimento pelos méritos do nosso homenageado, Tito de Morais. A presença de ilustres convidados da Comissão Executiva muito honra este momento e a quem saúdo calorosamente.

As minhas saudações de carinho aos familiares de Tito de Morais cuja presença indispensável completa o significado deste encontro.

Saúdo os camaradas Almeida Santos e José Sócrates, pois a sua participação nesta sessão abona o patrocínio e o apoio dado pelo Partido à iniciativa de homenagear a figura impar do socialista Tito de Morais.

Uma fraternal saudação de camaradagem aos militantes do Partido Socialista.

Entenderam os meus colegas da Comissão Executiva designar-me para dar o meu testemunho sobre Tito de Morais, com quem convivi e participei em acções políticas no exílio e também em Portugal. Há muito para falar sobre este meu camarada, mas vou limitar o meu depoimento ao seu período de exílio que antecedeu a criação do Partido Socialista.
Conservo bem viva na memória o meu primeiro encontro com Tito de Morais. Encontrava-me já exilado em Londres quando fui desafiado para ir a um encontro com um político da resistência de visita aquela cidade. Só sabíamos que se tratava de um membro de um grupo socialista e era patriarca de uma grande prole. Subsistia uma dúvida: Seria que se tratava de um agrupamento constituído apenas por esse cidadão e pelos seus filhos?



publicado por CCTM às 23:00
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Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Bandeira original PSA acção de Tito de Morais desde a sua mudança para Roma em 1966 foi de uma importância política extraordinária, pois abriu uma nova fase da actividade política do movimento Acção Socialista Portuguesa (ASP). Do período que vai dessa data até ao 25 de Abril, o trabalho de Tito de Morais repartiu-se por várias áreas, merecendo maior destaque:

• A área de relações internacionais, tendo participado em conferências e congressos de prestigiados partidos europeus e organizações internacionais, desta forma denunciando a ditadura em Portugal e obtendo apoios para a luta;

• No âmbito da divulgação da mensagem socialista através da criação do jornal “Portugal Socialista”, publicação da ASP e que se tornou no órgão central do Partido Socialista, meio de difusão dos valores socialistas e de luta anti-fascista;

• No sector de recrutamento de militantes junto dos emigrantes portugueses e na criação e coordenação dos Núcleos ASP, depois PS, no estrangeiro, função que, como Secretário de Organização, o levou a promover encontros em vários países europeus.

É bem conhecida que toda esta actividade de Tito de Morais no exílio era exercida com enorme empenhamento, tendo dado uma contribuição incontornável para a expansão da ASP e, desta forma, criando as condições indispensáveis para a fundação do Partido Socialista. As acções desencadeadas pela sua criatividade política, o estímulo que impregnou no trabalho desenvolvido e a inquebrantável perseverança à causa do socialismo qualificam Tito de Morais como impulsionador da fundação do Partido Socialista.

Como militante da ASP, em cujo Núcleo de Londres exerci a minha militância desde 1970, com frequentes contactos com Tito de Morais, posso bem testemunhar o que em síntese acima descrevo. Acresce que, depois da revolução redentora dos Capitães de Abril e criadas as condições para a actividade política em liberdade, Tito de Morais, mais uma vez, deixou uma marca fundamental no Partido Socialista, agora no âmbito da implantação de estruturas partidárias por todo o país.

Na 1ª sede do PS, em São Pedro de Alcântara, tive o privilégio de trabalhar no mesmo gabinete de Tito de Morais. Era bem visível a satisfação com que Tito, logo de manhã, dava andamento ao expediente, despachando com a sua secretária, camarada Maria do Carmo Maia Cadete. Depois recebia militantes e simpatizantes socialistas que vinham de todo o país oferecer o seu apoio ao Partido, dava entrevistas aos órgãos de imprensa nacional e internacional, geria toda a imensa azáfama de tarefas políticas que surgiam a todo o momento, enfim, era o dirigente disponível para todas as funções políticas.

Naturalmente que Tito de Morais não era o único dirigente socialista, mas todos os outros andavam demasiado absorvidos em actividades políticas, como reconheceu Mário Soares no seu relatório ao 1º Congresso Nacional: “… muitos de nós, durante estes sete trabalhosos meses, têm estado tão ocupados que mal têm tempo de passar pelo Partido.”

Um dia Tito chamou-me junto à sua mesa de trabalho para me incumbir de uma tarefa, o que acontecia regularmente. Desta vez, abrindo um gavetão apinhado de cartas, cartões ou simples apontamentos com contactos de apoiantes e amigos que tinham vindo oferecer a sua disponibilidade para apoiar o Partido, incumbiu-me de analisar todos esses documentos e fazer uma proposta para a implantação do Partido Socialista no país, missão que seria empreendida por três camaradas.

A estruturação da proposta foi simples, pois existiam vários pontos de contacto em todos os distritos. Aprovado o plano foram criadas três zonas de trabalho, Zona Norte e Zona Sul, que ficaram sob a responsabilidade política, respectivamente, dos saudosos camaradas João Tito de Morais e Catanho de Menezes, ficando José Neves com a Zona Centro. As áreas de Lisboa, Açores e Madeira foram estruturadas num sistema próprio.

 Foram 5 meses de trabalho árduo, sob a orientação e coordenação de Tito de Morais, mas chegou-se ao Congresso Nacional e no relatório acima referido podia-se afirmar com orgulho: “Todos os concelhos do país, com raríssimas excepções, estão cobertos por secções ou por núcleos P.S. – a esmagadora maioria dos quais com sedes abertas e em pleno funcionamento.”

Tito de Morais, além deste trabalho gigantesco a nível nacional, foi o dirigente que assegurou o funcionamento interno do P.S. neste período difícil e conturbado. Recorde-se que à medida que o Congresso se aproximava aumentava a agitação política interna no Partido devido à acção do grupo Movimento Socialista Português (MSP), dirigido pelo histórico resistente anti-fascista Manuel Serra (recentemente falecido). E foi sob a direcção de Tito de Morais que foi conduzida a maior oposição ao MSP, cujo desfecho em Congresso favorável ao PS se ficou a dever a um brilhante discurso de Manuel Alegre.

Por tudo isto, Tito Morais foi também o obreiro da estruturação do Partido Socialista, cuja implantação a nível nacional contribuiu decisivamente para o papel histórico que veio a desempenhar na sociedade portuguesa.



publicado por Jose Neves às 01:10
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Terça-feira, 30 de Março de 2010

Carta InglaterraQuem conviveu com Tito de Morais não pode deixar de o recordar com saudade. Foram anos de camaradagem e conivência política que jamais esquecerei.

Aderi à Acção Socialista Portuguesa (ASP) em fins de1969, quando já exilado em Londres, circunstância que veio proporcionar-me frequentes contactos com o camarada Tito de Morais, dadas as suas deslocações a essa cidade em trabalho de política internacional e, também, devido às funções inerentes ao cargo de Secretário de Organização da ASP. As visitas de Tito de Morais davam origem a prolongadas conversas de orientação política, conselhos sobre o trabalho a desenvolver no Núcleo de Londres da ASP, depois PS, e também troca de opiniões sobre o trabalho sindical junto dos emigrantes portugueses iniciado com a colaboração de militante da ASP.

Naturalmente que toda esta convivência política decorria em ambiente de grande camaradagem e cordialidade, o que é absolutamente natural entre companheiros que comungam dos mesmos ideais. Mas quando surgiam divergências de opinião, mesmo no fervor da discussão, era nessa ocasião que se tornava mais evidente a feição socialista de Tito de Morais proceder, como o demonstra no caso que relato:

Tinham surgido problemas no funcionamento do Núcleo e desacordo quanto a um aspecto da minha participação como secretário da secção sindical, o que lhe fora exposto num longo relatório. A reacção de Tito, numa carta de 6 páginas, chamando à atenção para vários aspectos e dando indicações claras e com convicção, terminava assim:

"Não temos felizmente nem guias nem chefes, mas temos a enorme fortuna de possuir os valores de auto disciplina, da independência de juízo na fidelidade aos princípios que defendemos, da auto-critica e da consciência das nossas responsabilidades. Para terminar lembro-lhe que depende quase exclusivamente de si o resolver todos os problemas ai existentes: o das suas relações dentro do Núcleo e os sindicais, na linha política da ASP. Com as fraternais saudações socialistas envia-lhe um apertado e afectuoso abraço o camarada e amigo

Tito Morais”

Era com esta afectuosidade que chegavam a bom termo os nossos desacertos.

Eu na altura não passava de um neófito na política e foi com Tito de Morais que muito aprendi na senda do Socialismo.

Obrigado por tudo, Camarada Tito!

Imagem do arquivo de José Neves - aqui pode ver maior



publicado por Jose Neves às 02:40
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Tito de Morais - 1974
CCTM
Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

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