Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

Bandeira original PSA acção de Tito de Morais desde a sua mudança para Roma em 1966 foi de uma importância política extraordinária, pois abriu uma nova fase da actividade política do movimento Acção Socialista Portuguesa (ASP). Do período que vai dessa data até ao 25 de Abril, o trabalho de Tito de Morais repartiu-se por várias áreas, merecendo maior destaque:

• A área de relações internacionais, tendo participado em conferências e congressos de prestigiados partidos europeus e organizações internacionais, desta forma denunciando a ditadura em Portugal e obtendo apoios para a luta;

• No âmbito da divulgação da mensagem socialista através da criação do jornal “Portugal Socialista”, publicação da ASP e que se tornou no órgão central do Partido Socialista, meio de difusão dos valores socialistas e de luta anti-fascista;

• No sector de recrutamento de militantes junto dos emigrantes portugueses e na criação e coordenação dos Núcleos ASP, depois PS, no estrangeiro, função que, como Secretário de Organização, o levou a promover encontros em vários países europeus.

É bem conhecida que toda esta actividade de Tito de Morais no exílio era exercida com enorme empenhamento, tendo dado uma contribuição incontornável para a expansão da ASP e, desta forma, criando as condições indispensáveis para a fundação do Partido Socialista. As acções desencadeadas pela sua criatividade política, o estímulo que impregnou no trabalho desenvolvido e a inquebrantável perseverança à causa do socialismo qualificam Tito de Morais como impulsionador da fundação do Partido Socialista.

Como militante da ASP, em cujo Núcleo de Londres exerci a minha militância desde 1970, com frequentes contactos com Tito de Morais, posso bem testemunhar o que em síntese acima descrevo. Acresce que, depois da revolução redentora dos Capitães de Abril e criadas as condições para a actividade política em liberdade, Tito de Morais, mais uma vez, deixou uma marca fundamental no Partido Socialista, agora no âmbito da implantação de estruturas partidárias por todo o país.

Na 1ª sede do PS, em São Pedro de Alcântara, tive o privilégio de trabalhar no mesmo gabinete de Tito de Morais. Era bem visível a satisfação com que Tito, logo de manhã, dava andamento ao expediente, despachando com a sua secretária, camarada Maria do Carmo Maia Cadete. Depois recebia militantes e simpatizantes socialistas que vinham de todo o país oferecer o seu apoio ao Partido, dava entrevistas aos órgãos de imprensa nacional e internacional, geria toda a imensa azáfama de tarefas políticas que surgiam a todo o momento, enfim, era o dirigente disponível para todas as funções políticas.

Naturalmente que Tito de Morais não era o único dirigente socialista, mas todos os outros andavam demasiado absorvidos em actividades políticas, como reconheceu Mário Soares no seu relatório ao 1º Congresso Nacional: “… muitos de nós, durante estes sete trabalhosos meses, têm estado tão ocupados que mal têm tempo de passar pelo Partido.”

Um dia Tito chamou-me junto à sua mesa de trabalho para me incumbir de uma tarefa, o que acontecia regularmente. Desta vez, abrindo um gavetão apinhado de cartas, cartões ou simples apontamentos com contactos de apoiantes e amigos que tinham vindo oferecer a sua disponibilidade para apoiar o Partido, incumbiu-me de analisar todos esses documentos e fazer uma proposta para a implantação do Partido Socialista no país, missão que seria empreendida por três camaradas.

A estruturação da proposta foi simples, pois existiam vários pontos de contacto em todos os distritos. Aprovado o plano foram criadas três zonas de trabalho, Zona Norte e Zona Sul, que ficaram sob a responsabilidade política, respectivamente, dos saudosos camaradas João Tito de Morais e Catanho de Menezes, ficando José Neves com a Zona Centro. As áreas de Lisboa, Açores e Madeira foram estruturadas num sistema próprio.

 Foram 5 meses de trabalho árduo, sob a orientação e coordenação de Tito de Morais, mas chegou-se ao Congresso Nacional e no relatório acima referido podia-se afirmar com orgulho: “Todos os concelhos do país, com raríssimas excepções, estão cobertos por secções ou por núcleos P.S. – a esmagadora maioria dos quais com sedes abertas e em pleno funcionamento.”

Tito de Morais, além deste trabalho gigantesco a nível nacional, foi o dirigente que assegurou o funcionamento interno do P.S. neste período difícil e conturbado. Recorde-se que à medida que o Congresso se aproximava aumentava a agitação política interna no Partido devido à acção do grupo Movimento Socialista Português (MSP), dirigido pelo histórico resistente anti-fascista Manuel Serra (recentemente falecido). E foi sob a direcção de Tito de Morais que foi conduzida a maior oposição ao MSP, cujo desfecho em Congresso favorável ao PS se ficou a dever a um brilhante discurso de Manuel Alegre.

Por tudo isto, Tito Morais foi também o obreiro da estruturação do Partido Socialista, cuja implantação a nível nacional contribuiu decisivamente para o papel histórico que veio a desempenhar na sociedade portuguesa.



publicado por Jose Neves às 01:10
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Terça-feira, 30 de Março de 2010

Carta InglaterraQuem conviveu com Tito de Morais não pode deixar de o recordar com saudade. Foram anos de camaradagem e conivência política que jamais esquecerei.

Aderi à Acção Socialista Portuguesa (ASP) em fins de1969, quando já exilado em Londres, circunstância que veio proporcionar-me frequentes contactos com o camarada Tito de Morais, dadas as suas deslocações a essa cidade em trabalho de política internacional e, também, devido às funções inerentes ao cargo de Secretário de Organização da ASP. As visitas de Tito de Morais davam origem a prolongadas conversas de orientação política, conselhos sobre o trabalho a desenvolver no Núcleo de Londres da ASP, depois PS, e também troca de opiniões sobre o trabalho sindical junto dos emigrantes portugueses iniciado com a colaboração de militante da ASP.

Naturalmente que toda esta convivência política decorria em ambiente de grande camaradagem e cordialidade, o que é absolutamente natural entre companheiros que comungam dos mesmos ideais. Mas quando surgiam divergências de opinião, mesmo no fervor da discussão, era nessa ocasião que se tornava mais evidente a feição socialista de Tito de Morais proceder, como o demonstra no caso que relato:

Tinham surgido problemas no funcionamento do Núcleo e desacordo quanto a um aspecto da minha participação como secretário da secção sindical, o que lhe fora exposto num longo relatório. A reacção de Tito, numa carta de 6 páginas, chamando à atenção para vários aspectos e dando indicações claras e com convicção, terminava assim:

"Não temos felizmente nem guias nem chefes, mas temos a enorme fortuna de possuir os valores de auto disciplina, da independência de juízo na fidelidade aos princípios que defendemos, da auto-critica e da consciência das nossas responsabilidades. Para terminar lembro-lhe que depende quase exclusivamente de si o resolver todos os problemas ai existentes: o das suas relações dentro do Núcleo e os sindicais, na linha política da ASP. Com as fraternais saudações socialistas envia-lhe um apertado e afectuoso abraço o camarada e amigo

Tito Morais”

Era com esta afectuosidade que chegavam a bom termo os nossos desacertos.

Eu na altura não passava de um neófito na política e foi com Tito de Morais que muito aprendi na senda do Socialismo.

Obrigado por tudo, Camarada Tito!

Imagem do arquivo de José Neves - aqui pode ver maior



publicado por Jose Neves às 02:40
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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

...Sem a contribuição de Tito de Morais nas acções lançadas nos areópagos internacionais, sem a sua actividade política como Secretário de Organização da ASP e a criação do "Portugal Socialista", sem o seu trabalho junto das comunidades de emigrantes constituindo os Núcleos que estiveram no Congresso da fundação e sem a pressão que permanentemente colocava para que o trabalho político progredisse, o Partido Socialista não teria sido fundado em Abril de 1973. Data limite para a acção histórica desempenhada pelo PS em Portugal no período pós 25 de Abril, conforme os acontecimentos vieram a confirmar.

Como Mário Soares afirmou num depoimento:

"... foi devido, em grande parte, à vontade política inquebrantável de Manuel Tito de Morais que os obstáculos foram vencidos e o PS começou."



publicado por Jose Neves às 00:16
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Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

José Neves _ Fundador do PS(...) "E se estou a recordá-los é tão só para situar o clima favorável ao Governo de Salazar que existia na Europa anterior ao exílio dos Líderes da ASP.

O primeiro a ser empurrado para o exílio foi Ramos da Costa, na sequência do seu envolvimento no golpe de Beja. Instalou-se em Paris, no ano de 1961, onde começou a desenvolver uma intensa actividade de publicista em jornais e revistas, participando em reuniões internacionais, denunciando a situação que se vivia em Portugal.

Em 1966 foi a vez de Tito de Morais mudar-se para Roma, vindo da Argélia, depois de ter passado pelo Brasil onde foi parar após ter sido expulso de Angola. E por todos estes países Tito de Morais fundou movimentos de luta contra o regime fascista. Esta mudança de Tito Morais para Roma foi uma decisão política para representar a ASP em Itália com o apoio do Partido Socialista Italiano. E foi aqui que Tito de Morais começou também a desenvolver contactos internacionais que se revelaram de enorme importância.

Com Ramos da Costa, em Paris, e Tito de Morais, em Roma, a ASP fazia-se representar nos Congressos de prestigiados Partidos Europeus e em conferências internacionais. As arbitrariedades da ditadura e do colonialismo eram expostas e as manifestações de solidariedade para com os socialistas e os democratas em Portugal decorriam espontaneamente. Deputados socialistas em Itália levantam questões relacionadas com a falta dos direitos humanos em Portugal e manifestam no Parlamento solidariedade para com Mário Soares quando estava deportado em S. Tomé. A ASP estabelece relações com todos os Partidos filiados na Internacional Socialista (I.S.), criando laços de fraternidade com, além do P.S. de Itália, o S.P.D. na Alemanha, os Trabalhistas na Grã-Bretanha, os Sociais-democratas na Suécia, os Socialistas em França. Enfim, Tito de Morais e Ramos da Costa desdobram-se nestas relações internacionais e promovendo contactos directos com os socialistas em Portugal. Por ocasião da farsa eleitoral de 1969 uma delegação de I.S. esteve em Portugal, constituída por personalidades políticas de destaque. Todos os membros da delegação acabaram por serem expulsos pela polícia política, a PIDE, que convém que ninguém se esqueça que existiu. Assim o regime fascista foi mais uma vez denunciado e estava irremediavelmente desmascarado. Agora já se sabia na Europa que em Portugal existiam democratas, socialistas e comunistas cujos elementares direitos eram espezinhados por um regime fascista.

Assim, quando Mário Soares, por sua vez, teve que optar pelo exílio, já havia um longo trabalho empreendido na área internacional por Ramos da Costa e Tito de Morais."(...)

Museu República e Resistência, em 25 de Outubro de 1996
(ler toda a intervenção)



publicado por Jose Neves às 01:01
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