Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Portugal Socialista - Edição comemorativa do centenário de Tito de Morais Todo o programa das Comemorações do Centenário de Nascimento de Manuel Alfredo Tito de Morais envolve um relevante significado dada a justa Homenagem que se presta à sua luta constante, empenhada e determinada, que sem tréguas travou pela implantação da Liberdade em Portugal.

Contudo não posso, nem devo, deixar de salientar a importância que representa esta Edição Especial do Portugal Socialista. Considero-a um dos pontos altos, porque se traduz numa colectânea de textos escritos, por quem o conheceu efectivamente, dando-se assim testemunho da sua vida quer familiar quer política, pois ambas permaneceram indissociáveis.

Muitos dos testemunhos aqui publicados foram escritos por protagonistas da Revolução de Abril, mas todos eles, transmitirão às jovens gerações a memória da acção que foi necessária implementar para que a Revolução dos Capitães não tivesse sido em vão e se garantisse a necessária estabilidade democrática. Por outro lado, não menos importante, trata-se de editar o Órgão Central do Partido Socialista fundado e lançado exactamente por Tito de Morais na clandestinidade. Nessa ocasião editar e distribui-lo em Portugal foi uma temeridade e foi um marco histórico.

Ao regressar, a calorosa recepção do País a Tito de Morais, Mário Soares e Ramos da Costa, bem presente na nossa memória, poder-se-á considerar como a 1ª Homenagem prestada por toda uma Nação agradecida e consciente.

Esta comunhão de sentimentos, profundamente contagiante, ficou espelhada na foto que lhe foi tirada à chegada e onde está bem patente a sua grande felicidade. Tito de Morais até parecia ter esquecido o seu passado difícil e conturbado. Como as perseguições, as prisões e o exílio que o obrigaram a sacrificar uma promissora carreira profissional, na sua qualidade de engenheiro, bem como a tranquilidade do lar.

A par da política dirigia o seu carinho e encantava-o a família que gostava de ter junto de si, certamente para compensar os anos em que isso bastas vezes lhe foi negado pela força das circunstâncias de resistente anti-fascista. Felizmente este seu legítimo sonho encontrou eco nos familiares e foi de tal forma conseguido e evidente que, curiosamente, sempre se considerou a Família Tito de Morais como um verdadeiro “clã”, no sentido mais nobre da expressão.

Por vezes no nosso imaginário criam-se mitos que se desvanecem ao privar-se de perto com os visados. No entanto, com Tito acontecia precisamente o contrário. Todos, que de qualquer modo tivemos o privilégio de consigo colaborar, considerávamos que à medida que mais privávamos e melhor o conhecíamos mais aumentava o nosso respeito e admiração. Recordamo-lo, segundo as diversas áreas de intervenção, como uma personalidade humanista de grande carácter e integridade que pôs a sua inteligência, cultura, saber e enorme capacidade de trabalho ao serviço do seu país, o qual amou intensamente. A sua preocupação e principal objectivo, antes e após o 25 de Abril, visava designadamente o desenvolvimento social e económico.

Jamais se coibiu de alertar com frontalidade e de manifestar a sua discordância, quando era caso disso. Expressava as suas críticas e apresentava sugestões alternativas. Procurava o diálogo. Argumentava dando a conhecer o seu pensamento analítico. Guiava-o a firme ambição de que efectivamente se concretizasse a prática dos valores republicanos de Justiça, Igualdade e Fraternidade.

Tito de Morais, que foi, é e será sempre uma grande referência, permanecerá na memória colectiva e nos nossos corações.

Maria José Gama



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Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Chegada St. ApolóniaImediatamente após o 25 de Abril, Tito de Morais exilado político por largos anos, regressou ao seu querido país com incontida emoção e enorme alegria. Esta, naturalmente, não isenta de orgulho pela vitória dos valores da Liberdade.

Ao entrar em Portugal com Mário Soares e Ramos da Costa e ao ser recebido tão gloriosamente pelos portugueses, viveu com intensa exaltação esse inesquecível momento. Automaticamente, o seu pensamento foi para os correligionários, seus companheiros de luta, que já não assistiram a esta mudança tão sonhada por todos.

Nesse regresso vieram-lhe à mente imagens do seu exílio. Quer da sua passagem por França, primeiro país onde se acolheu, quer do Brasil e da Argélia onde a par da sua actividade como Engenheiro foi um dos responsáveis pelo lançamento na Rádio da "Voz da Liberdade" que todo o Mundo ouvia com enorme interesse pela excelência dos textos noticiosos e também pelas vozes inconfundíveis de Tito de Morais e de Manuel Alegre. Sendo igualmente de assinalar, o facto de haver nessa Rádio uma locutora, então Jovem Jornalista, que também fora obrigada a exilar-se, Luísa Tito de Morais.

Curiosamente, também recordou a Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Europeia, realizada em Florença de 2 a 5 de Dezembro de 1971 e a parte da sua intervenção em que como representante da ASP afirmou:

* "Para a Acção Socialista Portuguesa superar os blocos políticos e militares significa vencer uma batalha na luta contra a alienação do homem, contra o Imperialismo, contra a sociedade capitalista. Significa ainda ter confiança na solidariedade entre os homens, em particular na solidariedade que deve unir as massas trabalhadoras de todos os países do mundo e que deve unir todos os jovens que são a garantia do futuro"

Enquanto o comboio avançava para Lisboa, afluiu-lhe ao pensamento que tinha de voltar a Itália a fim de fazer a mudança da sua residência de Roma para Lisboa e de se despedir dos amigos bem como dos seus Camaradas italianos que costumavam ajudá-lo na feitura do Portugal Socialista que clandestinamente editava e enviava para os emigrantes portugueses e ainda para os resistentes anti-fascistas que residiam em Portugal.

Assim aconteceu, depois da grande festa comemorativa do 1º de Maio, que todos vivemos com grande entusiasmo e euforia, foi com Maria Emília, sua mulher, a Roma para orientar o seu regresso definitivo a Portugal.

Antes de partir disse a Mário Soares que ele, Tito, se responsabilizaria pela organização do Partido Socialista, bem assim da preparação e coordenação do processo para a sua legalização. Nesse sentido, sob a orientação de seu irmão Augusto e seu filho João, deixou a funcionar um atendimento, provisoriamente instalado num andar na Duque d’Ávila, pertença de uma Cooperativa de Estudos, cujo responsável era Lopes Cardoso.

Foi nesse andar da Duque d’Ávila que mais tarde começaram a funcionar as primeiras secções do PS – sectoriais e de residência Foi também aí que conheci pessoalmente Tito de Morais e que tive o privilégio de com ele colaborar. Pois, precisamente no dia 1 de Maio de 74, comunicara a Teresa Loureiro, que  conhecía desde o Liceu D. Filipa de Lencastre,  da minha disponibilidade para colaborar e apoiar o PS.  E,  logo na manhã do dia 3  a Teresa telefonou-me a pedir para ir para lá, porque além dela só lá estava a Maria Antónia Catanho de Menezes e uma outra Senhora.

Claro que correspondi de imediato à chamada. A minha militância activa começou desde esse dia. Fi-lo como uma homenagem póstuma a meu Pai, José Carvalho dos Santos, que fora um jovem político interveniente na Iª República e que, entre outras acções, exerceu as funções de Chefe de Gabinete do Presidente do Conselho de Ministros Francisco Cunha Leal, Deputado da Nação pelo círculo eleitoral de Viseu e Governador Civil de Viseu. Em princípios de 1933, resolveu exilar-se voluntariamente para Angola onde exerceu com reconhecido saber a advocacia. Esta resolução deveu-se à sua defesa intransigente e publica pela autonomização das colónias, opondo-se às resoluções do Acto Colonial de 1930 bem como pela sua discordância com a política da governação autoritária de Oliveira Salazar, quer como Ministro das Finanças, quer posteriormente, como Presidente do Conselho de Ministros.

Anteriormente ao exílio Tito de Morais, devido às perseguições da PIDE, que impunha às Empresas que lhe davam emprego que o despedissem, fora viver para Luanda. Nesse período, antes de ser preso, conseguiu exercer a sua profissão e, discretamente, também actuar politicamente. Nessa sua acção contactou alguns oposicionistas ao regime de Salazar, entre os quais meu Pai, que vivia em Benguela. Devido a esse esforço conjunto, quer em Luanda, Benguela e em muitos outros distritos de Angola, contrariamente ao acontecido na então Metrópole, Humberto Delgado ganhou as eleições.

Pela admiração que a figura de Tito de Morais sempre me inspirou, foi-me particularmente gratificante tê-lo conhecido, ter tido o privilégio da sua amizade, de o ter entrevistado em Abril de 1991 e consequentemente ter elaborado a sua Biografia.

Ao evocar Tito de Morais, não posso deixar de referenciar o seu filho, João, que sentia fortemente a responsabilidade dos valores que herdara dos seus maiores.

Entre outros episódios políticos que vivemos no período pós 25 de Abril, em que ainda se lutava pela estabilidade da democracia, retenho na memória o seguinte facto. Estávamos na Duque d’Ávila. O João recebera um telefonema de um capitão de Abril, que na qualidade de membro do MFA, a funcionar na Cova da Moura, fora incumbido da cedência de edifícios aos partidos para a instalação das suas sedes. Este Oficial perguntara-lhe se o PS aceitaria o palácio sito em S. Pedro de Alcântara, onde funcionara a censura e pedia-lhe para visitar o citado prédio. O João muito satisfeito convidou-me a ir também. Tinha de decidir e gostaria da minha opinião. Fez idêntico convite a mais duas pessoas,  uma das quais foi à Maria do Carmo Maia Cadete.

Ambos fazem parte do álbum das minhas boas recordações. Inevitavelmente recordo sempre Manuel Tito de Morais e seu filho João Tito de Morais com enorme carinho, admiração e muita saudade.

 

* Fonte – Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Social – Florença, Dez. de 1971 – Pensamento retirado da sua Intervenção que se encontra no Espólio.



publicado por Maria José Gama às 02:20
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Sábado, 19 de Dezembro de 2009

Homenagem 1996Em Abril de 1991, Maria José Gama entrevistou Manuel Tito de Morais para fazer o registo da sua nota biográfica, a mais completa até hoje  conhecida.

Este trabalho já foi publicado no Acção Socialista por duas vezes, em 9 de Maio de 1991 e em 6 de Janeiro de 2000, e no número especial do Portugal Socialista que foi editado em Outubro de 1996, por ocasião da Homenagem Nacional que lhe foi prestada.

Trata-se de um documento único que nos revela muito do percurso de um dos principais obreiros da criação do Partido Socialista.

É uma peça fundamental para o conhecimento de uma personagem essencial do processo democrático português no Século XX.

O registo está disponível em .pdf na coluna da direita deste blog, no item em destaque.



publicado por Maria José Gama às 00:30
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Tito de Morais Manuel Alfredo Tito de Morais um homem de princípios, militante e um dos fundadores do Partido Socialista, lutador pela liberdade e pela democracia, nasceu em Lisboa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, a 28 de Junho de 1910, três meses e alguns dias antes da revolução que trouxe a República a Portugal.

Era filho de Augusto Tito de Morais, oficial da Marinha, republicano e de firmes convicções democráticas, Ministro, Deputado e Senador às Constituintes de 1911, militante no Partido Republicano Nacionalista e de Carolina de Macedo Morais, que, entre muitas outras coisas, lhe ensinou a respeitar as pessoas independentemente da sua origem.

Passou a sua infância e adolescência num ambiente propício em que eram visíveis os valores da democracia e da liberdade.

Conviveu em casa dos seus pais com notáveis políticos da época de Brito Camacho e do Presidente António José de Almeida, o que contribuiu também, para a sua formação política.

Tinha 16 anos por ocasião da revolução de 28 de Maio, quando iniciou a sua actividade revolucionária, como ele próprio refere: “Direi mesmo que a minha acção política começou aos 16 anos quando levei a minha primeira chanfalhada de um soldado de Cavalaria da Guarda Nacional Republicana que invadiu o Liceu Camões, aquando da greve estudantil”. Foi o seu primeiro incidente com a polícia e, como tal, o primeiro contacto com a autoridade e com a repressão do regime ditatorial que se seguiu. Depois seguiram-se muitos outros momentos em que Tito de Morais esteve na primeira linha das manifestações contra o regime.

Frequentou o Colégio Militar e foi finalista no Liceu Camões. Terminado o liceu entrou na Faculdade de Ciências, onde fez as disciplinas de Física, Química e Matemática, preparatórias para a Escola Naval, correspondendo assim ao desejo do seu pai. Porém, não passou no exame de admissão, por razões de ordem política e decidiu, de acordo com os pais, ir estudar para a Universidade de Gand, na Bélgica, onde se licenciou em Engenharia Electrotécnica.

De volta a Portugal, começou a exercer a sua profissão na Marconi e depois de 1940, na General Electric Portuguesa, onde dirigiu o departamento de electromedicina. Mais tarde, dirigiu no Instituto Pasteur o departamento com o mesmo nome.

Em 1945, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), através das bases e depois tornou-se membro da Comissão Central. Nesta qualidade participou na Campanha do General Norton de Matos à Presidência da República. Nesse mesmo dia, os seus serviços no Instituto Pasteur foram dispensados, tendo sido apresentado como justificação o facto de ser dirigente do MUD. Vendo-se desempregado, dedicou-se com todo o empenho à organização deste movimento antifascista, que neste início viveu um ambiente de euforia.

No dia 31 de Janeiro de 1947, a esperança que a oposição vivia esmoreceu com a ilegalização do movimento e a prisão de toda a Comissão Central, presidida por Mário de Azevedo Gomes, incluindo Tito de Morais.

Tito de Morais que contou, durante uma entrevista, episódios dramáticos vividos durante este momento, referiu que quando chegou à prisão já se encontrava o seu advogado e muitos outros, entre os quais Mário Soares que lhe perguntou se ele não trazia dinheiro. Perante a resposta negativa de Tito de Morais, Mário Soares emprestou-lhe os 50$00 necessários para ir para “primeira”, descobrindo-se assim que na cadeia os presos eram seleccionados através das suas posses no momento. Contou ainda, que durante os primeiros 15 dias, à noite, às 0 horas, iam buscá-lo à camarata para ser interrogado. Na mesma camarata encontravam-se, entre outros, Maldonado de Freitas que permanecia acordado à espera que Tito de Morais voltasse do interrogatório, por volta das 4 da manhã, com o fim de lhe aconchegar a roupa quando finalmente dormia. Saiu da prisão a 23 de Março de 1948, sob uma fiança de cem mil escudos emprestados pelos amigos.

Os tempos difíceis não terminaram contudo. Assim, logo de início com problemas em conseguir arranjar emprego e vendo-se impedido por razões políticas de exercer a sua profissão, partiu para Angola, em 1952. Quando ali chegou, a situação não melhorou, porque mal conseguia emprego era logo, no dia seguinte, despedido, devido a pressões feitas pela PIDE. Foi então que um antigo condiscípulo fez frente à PIDE e deu-lhe trabalho na sua empresa, a Luso Dana, Ld.ª, em Luanda. Nesta empresa exerceu o cargo de director do Departamento de Electricidade.

Continuou, ao mesmo tempo que exercia a sua profissão, a lutar pelos ideais democráticos. Assim, em 1958, participou na campanha de candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

Em 1961, rebentou a guerra colonial e a situação tornou-se mais difícil. Tito de Morais recebendo ameaças e esperando tempos de perseguição, temeu pela família e fez com que ela regressasse a Portugal. Oito dias depois, era encarcerado na cadeia de Luanda onde foi tratado o mais desumanamente que se pode imaginar. Foi, mais tarde, transferido para Portugal de avião, onde lhe foi comunicado que lhe era restituída a liberdade, embora com residência fixa em Lisboa.

No entanto, as perseguições efectuadas pela PIDE continuaram e a hipótese de conseguir emprego em Portugal era praticamente impossível, fazendo com que fosse obrigado a pedir autorização para sair de Portugal. Foi então para França, onde mais uma vez não conseguiu emprego. Partiu depois para o Brasil, começando a trabalhar numa empresa de siderurgia, a Cosipa. Viveu no Brasil entre 1961 e 1963, criando um movimento de apoio aos resistentes portugueses, e fundando uma ramificação do MUD, a União Democrática Portuguesa.

Participou na 1ª Convenção da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), como representante da Resistência Republicana e Socialista de Portugal. Nessa convenção Tito de Morais propôs que a direcção da FPLN, se localizasse em Argel.

Assim, em 1963 partiu para Argel onde se instalou até 1966. Na Argélia foi dirigente da Junta de Salvação Nacional e participou na fundação da Rádio Voz da Liberdade de Argel.

A 7 de Abril de 1964, em Genebra, fundou, juntamente com Mário Soares e Ramos da Costa, a ASP – Acção Socialista Portuguesa, junto do Partido Socialista Italiano, foi para Roma, em 1966.

No Congresso da Internacional Socialista foi proposto pelo Partido Socialista Italiano que a ASP entrasse como membro de facto, apesar de ser movimento e não partido. Manuel Tito de Morais passou também a representar o Secretariado Nacional da ASP, assim como Mário Soares e Ramos da Costa, junto da Internacional Socialista. Esta representação foi bastante importante na vida política de Tito de Morais. Como ele próprio refere: “Esta representação proporcionou-me a oportunidade de contactar com os mais altos representantes do socialismo europeu, com Willy Brandt, Olof Palm, François Mitterrand”, entre muitos.

Fundou em 1967 e foi director do Jornal “Portugal Socialista”, tendo sido apoiado financeiramente pelo PS italiano, através da cedência de papel e pela disposição da tipografia do seu jornal “Avanti”. A distribuição do jornal foi bastante estudada, tendo optado, por um lado, por confiar uns quantos a estrangeiros que depois visitavam Portugal e os deixavam na casa de Mário Soares e, por outro lado, por os enviar para os camaradas dos diversos partidos socialistas e social democratas que depois por sua vez os enviavam ao verdadeiro destino. Era assim que o jornal entrava em Portugal vindo de diversas partes do globo, embora à chegada os correios o captassem e destruíssem, numa média de 50%.

A 19 de Abril de 1973, em Bad Munstereifel, realizou-se o congresso da ASP, em que foi votada a transformação deste movimento em partido, Partido Socialista Português.

O 25 de Abril apanhou Tito de Morais em Bona, juntamente com Mário Soares e Ramos da Costa. Encontravam-se aqui para uma reunião com o Ministro da Defesa alemão, tendo sido ele próprio que os avisou nessa madrugada de esperança, que a revolução estalara em Portugal.

Foi com emoção, alegria e um sentimento de vitória que estes amigos e camaradas receberam a notícia. Combinando voltar a Portugal para Portugal, Mário Soares e Ramos da Costa tomaram o avião para Paris, enquanto Tito de Morais que não podia entrar em França, por ter sido expulso, entrou clandestinamente de carro. No entanto, Manuel Tito de Morais em virtude da incomensurável alegria, precipitou-se e entrou na fronteira errada, onde não tinha nenhum polícia amigo e, claro, a entrada foi-lhe interdita. Furioso, Tito de Morais, fez um escarcéu tremendo, irritou-se e disse que tinha todo o direito em entrar, pois só queria tomar o comboio para Portugal.O polícia respondeu-lhe que não tinha direito nenhum. Por fim, apareceu o chefe da fronteira que, chamando-o de parte, lhe sussurrou: “O senhor deu tanto nas vistas que não poderei deixá-lo passar. Mas vou explicar-lhe como deverá fazer para encontrar a fronteira belga e daí apanhar o comboio para Paris”. Tito de Morais seguiu a referida orientação e tudo correu satisfatoriamente.Encontrou-se, conforme previsto, com os dois amigos e regressou com eles a Portugal na inesquecível viagem de comboio de Paris até Santa Apolónia.

A chegada a Vilar Formoso foi extremamente comovente. A estação estava repleta de gente que os vinha aplaudir e cumprimentar. Reinava a emoção e a alegria, o próprio chefe da estação não deu ordem de partida ao comboio sem primeiro perguntar a Mário Soares se o poderia fazer, e isto repetiu-se sucessivas vezes até Lisboa, chegando o comboio a parar mesmo em estações não programadas.

Apesar de ter afirmado que após aquele dia nada mais tinha a fazer, pois a sua missão estava cumprida, empenhou-se com toda a dedicação e firmeza no período pós-revolucionário, na organização do Partido Socialista, ou seja, na criação de estruturas, na mobilização e na legalização do Partido e na preparação da Lista de Deputados.

Candidatou-se como deputado à Constituinte, em 1975, na lista do Distrito de Viana do Castelo e, depois no Distrito de Lisboa.

A nível governamental o empenho de Tito de Morais também foi importante. Assim, foi e Secretário de Estado do Emprego no 6º Governo Provisório e Secretário de Estado da População e Emprego no 1º Governo Constitucional.

Porém, foi no Parlamento que ocupou uma posição de topo, primeiro como Vice-presidente da Assembleia da República, entre 1977 e 1983 e, depois, como Presidente do mesmo órgão de soberania, entre 1983 e 1985. A sua actuação foi reconhecida por todas as bancadas parlamentares como dignificante, isenta, com firmeza e coerência de princípios.

Desempenhou ainda os cargos de Vice-presidente da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, entre Maio de 1979 e Abril de 1980, tendo presidido à sessão, no dia da eleição, sendo, desta forma o primeiro português a presidir a uma Assembleia-Geral do Conselho da Europa. Foi igualmente Vice-presidente do Grupo Parlamentar Socialista do Conselho da Europa.

Em 1989, renunciou à actividade parlamentar alegando razões de saúde, apesar de no cerne da questão estar a discordância do acordo da Revisão Constitucional assinado entre o PS e o PSD.

Considerado como segunda figura dos históricos do Partido Socialista, foi eleito, em 1975, membro da Comissão Nacional, da Comissão Política e Secretário Nacional do PS, tendo sido responsável pelo Departamento de Relações Internacionais.

Eleito no VI Congresso Nacional para o mais alto cargo no PS, o de Presidente da Comissão Nacional, ou seja, Presidente do Partido, exerceu o cargo entre 1986 e 1988.

Nesse ano, foi eleito em Congresso, Presidente honorário do PS.

"Pelo seu prestígio e pelo seu empenhamento na luta em prol dos valores do socialismo humanista foi, muitas vezes solicitada a sua presença, quer para reuniões partidárias, quer para comemorações cívicas de relevo”.

Considerado como um dos grandes lutadores pela liberdade, uma das grandes figuras da resistência antifascista, recebeu diversas condecorações:

Grande Ordem de Mérito da República Italiana, Grã-cruz da Ordem de Danebrog da Dinamarca, Grã-cruz da Ordem de Mérito da Áustria, Grã-cruz da Ordem da Coroa da Bélgica, Grã-cruz do Luxemburgo, Grã-cruz da Ordem Militar de Cristo de Portugal e Grã-cruz da Ordem da Liberdade de Portugal.

Empenhado em melhorar o mundo e o Homem, combatente pela liberdade, pela democracia, pela justiça social, considerava que “os Partidos Socialistas continuarão a ser o motor das transformações sociais que se impõem, para que o Homem sinta alegria em viver e para que a justiça, a Verdade, a Dignidade, bem como o Progresso sejam uma realidade, não um mito, nem um slogan”.

Tito de Morais defendeu sempre ao longo da sua vida que o governo deste país deveria ser de esquerda.

Em Novembro de 1996, foi prestada uma homenagem nacional a Tito de Morais. Vários amigos, camaradas, companheiros e admiradores estiveram presentes neste acontecimento.

Faleceu no dia 14 de Dezembro de 1999.

O Partido Socialista perdeu um dos seus fundadores, Portugal perdeu um homem que dedicou toda a sua vida à causa dos valores de igualdade, liberdade e fraternidade.

A Câmara Municipal de Lisboa presta-lhe a sua homenagem ao atribuir o seu nome a uma rua na freguesia da Charneca.

 

Texto da publicação Tito de Morais – Político – 1910/1999.
Texto de Teresa Sancha Pereira a partir de uma entrevista a Tito de Morais conduzida por Maria José Gama.
Câmara Municipal de Lisboa - 2001.



publicado por CCTM às 00:01
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