Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Chegada St. ApolóniaImediatamente após o 25 de Abril, Tito de Morais exilado político por largos anos, regressou ao seu querido país com incontida emoção e enorme alegria. Esta, naturalmente, não isenta de orgulho pela vitória dos valores da Liberdade.

Ao entrar em Portugal com Mário Soares e Ramos da Costa e ao ser recebido tão gloriosamente pelos portugueses, viveu com intensa exaltação esse inesquecível momento. Automaticamente, o seu pensamento foi para os correligionários, seus companheiros de luta, que já não assistiram a esta mudança tão sonhada por todos.

Nesse regresso vieram-lhe à mente imagens do seu exílio. Quer da sua passagem por França, primeiro país onde se acolheu, quer do Brasil e da Argélia onde a par da sua actividade como Engenheiro foi um dos responsáveis pelo lançamento na Rádio da "Voz da Liberdade" que todo o Mundo ouvia com enorme interesse pela excelência dos textos noticiosos e também pelas vozes inconfundíveis de Tito de Morais e de Manuel Alegre. Sendo igualmente de assinalar, o facto de haver nessa Rádio uma locutora, então Jovem Jornalista, que também fora obrigada a exilar-se, Luísa Tito de Morais.

Curiosamente, também recordou a Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Europeia, realizada em Florença de 2 a 5 de Dezembro de 1971 e a parte da sua intervenção em que como representante da ASP afirmou:

* "Para a Acção Socialista Portuguesa superar os blocos políticos e militares significa vencer uma batalha na luta contra a alienação do homem, contra o Imperialismo, contra a sociedade capitalista. Significa ainda ter confiança na solidariedade entre os homens, em particular na solidariedade que deve unir as massas trabalhadoras de todos os países do mundo e que deve unir todos os jovens que são a garantia do futuro"

Enquanto o comboio avançava para Lisboa, afluiu-lhe ao pensamento que tinha de voltar a Itália a fim de fazer a mudança da sua residência de Roma para Lisboa e de se despedir dos amigos bem como dos seus Camaradas italianos que costumavam ajudá-lo na feitura do Portugal Socialista que clandestinamente editava e enviava para os emigrantes portugueses e ainda para os resistentes anti-fascistas que residiam em Portugal.

Assim aconteceu, depois da grande festa comemorativa do 1º de Maio, que todos vivemos com grande entusiasmo e euforia, foi com Maria Emília, sua mulher, a Roma para orientar o seu regresso definitivo a Portugal.

Antes de partir disse a Mário Soares que ele, Tito, se responsabilizaria pela organização do Partido Socialista, bem assim da preparação e coordenação do processo para a sua legalização. Nesse sentido, sob a orientação de seu irmão Augusto e seu filho João, deixou a funcionar um atendimento, provisoriamente instalado num andar na Duque d’Ávila, pertença de uma Cooperativa de Estudos, cujo responsável era Lopes Cardoso.

Foi nesse andar da Duque d’Ávila que mais tarde começaram a funcionar as primeiras secções do PS – sectoriais e de residência Foi também aí que conheci pessoalmente Tito de Morais e que tive o privilégio de com ele colaborar. Pois, precisamente no dia 1 de Maio de 74, comunicara a Teresa Loureiro, que  conhecía desde o Liceu D. Filipa de Lencastre,  da minha disponibilidade para colaborar e apoiar o PS.  E,  logo na manhã do dia 3  a Teresa telefonou-me a pedir para ir para lá, porque além dela só lá estava a Maria Antónia Catanho de Menezes e uma outra Senhora.

Claro que correspondi de imediato à chamada. A minha militância activa começou desde esse dia. Fi-lo como uma homenagem póstuma a meu Pai, José Carvalho dos Santos, que fora um jovem político interveniente na Iª República e que, entre outras acções, exerceu as funções de Chefe de Gabinete do Presidente do Conselho de Ministros Francisco Cunha Leal, Deputado da Nação pelo círculo eleitoral de Viseu e Governador Civil de Viseu. Em princípios de 1933, resolveu exilar-se voluntariamente para Angola onde exerceu com reconhecido saber a advocacia. Esta resolução deveu-se à sua defesa intransigente e publica pela autonomização das colónias, opondo-se às resoluções do Acto Colonial de 1930 bem como pela sua discordância com a política da governação autoritária de Oliveira Salazar, quer como Ministro das Finanças, quer posteriormente, como Presidente do Conselho de Ministros.

Anteriormente ao exílio Tito de Morais, devido às perseguições da PIDE, que impunha às Empresas que lhe davam emprego que o despedissem, fora viver para Luanda. Nesse período, antes de ser preso, conseguiu exercer a sua profissão e, discretamente, também actuar politicamente. Nessa sua acção contactou alguns oposicionistas ao regime de Salazar, entre os quais meu Pai, que vivia em Benguela. Devido a esse esforço conjunto, quer em Luanda, Benguela e em muitos outros distritos de Angola, contrariamente ao acontecido na então Metrópole, Humberto Delgado ganhou as eleições.

Pela admiração que a figura de Tito de Morais sempre me inspirou, foi-me particularmente gratificante tê-lo conhecido, ter tido o privilégio da sua amizade, de o ter entrevistado em Abril de 1991 e consequentemente ter elaborado a sua Biografia.

Ao evocar Tito de Morais, não posso deixar de referenciar o seu filho, João, que sentia fortemente a responsabilidade dos valores que herdara dos seus maiores.

Entre outros episódios políticos que vivemos no período pós 25 de Abril, em que ainda se lutava pela estabilidade da democracia, retenho na memória o seguinte facto. Estávamos na Duque d’Ávila. O João recebera um telefonema de um capitão de Abril, que na qualidade de membro do MFA, a funcionar na Cova da Moura, fora incumbido da cedência de edifícios aos partidos para a instalação das suas sedes. Este Oficial perguntara-lhe se o PS aceitaria o palácio sito em S. Pedro de Alcântara, onde funcionara a censura e pedia-lhe para visitar o citado prédio. O João muito satisfeito convidou-me a ir também. Tinha de decidir e gostaria da minha opinião. Fez idêntico convite a mais duas pessoas,  uma das quais foi à Maria do Carmo Maia Cadete.

Ambos fazem parte do álbum das minhas boas recordações. Inevitavelmente recordo sempre Manuel Tito de Morais e seu filho João Tito de Morais com enorme carinho, admiração e muita saudade.

 

* Fonte – Conferência Internacional da Juventude para a Segurança Social – Florença, Dez. de 1971 – Pensamento retirado da sua Intervenção que se encontra no Espólio.



publicado por Maria José Gama às 02:20
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Sábado, 19 de Dezembro de 2009

Homenagem 1996Em Abril de 1991, Maria José Gama entrevistou Manuel Tito de Morais para fazer o registo da sua nota biográfica, a mais completa até hoje  conhecida.

Este trabalho já foi publicado no Acção Socialista por duas vezes, em 9 de Maio de 1991 e em 6 de Janeiro de 2000, e no número especial do Portugal Socialista que foi editado em Outubro de 1996, por ocasião da Homenagem Nacional que lhe foi prestada.

Trata-se de um documento único que nos revela muito do percurso de um dos principais obreiros da criação do Partido Socialista.

É uma peça fundamental para o conhecimento de uma personagem essencial do processo democrático português no Século XX.

O registo está disponível em .pdf na coluna da direita deste blog, no item em destaque.



publicado por Maria José Gama às 00:30
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Sábado, 12 de Dezembro de 2009

Maria Raquel dos Reis Rodrigues

 

Maria Raquel dos Reis Rodrigues

(1936.08.08 - 2009.11.03)

 

Falar de Raquel Reis é extremamente difícil, pois será utópico pensar retratá-la plenamente, em virtude do seu extenso e rico currículo.

Muito empreendedora, objectiva e determinada, a investigação científica foi a sua grande paixão. Carreira que abraçou com brilhantismo. Possuidora de uma inteligência de elevado nível e de inúmeras capacidades, era uma pessoa especial e multi-facetada. Estudar era o seu maior prazer. No entanto soube, na perfeição, gerir o seu tempo, entre a docência, a política – como militante activa do PS –, a família e o convívio entre os amigos, que gostosamente cultivava.

Órfã de mãe aos 15 anos, aprendeu com este rude golpe que, para vencer as agruras no advir dos seus dias, teria que ser forte. Sentimento que sempre a norteou. Jamais fraquejou perante as adversidades e dificuldades que, inevitavelmente, lhe surgiram ao longo da vida. Corajosa e conscientemente contornava as situações e lutava com veemência para as ultrapassar e resolver.

Natural de Lisboa, aqui estudou, tendo terminado o ensino secundário no liceu D. Filipa de Lencastre, em 1953. Ingressou na Faculdade de Ciências de Lisboa e em 1966 licenciou-se em Ciências Matemáticas. Na qualidade de bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1980, fez doutoramento em matemática na Universidade Eötvös Lörand – Budapeste, ao apresentar e defender a tese “Partial residuals on proupoid-lattices” em que obteve a classificação de summa cum laude, a mais alta classificação concedida por aquela Instituição.

Em 1999, como Professora Auxiliar da Universidade Aberta e já com larga experiência na formação de professores deu início, ao seu sonho de sempre, à investigação, sendo de referir entre outras a “Teoria das Ideias”.

Desde então o curriculum de Raquel Reis valorizou-se e aumentou muitíssimo. Leccionou, dirigiu mestrados, fez parte de júris de mestrados e de doutoramentos. Organizou, colaborou e participou, a nível nacional e muito especialmente internacional, em congressos, seminários e conferências. Publicou vários trabalhos de investigação, designadamente nas áreas da álgebra e da lógica.

Apesar de Jubilada, continuou a desempenhar acções de desenvolvimento na sua faculdade onde apresentou vários projectos, inclusive sobre gerontologia. Em reuniões sociais encantava pela sua afabilidade, comunicabilidade e na qualidade de boa contadora de histórias.

A título de curiosidade recordo uma conversa tida com Raquel, onde orgulhosamente me deu a saber que seu pai, Jaime Rodrigues, conhecido perito de arte de ourivesaria, designadamente de jóias antigas, as quais por vezes negociava na sua loja de antiguidades, emprestara ao Estado Português uma jóia linda e valiosa que pertencera à Rainha Vitória de Inglaterra a fim de ser fotografada para a capa do programa oficial da visita da Rainha Isabel II ao nosso país.

Raquel, devido ao seu dinamismo, após o falecimento de seu Pai, conseguiu, durante largos anos, manter em funcionamento a loja de antiguidades cumulativamente com a sua actividade profissional.

Reportando-me às amizades, gostaria de destacar o carinhoso afecto que sempre dedicou a sua irmã Irene e aos sobrinhos Sara Raquel e Ricardo Lázaro, bem como à sua afilhada Paula Maria Reis Inácio e de lembrar também a forte ligação que desde pequena a uniu ao “clã” Tito de Morais. Certamente, por ter perdido muito cedo a sua mãe, refugiava-se na casa destes amigos cujas filhas mantiveram sempre com a Raquel uma permanente e fraternal amizade.

A nossa querida amiga Raquel, elemento empenhado e activo da Comissão Executiva da Comemoração do Centenário de Tito de Morais (CCTM), vai fazer falta. Toda a Comissão, com enorme saudade e imensa mágoa pela sua repentina e inesperada partida, presta-lhe a mais profunda e sentida homenagem.

A Comissão ficou mais pobre. Mas, sobretudo o país, que talvez não a tenha apreciado com a mesma grandeza como foi reconhecida no estrangeiro, ficou de certeza mais pobre.

Nota biográfica em documento pdf

Autoria do apontamento biográfico: Maria José Gama em 2009.12.12

Bibliografia na área cientifico-profissional: Curriculum Vitae de 2004, cedido pela sua irmã Dra. Maria Irene Reis Rodrigues.



publicado por Maria José Gama às 20:55
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Tito de Morais - 1974
CCTM
Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais

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