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CCTM

Comemorações do Centenário do nascimento de Manuel Tito de Morais

15
Jul10

Sempre em defesa dos valores republicanos e socialistas

CCTM

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O Eng.º Tito de Morais foi uma das minhas referências políticas. É-o ainda a sua memória.

Conheci-o em Madrid, juntamente com Mário Soares, onde para os encontrar me desloquei, em pleno salazarismo. Mário Soares estava exilado em Paris, e Tito de Morais exilado em Itália. Eu advogava em Lourenço Marques, capital de Moçambique, e vinha com frequência a Lisboa, por motivos profissionais. Encontrava-me com o meu velho amigo Salgado Zenha, com Raul Rego, o Gustavo Soromenho, e os outros revolucionários do costume, que tinha conhecido por intermédio de Soares e Zenha.

O tema do encontro de Madrid foi, como sempre, o problema do Ultramar e o derrube do ditador.

Tito de Morais causou em mim uma forte impressão. O futuro viria a confirmá-la. Ele viria a editar e difundir o “Portugal Socialista” e, mais tarde, esteve entre os fundadores do Partido Socialista.

Reencontrámo-nos na exaltação dos cravos, quando ele e Mário Soares regressaram, livres, a Portugal. Eu estava em Lisboa quando a liberdade eclodiu, vivi a exaltação de ser livre, pela primeira vez, quarenta e oito anos depois de ter nascido e, pouco depois, regressei definitivamente a Portugal para integrar o primeiro governo provisório.

É inimaginável a alegria com que, na cerimónia da posse, pude encontrar a meu lado os meus velhos companheiros de luta Mário Soares, Salgado Zenha e Raul Rego. Além do meu amigo Prof. Adelino da Palma Carlos, como Primeiro-Ministro.

Como entrei para o Governo na qualidade de independente, o PS pôde contar sempre com um voto a mais nas reuniões dos sucessivos governos provisórios – nada menos de cinco – em que participei antes do primeiro governo constitucional. Neste e nos demais de que fiz parte, já votei como militante do P.S.

E foi nos encontros partidários e pessoais, não só como camarada, mas crescentemente amigo, que melhor conheci e crescentemente admirei o Manuel Tito de Morais. Foi para mim, sobretudo, um exemplo de dignidade pessoal. Como lutador político, e sobretudo como agente, foi sempre um corajoso exemplo de aprumo pessoal, rigor funcional, e exigência ética.

Nas reuniões do partido, esteve sempre do lado do respeito pelos princípios e os valores republicanos, democráticos e socialistas. Debalde se lhe oporiam exigências do pragmatismo e da realidade. Foi sempre, nesse sentido, um fervoroso cultor do pensamento utópico. Nunca cultivou a ambição de cargos ou se bateu por eles. Bem ao contrário, rejeitou alguns. No partido foi tudo o que quis ser. Pertenceu sempre aos mais altos órgãos. Fora dele, abriu apenas duas excepções: aceitou ser Secretário de Estado e Presidente da Assembleia da República.

Diferente terá sido a satisfação que um e outro desses cargos lhe proporcionaram. Tito de Morais não era um executivo. Se tivesse querido sê-lo, não lhe teriam faltado oportunidades. Na administração pública e fora dela. Mas não quis.

E não quis, entre outras razões, porque nunca o seduziram as altas honrarias e remunerações, ou mesmo a riqueza em si. Viveu modestamente até ao fim.

Onde terá bebido essa sua tão sedutora personalidade? Decerto nos princípios de ética política a que sempre foi fiel. Mas também nos genes e nos exemplos que herdou de seu pai, um ilustre oficial da Marinha que foi uma figura destacada da revolução republicana de cinco de Outubro de 1910. Bateu-se a partir de barcos surtos no Tejo, e é sabido que, o que mais cedo fez fugir o jovem rei D. Manuel, que não tinha nascido para actos de coragem, foi a bombarda com que um desses barcos logrou atingir o quarto de dormir do rei no Palácio das Necessidades. Em razão disso tomado de pânico, partiu para Mafra, daí para Ericeira, e daí para o exílio, no iate real que tinha estado na origem de um dos escandalosos adiantamentos não pagos à Casa Real, que tanto deterioraram a imagem do rei D. Carlos. Tito de Morais terá herdado de seu pai a mística de aprumo cívico e ético que foi a dominante de toda a sua vida.

Passa este ano o centenário de Manuel Tito de Morais. O País e a República têm para com ele umas dívidas de exemplar cidadania. E se saldássemos essa dívida?

Como seu camarada e amigo; como venerador da sua memória e do seu exemplo, eu veria isso com inultrapassável satisfação. Sei que a Câmara Municipal cogita num busto. Sei que a Assembleia da República programa também uma homenagem. Esses actos são justos. Mas não serão pouco?

António de Almeida Santos
Presidente do Partido Socialista

© CCTM (169)

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Notas do Webmaster (2022 e 2026)

Este Blog está, como se pode ler no "feed", selado para memória desde o dia 2010.07.29, data em que a Comissão Executiva das Comemorações do Centenário do nascimento de Tito de Morais se extinguiu.
O tempo (12 anos), em termos de evolução tecnológica, é inimigo das selagens e o Blog, para que continue a reflectir a memória, teve de ser tecnicamente “desselado” para manutenção.
Na minha qualidade de webmaster reactivei as imagens, uma vez que a base de dados onde estavam alojadas foi descontinuada, e procedi a alguns ajustes para permitir que este acervo se mantenha funcional. Estes trabalhos decorreram entre 14 e 25 de Setembro de 2022
Se em relação ao texto fica a garantia de praticamente nada ter sido alterado, com excepção de alguns links externos entretanto quebrados ou já inexistentes, já no grafismo original houve que fazer pequenos acertos.
A nota justificativa está registada na última (primeira) página do Blog.
Luís Novaes Tito
luismariatito@gmail.com
2022.09.25
E.T. Devido ao anúncio da plataforma SAPO de que irá descontinuar em 2026 os Blogs nela alojados e apagar todos os registos, inseri um novo "post" no final do Blog dando conhecimento do que se irá fazer. Lamentando uma vez mais que não seja possível manter este registo nos termos em que foi concebido, aconselho a sua leitura.
A nota está registada na última (primeira) página do Blog.
Luís Novaes Tito
luismariatito@gmail.com
2026.03.01

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